Com cada vez mais buracos
Abril 14, 2007
Na edição de hoje, o Público – mais uma vez – dá a conhecer mais algumas discrepâncias no processo de licenciatura do primeiro-ministro. De acordo com o jornal, existe um certificado de habilitações em posse da Câmara Municipal da Covilhã (CMC) que não coincide com aquele mostrado por Sócrates na RTP.
São, nomeadamente, seis as notas divergentes entre um documento e o outro. Para além dessas disparidades, surgem também problemas ao nível das datas. No certificado da Covilhã, Sócrates é referido como tendo completado a licenciatura a 8 de Agosto de 1996. Ora, de acordo com o despacho da UnI o então secretário de Estado adjunto terminou o curso a 8 de Setembro de 1996, isto é, um mês depois.
Mais, o documento em posso da CMC refere como tendo sido feitas na UnI duas cadeiras que, afinal, não o foram. As cadeiras de Computação Numérica e Investigação Operacional foram, isso sim, completadas no ISEC e ISEL.
Para além de tudo isto, já ontem o mesmo jornal – cada vez gosto mais do Público – vinha esclarecido que Sócrates já conhecia António José Morais, o tal professor que o passou a quatro cadeiras e que ainda andou pelo governo. A relação entre os dois teve início, pelo menos académico, no ISEL um ano antes.
Foi também ontem noticiada a garantia dada por quatro alunos, da turma de Sócrates na UnI, que garantem nunca o ter visto nem nas aulas nem nos exames da cadeira de Inglês Técnico.
Aquilo que se pode depreender de tudo isto é que para Sócrates nunca foi importante o curso mas sim o diploma. Precisava de um estatuto respeitável. Nunca se preocupou com a qualidade de ensino das instituições ou professores. O que ele queria era o canudo.
Também me parece confuso que alguém que leve a sua educação a sério ande a saltar de faculdade em faculdade com a desculpa de ser mais perto. Tudo me parece muito estranho. Mas uma coisa é certa: Sócrates, a partir deste caso, deixa de servir de exemplo para quem quer que seja. Muito menos para os estudantes do ensino superior.
Um pouco na linha do que diz Paulo Portas, “ficará sem a arrogância moral”, e ainda mais de acordo com o que sugere Vasco Pulido Valente, “sem autoridade moral (…) faça o que fizer, nunca tornará a ser o que foi”. Nunca.
Benfiquista sofre
Abril 13, 2007
Vou ser sincero. Acreditava piamente que o meu Benfica iria ganhar a Taça UEFA. Eu sei que o Sevilha e o Bremen têm boas equipas mas tinha mesmo a sensação de que o caneco era nosso. Contudo, agora sei que estava a pensar mais com o coração do que com a cabeça.
E isto porque uma equipa de futebol para ter sucesso na Europa do futebol, mesmo na Taça UEFA, tem de ter mentalidade ganhadora. Tem de procurar vencer todos os jogos e dominar todos os adversários. É preciso encarar o jogo de frente e atacar a bola com a convicção de que ninguém quer a vitória mais do que nós.
E, infelizmente, o meu Benfica não é uma equipa dessas. O Glorioso não teve ao longo de toda a época essa postura. De Viena e Barcelona, passando por Copenhaga e Manchester o Benfica nunca procurou dominar os jogos. Bastava sobreviver. Não ganhamos nenhum jogo fora de casa, e nunca o tentamos verdadeiramente. E muita gente ficou contente pelo resultado de Barcelona pelo facto de termos marcado dois golos. Perspectiva estúpida! O Espanhol é uma equipeca de meio da tabela, que luta pela manutenção e o Benfica é um dos maiores clubes do Mundo. A obrigação da equipa era chegar a Barcelona e dominar o jogo, matar a eliminatória em Espanha.
Mas isso significaria um pensamento vitorioso. Significaria jogar com intensidade e energia. E o Benfica é uma equipa leve, que deixa jogar sem incomodar muito. Razões? A fadiga, dirão alguns. Culpados? Fernando Santos, dirão outros.
Claramente, Fernando Santos tem culpa na forma desorganizada como a equipa joga, pela falta de rotatividade que impõe no plantel, pelo cansaço de jogadores chave. Existem demasiados equívocos tácticos e técnicos no clube. Mas serão todos da sua responsabilidade? A direcção tem culpas nalguns aspectos, logo na escolha de Santos para treinador.
