O quarto poder, pois então!
Abril 11, 2007
Toda a gente fala do caso Sócrates/Independente. Terá o primeiro-ministro mentido, ou não, para alcançar o diploma? Pressionou, ou não, os administradores da UnI para lhe darem o canudo “rapidinho”.
Ora, aquilo que se discute hoje nada mais é que não o resultado de uma investigação jornalística. Há mais de dois anos que circulava pela blogosfera o rumor de que havia mais buracos na licenciatura de Sócrates do que na IP5.
É Pacheco Pereira que relembra que já em 2005 António Balbino Correira lançou as farpas iniciais. Dois anos depois, e com o escândalo em torno das contas da UnI ao rubro, o Público investigou a carreira académcia de um tal José Sócrates que em 1996 havia, na dita universidade, completado a sua licenciatura em Engenharia Civil, com especialização no área da política ambiental.
Por que razão esta notícia passeou-se pela blogosfera por dois anos até ser tratada como devia ser pelos jornalistas portugueses, não sei. Pacheco Pereira diz que esse atraso se deve à “complacência” e “deslumbramento pelo poder” da comunicação social.
Diz ainda o antigo eurodeputado que o “consenso de rebanho [que existe] entre jornalistas sobre aquilo que se deve falar, e sobre os temas malditos que «sujam» as mãos de qualquer profissional e merecem o ostracismo dos outros, é o resultado destilado dos gostos, amizades pessoais e políticas, ideias feitas, ignorâncias activas, vinganças que unem grupos de jornalistas entre si”.
Sobre tudo isto, muito poderia dizer. Porém, aquilo que me interessa é destacar o papel que o jornalismo de investigação, neste caso do Público, teve nesta história.
A partir do momento em que o jornal publicou a notícia, sabe-se hoje que vários telefonemas foram feitos pelo próprio Sócrates e pelo seu gabinete, para redacções de todo o país a procurar, primeiro, refutar a notícia do Público e, em segundo, mostrar disponibilidade em esclarecer as dúvidas levantas pelo artigo.
Desde que tomou posse, Sócrates tem sido habilidoso – e ofensivo – na forma como lida com os media. Quando precisa deles, manipula-os a seu favor, quando são inconvenientes sai pelas traseiras. E a imprensa, uns mais outros menos, adora-o e contribui para o culto da sua personalidade.
Talvez por isso mesmo, órgãos tão sérios quanto o Público não quiseram dar destaque ao facto. Falo da RTP, do Sol, do DN, etc. Foi só quando o Expresso voltou a pegar na notícia – duas semanas depois – que esta se tornou grande demais para ser ignorada.
Que Sócrates tenha, antes de ter falado ao país, ligado para as redacções a esclarecer as dúvidas que pairavam sobre a sua formação académica, já é mau; que tenha pressionado algumas para publicar artigos contestatários ao do Público é péssimo.
O nosso perito em “one man shows” precisa dos media para poder actuar. Mas, claro, apercebe-se do poder destrutivo que poderão ter na política, quando não estão a favor dos políticos. Ou não se lembrará ele do que fizeram a Santana e Ferro?
Por isso, ele quer controlar a imprensa. Por isso, Augusto Santos Silva, o ministro responsável pela tutela da comunicação social, quer aprovar, à bruta e à força, as novas leis da imprensa, extremamente restritivas para o jornalismo mas bastante cómodas para quem se encontra no poder.
Também por isso, pressionou a Renascença para apresentar um pedido de desculpas à sua pessoa, pela difusão de uma peça sobre o seu envolvimento na UnI. Quando lhe disseram que não, o seu gabinete ameaçou com processo judicial
Se Sócrates vier a pagar politicamente o preço por ter vigarizado na obtenção da sua licenciatura, a responsabilidade não será do Ministério Público, nem dos seus adversários políticos, mas sim de um artigo, um simples artigo de jornal escrito no momento certo.
Cheirinho a Watergate…
Faz toda a diferença
Abril 11, 2007
Muito se tem dito e escrito acerca do diploma de José Sócrates. Nesta altura, quase todos duvidam de que o nosso primeiro seja, afinal, engenheiro.
A este respeito, do plano individual, pouco me interessa se Sócrates é ou não engenheiro. A sua função não é construir pontes. Dito isto, não me parece tão desprezível que José Sócrates, primeiro-ministro, tenha mentido e falcatruado de modo a alcançar o diploma.
É exactamente aquilo que diz José Leite Pereira, isto é, aquilo que é verdadeiramente importante é “saber se Sócrates disse que era uma coisa que realmente não é”.
Sócrates fez exames ao domingo e conseguiu equivalências estranhas de outras instituições. Quatro dos seus cinco exames foram certificados por um mesmo indivíduo, que agora nem se sabe se era docente da Universidade Independente (UNI), ou não e, caso fosse, qual a sua função dentro da UnI. Nas pautas as notas são diferentes daquelas que tem na sua ficha pessoal.
Portanto, que a licenciatura de Sócrates foi, no mínimo, colorida, apenas restando saber se o então secretário de estado usou de influência junto da administração da UNI ou se, pelo contrário, a formatura do primeiro-ministro é apenas mais um exemplo de uma universidade gerida por corruptos.
Se a resposta for esta última, urge investigar como funcionam as outras universidades privadas e, também, descobrir que outros “engenheiros” se formaram lá; se, pelo contrário, a resposta for a primeira situação, Sócrates tem muito que justificar e Cavaco poderá ter de tomar a decisão mais importante da sua presidência.
É que, se José Sócrates mentiu e aldrabou para se tornar engenheiro ambiental – até já se provou que a UNI nunca leccionou qualquer cadeira Planeamento e Política do Ambiente – que mais terá omitido ao país
E o PSD dorme.