Depois do caldo entornado…
Maio 30, 2007
São dois os ‘Viktorr’ que governam a Ucrânia: Um, Iuschenko, é o presidente da República. Figura combativa que foi alvo de uma tentativa de assassinato durante a corrida à presidência da Ucfânia. Figura cara ao Ociente, tem na sua intenção de abrir o país a Oeste e fechá-lo a Leste um dos seus maiores desafios; o outro, é Ianukovitch, é o primeiro-ministro e tem o apoio de Putin e de todos os outros ucranianos que não querem ver o cordão que os liga à Rússia, mais do que cortado, dilacerado.
Os Viktorr desentenderam-se. Pode-se mesmo dizer que fizeram birra. O partido de Ianukovitch derrotou o de Iuschenko nas últimas eleições autárquicas. O primeiro-ministro ameaçava tornar-se numa figura demasiado incómoda. Iuschenko decidiu agir. Dissolver o parlamento e convocar novas eleições. Ianukovitch não gostou e ameaçou boicotar as eleições e lançar o caos nas ruas. Iuschenko não cedeu e o confronto civil foi-se tornando evidente.
Em Kiev todos os dias havia manifestações, ora a favor ou contra uma das personalidades. Iuschenko sabe que as novas eleições podem aumentar ainda mais a maioria do partido de Ianukovitch no parlamento, tal como Ianukovitch sabe que mais uma derrota contra Iuschenko poderá comprometer a sua carreira política. Enquanto pensavam, o povo agitava-se.
E, quando finalmente os Viktorr se juntam para discutir abertamente os problemas da Ucrânia, e os tentam resolver, o Viktor presidente decide aprovar um decreto que o torna no chefe das tropas e as manda para Kiev para “garantir a protecção de edifícios estatais e da ordem pública”. O ministério não gostou, e o ministro da tutela não escondeu o seu apoio a Ianulovitch contra o “pró-Ocidental” Iuschenko.
Enfim, é a democracia à moda do leste. Em que um usa o exército para pressionar o outro, e o outro usa a Rússia para pressionar o primeiro. Quem sairá vitorioso desta (estúpida) rixa? O povo ucraniano não é, de certeza.
Dias de Glória
Maio 28, 2007
O realizador Rachid Bouchareb, francês de origem argelina, apresenta o filme “Dias de Glória”, que regressa à II Guerra Mundial, a uma França ocupada que necessita dos homens das suas colónias para se defender da Alemanha.
Por isso, mais de 500 mil soldados vieram do Norte de África para lutar pela metrópole. Vieram da Argélia, vieram de Marrocos, vieram da Tunísia, vieram, enfim, da África subsariana. Vieram, é o que conta. E, vieram porquê? Alguns para fugir à miséria, outros na esperança de fazer carreira militar e outros ainda que acreditavam que em caso de vitória a França daria a independência a essas colónias.
Eram homens mal preparados. Quase sem treino, chegavam a França onde lhes davam uma farda e uma arma. O resto era com eles. “Resto” era matar e não ser morto. Eram mal alimentados porque as melhores e mais nutritivas rações eram para os franceses ‘puros’. Mas, mesmo assim lutaram ao seu lado.
Lutaram e ganharam. Porém, a vitória foi amarga. Recambiados para as colónias, quando estas deixaram de o ser perderam o direito à pensão reservada a antigos soldados.
É mais ao menos este o cenário de “Dias de Glória”, um filme feito por um realizador francês de origem argelina, com actores franceses de origem argelina.
O mais importante poderá não ser o filme, mas a possibilidade de fazer os franceses pensar. Pôr os franceses a pensar sobre a época da descolonização e da integração feita aos imigrantes vindos dessas colónias.
Bouchareb, em entrevista à Ípsilon, defendeu que “Os franceses têm necessidade de conhecer toda a história de França e os momentos dolorosos da descolonização. Mesmo que a história não seja favorável à França, ela deve ser contada. Os franceses cometeram muitos massacres em muitos países, o passado não é formidável, e é preciso falar dele”.