Ora, porque se contratou Derlei? Um jogador acabado que não acrescenta nada. Como não se contrata um homem de área? Porque saiu Alcides se não há alternativa a Nelson? Porquê massacrar Léo com minutos sobre minutos, quando há Miguelito, jogador mais do que capaz de substituir o brasileiro durante alguns jogos? Já agora, porque não usar mais vezes Beto, pois se serviu para Koeman, porque não serve para rodar com Petit e Katsouranis? Se Santos não confia nos restantes jogadores, porque estão no plantel?
Enfim, uma série de erros da administração do futebol do clube que conduziram à eliminação da Liga dos Campeões – num grupo mais do que acessível – e a derrotas em Paris e Barcelona que eu nada dignificaram o clube e o futebol nacional.
Mesmo a vitória na UEFA seria apenas um mal menor porque, na verdade, o Benfica tinha obrigação de ter uma prestação mais longa na Liga dos Campeões – a equipa é mais fraca do que a do ano passado? Ou é menos bem treinada?
Nunca gostei muito de Koeman. Acho que menosprezava a história e a posição que o clube ocupa no contexto futebolístico, mas apresentava resultados na Europa. Com o engenheiro – este parece que a sério – jogamos mal na Europa, mal na Liga e nem existimos na Taça. Melhor, temos bons momentos de quando em vez, mas em termos de consistência não há nada.
O problema reside na mentalidade da equipa. E, com Santos o Benfica nunca terá um pensamento vitorioso na Europa, nunca será uma equipa de verdadeira dimensão e propensão europeia. Quem eliminou o SLB não foi o Espanhol; foi o cansaço físico e psicológico da equipa.
Este era o mês de todas as decisões. O mês para atacar o título e a UEFA. Em quatro jogos, três empates e uma derrota. Em 3 desses jogos, a equipa jogou perante estádios cheios de adeptos que sofreram por ela. E os jogadores, impotentes, nada puderam devolver aos aficionados.
Agora, é tentar ganhar os seis jogos que faltam e esperar por duas escorregadelas do FCP. E, depois desta época é preciso planear bem melhor a próxima, contratando jogadores de craveira, com capacidade de aguentarem a pressão e as exigências de jogar pelo Benfica. E, para além disso, reintroduzir na equipa a mística ganhadora que faz parte da alma e da chama imensa que caracteriza o ser benfiquista. A começar por um treinador ganhador e confiante, sem um discurso fechado, acanhado.
Para os benfiquistas é tempo de sofrer. Sofrer mais um bocado. Esse até nem seria o maior problema, pois já estamos habituados a aguentar tudo e mais alguma coisa, mas gostaríamos de ter algumas recompensas por isso. Vitórias a sério.
Ai, Benfiquista sofre…
Sócrates convenceu quem?
Abril 12, 2007
Naturalmente, o tema dominante da entrevista de José Sócrates à RTP e RDP foi a Universidade Independente (UnI). Moderada por José Alberto Carvalho (director-adjunto de informação da RTP) e Maria Flor Pedroso (especialista em política nacional da Antena 1) esta conversa a três mostrou um Sócrates confuso, desorientado e pouco à vontade.
Sócrates procurou defender-se sem nunca ser atacado. Se o seu objectivo era acabar com as dúvidas em torno da sua licenciatura, então foi totalmente falhado. As questões colocadas foram aquelas que estavam na ordem do dia. Nunca foi posto em causa o trabalho do “aluno” Sócrates, antes tentou-se perceber algumas das incongruências que se têm levantado em torno da UNI e da forma como os graus académicos eram obtidos na universidade.
Os dois jornalistas estiveram em bom plano, evitando cair na brejeirice e no mau gosto. O profissionalismo foi evidente, mas algumas questões ficaram por responder, por clara inépcia do entrevistado: é possível pedir uma transferência para outra sem apresentar um plano de cadeiras completas – a boa-fé do estudante será suficiente? O que levou Sócrates a corrigir, manualmente, a sua biografia parlamentar em 1993? Sócrates beneficiou de tratamento especial na UnI? Se sim, era essa uma realidade costumeira na universidade? Qual o verdadeiro relacionamento de Sócrates com a imprensa e qual a extensão da sua influência sobre os jornalistas? Questões que ficaram por responder. E continua a ser legítimo discutir a natureza da licenciatura de Sócrates.
