Manchester Calling
Setembro 17, 2007
Uma impressão. Uma primeira impressão. Pouco mais será. Mas, destes primeiros dias na cidade mais fria de Inglaterra uma conclusão pode desde já ser tirada: não há sol neste país abandonado por Deus.
O Sol nasce, manhãzinha, e desaparece bem antes do meio-dia. O resto do dia é passado naquele estado intermitente resultado da tensão celestial entre as nuvens carregadas e carrancudas e as outras, em minoria, mais claras e alegres. Infelizmente, são sempre estas que perdem.
No dia em que chegamos, a temperatura máxima foi de 19ºC. Foi-nos dito que era uma óptima temperatura para Manchester. Até hoje, foi o dia mais quente desta estadia e, provavelmente, sê-lo-á em definitivo.
A cidade de Manchester parece ser o espelho de uma das mais interessantes e, porventura, ricas marcas do Reino Unido: a multiculturalidade. Desde Wilmslow Road, passando por Lloyd Street e pela Great Western Street a maior parte da comunidade é constituída por muçulmanos. Ouvir falar inglês nessas ruas é, no mínimo, difícil.
Frequente é ver mulheres tapadas, homens de barba cumprida e crianças a seguir as pisadas dos pais. A aculturação será um fenómeno mais verificável do plano material, na adesão aos bens e à sociedade consumista, do que na relação familiar, pois nem as crianças se expressam primeiramente na língua de Shakespeare.
Os habitantes estão, actualmente, a cumprir o período do Ramadão. Ou seja, não comem nada durante o dia e, ao anoitecer – aqui, extraordinariamente cedo – reúnem-se em família e jantam. Comem comida tradicional e alternam o festim com rezas. Aliás, não é invulgar ver os locais a prostrarem-se no chão, virados para Meca, e rezar para Alá.
Os tradicionais pub’s fecham à 1h00 durante a semana, às 2h00 à sexta e ao sábado. Mesmo assim, é frequente ver os ingleses na rua, com a cerveja na mão – tão boa é a nossa cerveja em comparação com a deles… – até as altas horas da madrugada, a festejar as vitórias do United ou do City, ou simplesmente a celebrar a vida. De notar que é proibido fumar em espaços fechados, sendo normal ver um grupo de meninos e meninas de cigarro na mão à porta dos estabelecimentos. Sem confusões nem alarido – se tal houvesse, a polícia, sempre em patrulha, entraria logo em acção.
A cidade é escura, mas as pessoas são mais calorosas. Sempre num típico stiff upper lip britânico, são prestáveis e carinhosas quando abordadas. Porém, não patenteiam aquele calor, aquela paixão característica e própria dos povos mediterrânicos. Talvez pela ausência do sol.
E, só depois de lamentar repetidamente a ausência de luz natural nesta cidade, onde Ronaldo é rei e Mourinho incompreendido – digo eu – e em que não se fala nos McCann, apenas me resta esperar pelo início das aulas e por um contacto mais próximo com as pessoas e com a cidade.
PS: Grande golo do Rui Costa este sábado… Temos maestro!