Skinheads à portuguesa

Setembro 20, 2007

Com a acusação feita pelo MP português a 36 membros de uma organização de extrema-direita portuguesa, Capítulo Português, com ligações à Hammerskin Nation, estalou o verniz.

Já há muito que se ouviam murmúrios de práticas de discriminação racial e étnica em Portugal, encabeçadas por portugueses contra imigrantes. Porém, agora, com esta acusação, já não se tratam de ‘murmúrios’ mas antes de gritos bem audíveis a ecoar um pouco por toda a sociedade portuguesa.

Em todas as sociedades, sabemos que existem indivíduos que compartilham ideais de xenofobia, racismo e que se associam de modo a levantar a sua voz e fazê-la ouvir na comunidade.

Durante algum tempo, foram desconsiderados. Ignorados, quase como se de uma minoria insignificante se tratasse.

Porém, circunstâncias globais como o aumento da deslocalização da mão-de-obra a uma escala muito maior – há quantos anos se tornou Portugal num país de acolhimento? – assim como a melhoria das condições de comunicação tornaram mais fácil e rápida a proliferação de tais ideais.

A revolução verificada nos transportes tornou possível que, por exemplo, líderes de movimentos neonazis se pudessem movimentar com relativa facilidade e discursassem nos mais diferentes locais, propagando assim a sua mensagem com maior fiabilidade e eficácia.

O facto é que o fenómeno da globalização facilitou todos estes processos. Tornou mais fácil e acessível a mobilização transoceânica das pessoas, mas também facilitou a difusão de todo o género de ideais, incluindo os racistas e xenófobos.

Essa associação dos movimentos skinheads às novas tecnologias permitiu uma maior organização e eficiências dessas mesmas estruturas, facultando possibilidades quase infinitas de definição de uma agenda e programa de acção, assim como alargou as bases de recrutamento.

De certa forma, o contínuo crescimento da força destes movimentos em Portugal tem uma explicação perfeitamente razoável e evidente: a maior exposição a imigrantes e a ideais de nacionalismo cada vez mais presentes na nossa sociedade.

O que fazer? Não se deve proibir. Deve ser permitido a todos os cidadãos a livre expressão de ideais e posições políticas. Aquilo que a comunidade no seu todo deve fazer é integrar as nossas comunidades imigrantes, acolhê-las e passar uma mensagem clara de que qualquer tipo de discriminação baseada na raça, no credo ou no sexo (entre outras) é errada.

Todas as grandes sociedades ao longo da história foram capazes de promover uma qualquer integração das suas comunidades imigrantes, retirando assim os benefícios que poderiam acrescentar à nação.

Uma comunidade multicultural é uma comunidade mais rica. Perceber isso é o primeiro passo para ultrapassar problemas racistas, xenófobos e/ou anti-semitas.

Deus é português

Setembro 19, 2007

Não precisei de muito tempo para constatar uma realidade da cidade de Manchester: Aqui, Deus é português e seu nome é Ronaldo, Cristiano Ronaldo.

Desde o momento em que cheguei que pude ver os miúdos a envergar camisolas do madeirense, táxis com a imagem de Ronaldo e painéis de publicidade a mostrar o 7 do United.

Quando o United sobe ao relvado, as atenções viram-se para ele. Ronaldo. Dos pés do jogador português eles esperam sempre algo de diferente, algo de mágico. Mal a redondinha chega a Ronaldo, o bruá começa: “ohhhhh”, gemem eles baixinho. Quanto mais próximo da baliza adversária estiver Cristiano, mais alto é o gemido. Até que Ronaldo chuta. E o gemido baixinho se transforma numa explosão, numa manifestação ruidosa de júbilo.

Contra o Sporting foi da cabeça que Cristiano Ronaldo resolveu o jogo. Mesmo assim, quando Ronaldo driblava sobre os adversários a emoção do público era igual ao momento em que a bola balançou as redes de Stojkovic. Os ingleses apreciam o mágico e valorizam-no.

Por isso, Deus não é brasileiro. Nada disso. Em Manchester, a força divina vem de Portugal. Deus é português.

Manchester Calling

Setembro 17, 2007

Uma impressão. Uma primeira impressão. Pouco mais será. Mas, destes primeiros dias na cidade mais fria de Inglaterra uma conclusão pode desde já ser tirada: não há sol neste país abandonado por Deus.

O Sol nasce, manhãzinha, e desaparece bem antes do meio-dia. O resto do dia é passado naquele estado intermitente resultado da tensão celestial entre as nuvens carregadas e carrancudas e as outras, em minoria, mais claras e alegres. Infelizmente, são sempre estas que perdem.