Para ler a versão integral deste post, consultar aqui.
O quarto poder, pois então!
Abril 11, 2007
Toda a gente fala do caso Sócrates/Independente. Terá o primeiro-ministro mentido, ou não, para alcançar o diploma? Pressionou, ou não, os administradores da UnI para lhe darem o canudo “rapidinho”.
Ora, aquilo que se discute hoje nada mais é que não o resultado de uma investigação jornalística. Há mais de dois anos que circulava pela blogosfera o rumor de que havia mais buracos na licenciatura de Sócrates do que na IP5.
É Pacheco Pereira que relembra que já em 2005 António Balbino Correira lançou as farpas iniciais. Dois anos depois, e com o escândalo em torno das contas da UnI ao rubro, o Público investigou a carreira académcia de um tal José Sócrates que em 1996 havia, na dita universidade, completado a sua licenciatura em Engenharia Civil, com especialização no área da política ambiental.
Por que razão esta notícia passeou-se pela blogosfera por dois anos até ser tratada como devia ser pelos jornalistas portugueses, não sei. Pacheco Pereira diz que esse atraso se deve à “complacência” e “deslumbramento pelo poder” da comunicação social.
Diz ainda o antigo eurodeputado que o “consenso de rebanho [que existe] entre jornalistas sobre aquilo que se deve falar, e sobre os temas malditos que «sujam» as mãos de qualquer profissional e merecem o ostracismo dos outros, é o resultado destilado dos gostos, amizades pessoais e políticas, ideias feitas, ignorâncias activas, vinganças que unem grupos de jornalistas entre si”.
Sobre tudo isto, muito poderia dizer. Porém, aquilo que me interessa é destacar o papel que o jornalismo de investigação, neste caso do Público, teve nesta história.
A partir do momento em que o jornal publicou a notícia, sabe-se hoje que vários telefonemas foram feitos pelo próprio Sócrates e pelo seu gabinete, para redacções de todo o país a procurar, primeiro, refutar a notícia do Público e, em segundo, mostrar disponibilidade em esclarecer as dúvidas levantas pelo artigo.
Desde que tomou posse, Sócrates tem sido habilidoso – e ofensivo – na forma como lida com os media. Quando precisa deles, manipula-os a seu favor, quando são inconvenientes sai pelas traseiras. E a imprensa, uns mais outros menos, adora-o e contribui para o culto da sua personalidade.
Talvez por isso mesmo, órgãos tão sérios quanto o Público não quiseram dar destaque ao facto. Falo da RTP, do Sol, do DN, etc. Foi só quando o Expresso voltou a pegar na notícia – duas semanas depois – que esta se tornou grande demais para ser ignorada.
Que Sócrates tenha, antes de ter falado ao país, ligado para as redacções a esclarecer as dúvidas que pairavam sobre a sua formação académica, já é mau; que tenha pressionado algumas para publicar artigos contestatários ao do Público é péssimo.
O nosso perito em “one man shows” precisa dos media para poder actuar. Mas, claro, apercebe-se do poder destrutivo que poderão ter na política, quando não estão a favor dos políticos. Ou não se lembrará ele do que fizeram a Santana e Ferro?
Por isso, ele quer controlar a imprensa. Por isso, Augusto Santos Silva, o ministro responsável pela tutela da comunicação social, quer aprovar, à bruta e à força, as novas leis da imprensa, extremamente restritivas para o jornalismo mas bastante cómodas para quem se encontra no poder.
Também por isso, pressionou a Renascença para apresentar um pedido de desculpas à sua pessoa, pela difusão de uma peça sobre o seu envolvimento na UnI. Quando lhe disseram que não, o seu gabinete ameaçou com processo judicial
Se Sócrates vier a pagar politicamente o preço por ter vigarizado na obtenção da sua licenciatura, a responsabilidade não será do Ministério Público, nem dos seus adversários políticos, mas sim de um artigo, um simples artigo de jornal escrito no momento certo.
Cheirinho a Watergate…
Faz toda a diferença
Abril 11, 2007
Muito se tem dito e escrito acerca do diploma de José Sócrates. Nesta altura, quase todos duvidam de que o nosso primeiro seja, afinal, engenheiro.
A este respeito, do plano individual, pouco me interessa se Sócrates é ou não engenheiro. A sua função não é construir pontes. Dito isto, não me parece tão desprezível que José Sócrates, primeiro-ministro, tenha mentido e falcatruado de modo a alcançar o diploma.