A França não é um país em paz consigo mesmo. Tem dúvidas e pesadelos sobre o seu passado. Tem medos e interrogações a mais sobre o seu futuro. E, hoje é uma sociedade fria a cominhar num rumo incerto. Os seus dias de glória já passaram. Agora, juntou-se ao clube dos “mortais”, percorrendo o mesmo caminho de outros antigos impérios coloniais, como Portugal ou a Bélgica e a Holanda.
Escolhas indesejadas
Maio 24, 2007
Nem Sócrates, nem Mendes escolheram quem queriam para a Câmara de Lisboa. Deverá ter sido das coisas mais custosas para José Sócrates prescindir do seu “nº2”. Em vésperas da Presidência portuguesa da UE, do Verão e dos sempre alarmantes focos de incêndio, perder o Ministro da Administração Interna era a última coisa que Sócrates queria.
Por tudo isso, António Costa não foi a primeira aposta. Coelho, Gama e Ferro Rodrigues não se mostraram interessados, enquanto que Soares se mostrou demasiado interessado. Na ausência de alguém com a confiança de Sócrates que se chegasse à frente, o nosso PM viu-se obrigado a recrutar o seu ministro favorito.
Assim se compreende a importância que a vitória em Lisboa tem para Sócrates, secretário-geral do PS, e para Sócrates, Primeiro-Ministro de Portugal, porque a escolha do primeiro levou o segundo a interferir no funcionamento de um ministério delicado e a escolher como substituto de Costa um juiz nomeado há menos de 2 meses para o Tribunal Constitucional. Medidas tão drásticas só nos podem levar a concluir que a vitória em Lisboa é findamental para o futuro político dos “dois” Sócrates, o estadista e o líder político.
Também Marques Mendes não escolheu quem queria. Aliás, aquilo que ele queria era que Carmona não tivesse sido constituído arguido e pudesse levar o mandato até ao fim – era menos uma chatice. Assim, teve de tentar reclamar alguns favores que tem vindo a prestar desde que chegou à liderança laranja. Resultado? Ferreira Leite recusou. Seara recusou. Teixeira Pinto recusou.
Tudo isso levou Mendes a puxar da cartola um nome improvável – ou duvidoso – Fernando Negrão, um ex-PJ actualmente arguido num caso relativo ao tempo em que foi administrador da Polícia.
Teríamos de ser muito ingénuos para aceitar que era Negrão quem Mendes queria. O próprio candidato não estaria à espera da tarefa. Mas, quando o líder não tem poder nem peso no partido, os ilustres não têm problemas em bater-lhe com a porta – até Santana se deu ao luxo de se excluir da corrida.
Mendes e Sócrates estão sós. Dentro dos partidos já ninguém os segue. A maioria absoluta vai aguentando Sócrates – o que tem sofrido desde a reforma de Coelho – enquanto que 2009 vai aguentando Mendes – o partido vai-lhe dar uma oportunidade. Se falhar “morreu”, politicamente falando.
Quem perder Lisboa, perderá o partido. Quem ganhar Lisboa, ganhará um balão de oxigénio que, contudo, se poderá revelar incapaz de garantir muito mais do que isso: uma aparente e rápida bonança. Os problemas regressarão depois.
“The following takes place between 1 PM and 2 PM”
Maio 23, 2007
Já cá fazia falta um post sobre o regresso de Jack Bauer aos ecrãs da televisão portuguesa. Há duas semanas que as noites de quarta-feira ficaram mais perigosas na RTP 2, com o destemido agente federal a combater as forças do mal.
Esta é a sexta temporada da série “24”. De acordo com alguns críticos televisivos norte-americanos, trata-se da mais agressiva e visceral de todas. Vamos ver. A acompanhar todas as quartas-feiras às 22h45 na RTP 2.
“Previously on 24”…
The Who – o tributo merecido
Maio 21, 2007
Não fosse o facto de ter calhado em semana de Enterro da Gata, e também eu teria estado no Pavilhão Atlântico na última quarta-feira para ver The Who. A banda de Townsend e Daltrey esteve em Lisboa e tocou para o público português.
