The Great Gig in the Sky

Setembro 3, 2007

Sim, o título deste post refere-se a uma faixa de “The Dark Side of the Moon”, mítico álbum dos Pink Floyd. Mas não é deles que tratará o post.

Ao longo dos seus muitos anos de vida, o rock já perdeu várias das suas personalidades mais fortes e carismáticas. Kurt Cobain, Janis Joplin, Michael Hutchence, John Entwistle, Bon Scott, John Lennon, Syd Barrett entre muitos outros já tocam no Céu, ou numa qualquer outra área de existência pós-vida, a última paragem da viagem que é a vida.

Foram personalidades que chegaram, tocaram, inovaram e deixaram a sua marca para todo o sempre, não precisando de tocar até terem cabelos brancos para deixarem a sua impressão digital na história da música.

Bandas como Led Zeppelin, Metallica, The Who e Pantera perderam para o coveiro elementos vitais. Algumas conseguiram recuperar, outras não.

Eu gosto, por vezes, de pensar enquanto ouço “Rubber Soul”, “Wish You Were Here”, “Led Zeppelin IV”, “Ride the Lightning”, “Paranoid”, enfim, são tantos, que lá em cima alguns desses vultos do rock se juntam para umas jam sessions.

Quase que consigo ver. E ouvir, claro. John Bonham, na bateria, a dar início à sessão, com um solo improvisado de “Moby Dick”, acompanhado por Cliff Burton no baixo. George Harrison e Jimi Hendrix tocam a guitarra, o primeiro tratando de assegurar o ritmo, enquanto o outro aventura-se por solos nunca antes tocados. E Morrison, sim, Jim Morrison, com a sua voz tão divinal que chega a ser pecado ouvi-la, entretém o público. Cativa e chama a audiência, embebendo-a na sua poesia, no jogo que faz com as palavras, cruzando os seus ritmos e terminações.

Quando Morrison está cansado e pára para ir ao “Whisky Bar” entra Jeff Buckley para o seu lugar. Este, com o seu jeito meio criança, apaixona o público e envolve-o no seu timbre sublime, olhando-o como se não houvesse amanhã. Talvez se ouça o seu – e de Leonard Cohen – Hallelujah. Ironicamente perverso.

E passam a noite inteira a tocar, a tocar, porque só a música interessa, porque só fazer boa música é que interessa. Foi para isso que nasceram, é por isso que nos lembramos deles, é por isso que temos saudades deles e é por isso que quando nos juntarmos a eles vamos estar acompanhados pela derradeira e maravilhosa banda sonora.

A banda sonora vinda do céu.

Dois pesos, duas medidas

Setembro 3, 2007

Pepe foi convocado para a selecção. Aquilo que alguns temiam tornou-se realidade por desígnio de Scolari.

Muitas foram as vozes críticas que se levantaram contra a chamada do brasileiro, agora luso também. Os argumentos usados foram vários, desde o facto de Pepe não ter nascido deste lado do Atlântico, como o facto de a sua chamada tirar lugar a jogadores portugueses.

Os partidários da decisão de Scolari defendem o seleccionador brasileiro. Obikwelu não é português, no entanto todos nos emocionamos com a sua prestação nas Olimpíadas de Atenas. O facto é que, dizem estes, se o atleta em causa representar uma mais-valia para a equipa então é um esforço válido.

Eu preferia que a selecção fosse composta por jogadores nascidos e criados em Portugal. Por muito que Pepe goste de Portugal, ele não nasceu cá, não cresceu cá, não estudou cá, enfim, não partilha dos mesmos valores culturais e patrimoniais que todos os outros portugueses.

Mas, esta é uma decisão que não pode ser tomada apenas com o coração. O futebol é um negócio, e o futebol de selecção não se encontra isento desta realidade. Os Mundiais e os Europeus são a Liga dos Campeões do futebol entre federações. É nessas provas que elas recebem a grande parte do seu financiamento e prestígio. Assim sendo, é forçoso que a equipa seja reforçada e constituída pelos melhores atletas à disposição do treinador. Sejam eles nascidos ou não em Portugal.

Os grandes culpados da chamada de Pepe não são, contudo, Scolari e sua equipa técnica. São os clubes, a liga e a Federação que tardam em tomar medidas restritivas. Sessenta porcento dos jogadores a actuar na nossa Liga são estrangeiros. Se olharmos para os plantéis dos 3 grandes, vemos que a minoria dos jogadores titulares são portugueses. Quando os clubes precisam de jogadores, optam pela alternativa no mercado estrangeiro.

Miguel Vítor assumiu a titularidade no eixo da defesa do Benfica por inexistência de alternativas. Com os regressos dos três (estrangeiros) centrais lesionados, mais a contratação de Edcarlos o seu futuro a breve trecho deverá passar pelo banco. Se assim for, como poderá o jogador evoluir?

Veja-se o caso espanhol. Os clubes só podem inscrever três jogadores extra-comunitários. Para mais, o futebol juvenil é estimulado e é mais competitivo. Como resultado, aparecem todos os anos, e nas mais diversas equipas, novos jogadores espanhóis.

O fim das equipas B, a ausência de limites nos jogadores estrangeiros inscritos e a inexistência de quotas para a inclusão de jogadores nacionais e formados no clube são razões que justificam a necessidade de Scolari em recorrer a Deco, primeiro, e Pepe, agora.

E, a não ser que medidas preventivas sejam tomadas, não se ficarão por aqui e a selecção continuará a ser reforçada por jogadores nascidos noutros países, que não cantam o hino e que não ‘falam a mesma língua’.