É exactamente aquilo que diz José Leite Pereira, isto é, aquilo que é verdadeiramente importante é “saber se Sócrates disse que era uma coisa que realmente não é”.
Sócrates fez exames ao domingo e conseguiu equivalências estranhas de outras instituições. Quatro dos seus cinco exames foram certificados por um mesmo indivíduo, que agora nem se sabe se era docente da Universidade Independente (UNI), ou não e, caso fosse, qual a sua função dentro da UnI. Nas pautas as notas são diferentes daquelas que tem na sua ficha pessoal.
Portanto, que a licenciatura de Sócrates foi, no mínimo, colorida, apenas restando saber se o então secretário de estado usou de influência junto da administração da UNI ou se, pelo contrário, a formatura do primeiro-ministro é apenas mais um exemplo de uma universidade gerida por corruptos.
Se a resposta for esta última, urge investigar como funcionam as outras universidades privadas e, também, descobrir que outros “engenheiros” se formaram lá; se, pelo contrário, a resposta for a primeira situação, Sócrates tem muito que justificar e Cavaco poderá ter de tomar a decisão mais importante da sua presidência.
É que, se José Sócrates mentiu e aldrabou para se tornar engenheiro ambiental – até já se provou que a UNI nunca leccionou qualquer cadeira Planeamento e Política do Ambiente – que mais terá omitido ao país
E o PSD dorme.
A páscoa
Abril 7, 2007
Para além das cruzes e dos beijos ao menino, a Páscoa traz as férias, um óptimo momento para fazer uma profunda introspecção e escrever menos no blog. Mas, podem estar descansados, pois o blog não se irá eclipsar. Juro.
Boa páscoa.
Afinal, somos uma democracia ou não?
Abril 2, 2007
Está a fazer confusão a muita gente um cartaz (reforço, um) colocado em Lisboa por obra e graça do Partido Nacional Renovador (PNR).
“Basta de imigração, Nacionalismo é solução – Portugal aos Portugueses” podia-se ler no dito cartaz. Meio Mundo, desde advogados a deputados, passando por juízes e autarcas correram às câmaras e gravadores e deram conta das suas duvidadas da licitude do placar.
O líder do PNR, José Pinto Coelho, deliciou-se com a exposição gratuita que deram ao seu cartaz e por se ter falado no seu partido. Com toda a certeza que nem ele esperava o mediatismo conseguido.
A este propósito, o director do Público, José Manuel Fernandes escreveu um dos mais claros e racionais editoriais desde há muito disponíveis na imprensa portuguesa. Aquilo a que Fernandes faz alusão é ao facto (perigoso?) de muitos portugueses concordaram com o PNR – “O que está ali escrito é o que pensam muitos portugueses. Muito mais do que aqueles que votaram no PNR”.
Face a esta situação, como reagir? Os políticos, fazendo alusão à proibição de partidos fascistas na Constituição Portuguesa, pediram a intervenção da polícia e a remoção imediata do cartaz. Ora, digo eu, não serão estas medidas totalitaristas? Não será isto a proibição da livre expressão de um cidadão? Não deverá o regime democrático garantir a livre expressão?
Se a intenção é a do combate a xenofobia e ao racismo, não se conseguirá vencer essa luta através da força policial. Isso só irá dar mais poder a esses movimentos e, mesmo, uma maior legitimação social.
A única forma de travar esses grupos é através do debate. Da apresentação de ideais. Percebemos o valor que a imigração tem para Portugal? Expliquemos isso, de forma inteligente e cuidada. Compreendemos a importância que, num Mundo global, a diversidade cultural e étnica tem numa sociedade? Aclaremos os menos esclarecidos.
A beleza de viver em democracia é que todos temos liberdade de nos exprimir. E essa expressão deverá ser, sempre, livre e absoluta. Às outras facções cabe a resposta pelos mesmos trâmites. No dia em que punamos um fascista por se insurgir contra a imigração, de forma civilizada e ordeira, com recurso à proibição e interdição estamos a ser iguais a eles. Estamos a ser totalitaristas e não liberais. Perdemos o combate. Perdemos a razão.
E, como diz José Manuel Fernandes, “um liberal não proíbe nem censura, luta antes pelas suas ideias – quer quando está em maioria, quer quando é uma «minoria de um»”.