Inovadores na escrita e no arranjo dos seus temas, os The Who pertencem àquela linha “old school” britânica, que despoja a alma em cada concerto, em cada álbum para qualquer público.
A par de outros monstros, como os Pink Floyd e Beatles – e até antes deles – criaram os chamados “álbuns conceptuais”, isto é, narrativas que se desenvolvem ao longo do disco. Uma faixa serve de capítulo. “Tommy” e “Quadrophenia” são dois dos melhores exemplos desse estilo.
Recuperados para as gerações mais novas por interpretarem os temas dos três CSI’s, os The Who são um exemplo de longevidade no rock, já não contando na sua formação actual com os contributos de Keith Moon e John Entwisle, ambos entretanto falecidos.
Muito mais se poderia escrever. Mas quando toca aos The Who, o melhor é ouvir. Ouvir e ver ainda melhor. The Who no seu melhor.
Onde está a liberdade?
Maio 19, 2007
O projecto de lei a ser elaborado pelos grupos parlamentares rumo à construção da Lei do Aborto poderá prever uma cláusula que obrigue os hospitais que, por motivos de consciência, se oponham ao aborto a encaminharem as mulheres para outras clínicas e a pagarem o tratamento.
A lógica segue um pouco esta linha: nós não fazemos abortos porque achamos moralmente incorrecto. A lei reserva-nos o direito de não irmos contra a nossa vontade. Porém, temos de pagar para que a mulher faça algo a que nós nos opomos e que, por isso mesmo, não o fizemos nós – não recebendo assim qualquer pagamento.
Numa altura em que se discutem os limites da liberdade e o estado da democracia em Portugal, é preciso ter em atenção certos decretos que roçam o totalitarismo. E este é, claramente, um deles. Porque aqui o que se passa é uma infame tentativa de pressionar os hospitais, mesmo os que não sancionem o aborto, a praticá-lo sob risco de perdas nos lucros. Então, pergunto, onde está a liberdade de decisão? A acompanhar.
E o combate vai começar
Maio 14, 2007
Lisboa está à disposição de quem a quiser tomar. António Costa e Fernando Seara parecem ser os principais candidatos. Quem sairá vencedor?
Carmona conseguiu aquilo que Marques Mendes tentou sem sucesso: ilibar do PSD das trapalhadas que aconteceram na edilidade. Ao constantemente lembrar os lisboetas da sua “independência” face aos partidos, e do cancro que muitos deles representam, Carmona Rodrigues deu carta branca ao PSD para se demarcar dos problemas na autarquia.
Mendes agradeceu e encontrou o candidato ideal: Fernando Seara que, com obra em Sintra, parece ser o nome mais forte à direita do centro para ganhar estas eleições. Se Carmona tivesse arrastado o PSD consigo para o pântano, Mendes ficava em maus lençóis e a escolha por Seara poderia ser a queima de um valioso cartucho e a perda de duas Câmaras em vez de uma (Sintra e Lisboa).
Fernando Seara é visto bem-visto na capital. Quer pelo seu historial de comentador desportivo, quer pela sua marca em Sintra, os lisboetas não desdenhariam de o ver à frente da sua cidade. Nem os lisboetas, nem o PSD que vê em Seara o nome pacificador entre todas as facções; a escolha pelo adepto de Benfica não dá espaço a que mais ninguém se “chegue à frente”; porque ele é o melhor.
António Costa é um caso diferente. Por muito bom candidato que poderia ser, António Costa é muito valioso ao Governo. Sócrates terá de decidir o que vale mais para o PS e para o Governo: António Costa ministro, ou António Costa Presidente de Câmara. Não tenho dúvidas de que seria um bom autarca, assim como não tenho dúvidas de que é um dos melhores ministros do actual executivo. A decisão de Sócrates é espinhosa, mas se Mendes avançar com Seara, o Primeiro-Ministro terá de responder com António Costa. Para o PS, perder Lisboa com este estado de coisas seria insuportável. Para fiasco, já bastou Carrilho.
A batalha pelo 3º lugar será renhida, e de difícil previsão. O PCP poderá tomar esse lugar, com Ruben de Carvalho, se bem que a candidatura de Helena Roseta possa apertar um pouco as esquerdas – não nos esqueçamos de Sá Fernandes. Porém, como o CDS/PP se encontra em “suporte de vida” – fala-se que pondera apresentar Carmona como candidato, pasme-se! – não deverá ser dali que virá perigo para o PCP.
Lançados os dados, veja-se quem terá argumentos para governar Lisboa, não por dois mas por seis anos. Eu tenho um palpite.
Mais alguém reparou…
Maio 10, 2007
… nos preços absurdos da gasolina? Desde Janeiro a BP aumentou € 0.10 o preço da Sem Chumbo 95. Até ontem, nunca tinha pago tanto por gasolina: €1.35 por litro!
O aumento da gasolina tem reflexos não sobre aqueles que usam o carro para (quase) todas as deslocações. Os transportes colectivos públicos e privados também aumentam as tarifas.
Assim, levanta-se a questão: “Por que razão é o combustível tão caro se cada barril custa apenas $4 na fonte?” E, já que estamos numa de fazer perguntas, “Por que razão a gasolina é mais cara em Portugal do que em todos os outros países da UE”?
Bem, esta última não é justa porque já sabemos por que razão pagámos mais deste lado da fronteira do que do outro. Questões conjunturais e naturais, assim como de (péssima) gestão dos recursos energéticos explicam a situação.
A ditadura democrática do capital
Maio 9, 2007
O mercado económico perfeito é o livre. É aquele que contesta as posições keynesianas da economia no pós-guerra. É o da promoção do sistema de mercado e trocas livre e de defesa do capitalismo.
O liberalismo económico pressupõe o funcionamento do Mercado numa espécie de ciclo de trocas constante à escala global. Não se devem desprezar outras medidas, como a aposta num sistema de acompanhamento permanente do trabalhor: caso este não seja rentável, deve ser demitido. Num mercado económico perfeito abundam os recursos humanos qualificados.
É a concorrência que determina o crescimento do mercado. A posição do Estado terá, necessariamente, de ser a de espectador interessado e atento, mas de participante nulo. Num mercado livre, não há necessidade de regulação estatal; é o mercado que se governa e regulamenta a si próprio. O Estado assume o papel de “árbitro” das movimentações económicas.
Isto será no estado último do capitalismo, aquele preconizado por Friedman e Harbeger, por exemplo. No estado actual, não é, ainda, possível deixar que seja o mercado a ditar as leis. Não só os agentes do mercado não têm capacidade para tal, como o próprio mercado de capitais não se encontra preparado para tal responsabilidade.
Se atentarmos ao caso português, o abandono do mercado pelo Estado seria desastroso. Numa economia debilitada e sem qualquer expressão internacional – salvo raros casos – a única forma de garantir o progresso é através de um programa contínuo de incentivo ao investimento privado.
O investimento privado é aquele que incentiva o empreendedorismo dos indivíduos. É aquele que os obriga a excederem-se uns aos outros. Exactamente por isso, é aquele que mais convém a qualquer sistema económico. Os mais ricos serão aqueles com maior posição de decisão. E esses mais ricos serão aqueles que perceberem como funciona o mercado e souberem melhor saciar as suas [do mercado] necessidades.
O futuro não se encontra na Estado Providência. Isso é o passado. O caminho a trilhar é o da liberalização do mercado, mas quando este o conseguir suportar. Até lá, o Estado terá de manter o seu papel de vigilante da economia e, em Portugal, seu principal instigador. Sem o apoio do estado, os privados não avançam. E, se eles não avançarem, a Economia não anda e o Estado tem de arcar com o desenvolvimento.
Consequência? Estado enorme, e desenvolvimento económico nulo. Resultado? Pobreza e instabilidade social. Solução? Privatizar, privatizar, privatizar. Como? Numa primeira fase, incentivar esse investimento privado. Numa posterior, deixar que seja o mercado a ditar as suas regras e ver os resultados.
O fim do anti-americanismo?
Maio 8, 2007
Há muito que a Europa se apresenta como um despropositado e, por vezes, doentio bastião do chamado “anti-americanismo”. A crítica, várias vezes infundada e estúpida, do suposto “imperialismo” americano é recorrente e apelante.
Sendo essas apreciações a maior parte das vezes da responsabilidade de pessoas que nunca cruzaram o Atlântico, surge a necessidade de ler aquilo que alguém que o fez tem a dizer. Falo do sociólogo francês Bernard-Henry Lévy que em declarações à Ípsilon deu conta de algumas das suas conclusões após ter cruzado os EUA de Este a Oeste, Norte a Sul durante a campanha eleitoral de 2004.
Aqui ficam algumas respostas a outras tantas perguntas.
Depois da viagem pela América, mudou as ideias que tinha?
Mudei. Fiz o que muito pouca gente faz: atravessar o país em todos sentidos por estrada, olhar para tudo, tentar testar os clichés quando se trata da América. (…) Uma experiência como esta transforma-se numa máquina de quebrar clichés.
Por exemplo?
Pensava que a América era um país imperial. A ideia merece ser revista. Pensava que a América não tinha sistema de saúde e de segurança social. É mais complicado do que isso. É diferente do nosso, uma mistura de público e privado, mas existe. Pensava que a América era um país materialista e é provavelmente o mais religioso do Mundo. Pensava que o Sul eram os estados da segregação, onde os negros teriam ainda um longo percurso a percorrer para cumprir o programa de Martin Luther King. Descobri que o caminho já tinha sido percorrido no essencial. Cada passo foi uma surpresa.
Há passagens do seu livro dedicadas ao Presidente Ameriano. Pelo menos inicialmente os europeus não compreendiam essa escolha…
Olhe para o seu pais. Uma civilização, um império, uma cultura e ofereceu-se a si próprio durante décadas dois cretinos: Salazar e Caetano. Isso não quer dizer nada. Na França é o mesmo. O que creio, realmente, é que George W. Bush é um parêntesis. Temos os olhos fixos em Bush, ficamos obnubilados por ele, como se ele fosse a verdade da América. Não é nada disso.
Escreve também sobre a sua experiência com as comunidades árabes, sobre o facto de se sentirem americanos, ao contrário do que acontece na Europa.
Os americanos inverteram um sistema de cidadania, um modo de regulação dialéctica entre o particular e o universal, entre a origem o destino, que funciona bastante bem. Na Europa e na França teríamos todo o interesse em inspirarmo-nos nisso.
Compara a denúncia de Abu Ghraib com a denúncia do que se passou com a França na guerra da Argélia. Diz que eles foram mais rápidos a denunciar e a condenar.
A grande diferença entre a França e a América é que a França levou 40 anos a aceitar o seu Abu Ghraib e a América levou 3 dias.
Porquê?
Porque a América é uma democracia mais viva que a França. Bastaram 48 horas para a América ser informada sobre Abu Ghraib, ficar horrorizada com Abu Ghraib e condenar Abu Ghraib.
Diz que a América não é uma nação imperial. Mas, depois da guerra-fria começou a pensar-se como império.
Não tenho a certeza disso. A questão imperial é uma questão nossa, dos europeus. Fomos nós as nações imperiais. O imperialismo é o nosso fardo. A América não tem um imaginário imperial, isso é falso. A verdadeira tentação da América, a sua tendência pesada e, talvez o maior perigo é deixar cair o Mundo – o isolacionismo.
Agora (a ideia de uma Europa anti-América) é de esquerda.
Se o anti-americanismo se transformar no programa da esquerda, isso será muito grave porque, na sua substância, é uma ideia fascista. (…) A América é uma incarnação do sonho de Rousseau, gente que vem de toda a parte e que, por um acto de vontade, decide fazer uma nação. (…) Ver uma parte da esquerda europeia ligada a este anti-americanismo de origem fascizante aterroriza-me.
E isso é um problema para a integração europeia?
Sim. Não se pode detestar a América e querer, ao mesmo tempo, a Europa. Porque a ideia de que a Europa é possível é a América que no-la dá. É já uma Europa – povos diferentes, de tradições e memórias que não têm nada umas com as outras, que formam uma nação. É isto a América e é isto de tentamos fazer na Europa.