No dia em que chegamos, a temperatura máxima foi de 19ºC. Foi-nos dito que era uma óptima temperatura para Manchester. Até hoje, foi o dia mais quente desta estadia e, provavelmente, sê-lo-á em definitivo.

A cidade de Manchester parece ser o espelho de uma das mais interessantes e, porventura, ricas marcas do Reino Unido: a multiculturalidade. Desde Wilmslow Road, passando por Lloyd Street e pela Great Western Street a maior parte da comunidade é constituída por muçulmanos. Ouvir falar inglês nessas ruas é, no mínimo, difícil.

Frequente é ver mulheres tapadas, homens de barba cumprida e crianças a seguir as pisadas dos pais. A aculturação será um fenómeno mais verificável do plano material, na adesão aos bens e à sociedade consumista, do que na relação familiar, pois nem as crianças se expressam primeiramente na língua de Shakespeare.

Os habitantes estão, actualmente, a cumprir o período do Ramadão. Ou seja, não comem nada durante o dia e, ao anoitecer – aqui, extraordinariamente cedo – reúnem-se em família e jantam. Comem comida tradicional e alternam o festim com rezas. Aliás, não é invulgar ver os locais a prostrarem-se no chão, virados para Meca, e rezar para Alá.

Os tradicionais pub’s fecham à 1h00 durante a semana, às 2h00 à sexta e ao sábado. Mesmo assim, é frequente ver os ingleses na rua, com a cerveja na mão – tão boa é a nossa cerveja em comparação com a deles… – até as altas horas da madrugada, a festejar as vitórias do United ou do City, ou simplesmente a celebrar a vida. De notar que é proibido fumar em espaços fechados, sendo normal ver um grupo de meninos e meninas de cigarro na mão à porta dos estabelecimentos. Sem confusões nem alarido – se tal houvesse, a polícia, sempre em patrulha, entraria logo em acção.

A cidade é escura, mas as pessoas são mais calorosas. Sempre num típico stiff upper lip britânico, são prestáveis e carinhosas quando abordadas. Porém, não patenteiam aquele calor, aquela paixão característica e própria dos povos mediterrânicos. Talvez pela ausência do sol.

E, só depois de lamentar repetidamente a ausência de luz natural nesta cidade, onde Ronaldo é rei e Mourinho incompreendido – digo eu – e em que não se fala nos McCann, apenas me resta esperar pelo início das aulas e por um contacto mais próximo com as pessoas e com a cidade.

PS: Grande golo do Rui Costa este sábado… Temos maestro!

Aqueles que acompanharão mais este blog, com toda a certeza perceberam que nos últimos tempos ele andou um pouco esquecido. Razão principal? A partida do seu criador para Manchester em Erasmus. Melhor, os preparativos para a partida do dito blogger.

Agora, que o dia da largada se aproxima, cabe-me a responsabilidade de comunicar a todos os leitores que não sei aquilo que se vai passar com este espaço no futuro, sendo certo que a sua actualização será condicionada por algumas questões de logística no meu local de destino.

A minha intenção será a de manter o blog, actualizado e interessante, mas com um ligeiro desvio temático, pois as minhas aventuras em Manchester (pelo menos algumas) irão merecer um certo destaque. Mas, descansem os mais fiéis: não é minha vontade deixar de escrever posts de autêntica lisonja aos Pink Floyd, ou memoriais de paixão pelo Benfica. Mesmo que mais perto (territorialmente) de um e mais longe de outro, continuarão a figurar neste endereço na rede digital. Quem diz esses, fala em todos os outros temas mais recorrentes neste espaço, uns mais sérios e interessantes do que outros.

A todos fica um sentido voto de boa sorte para as diversas iniciativas e empresas futuras. De Manchester estarei de olho bem aberto.

Roger Waters

Setembro 7, 2007

 

Roger Waters fez ontem 64 anos. Apesar de tudo, o bad boy de Cambridge continua a merecer admiração pelo seu trabalho a solo mas, principalmente, pelo seu tempo nos Pink Floyd.

Fica “Comfortably Numb”, escrita em parceria com David Gilmour, uma das suas letras mais petrificantes.

O musical

Setembro 5, 2007

Não gosto de musicais. “Moulin Rouge” e “Chicago” não me impressionaram. Os mais antigos também não. Mas, quando à formula do musical se acrescenta Tim Burton e Johnny Depp a coisa muda de figura.

O já chamado thriller musical de Burton, “Sweeney Todd”, adaptado de uma peça da Broadway com o mesmo nome, promete incomodar e perturbar os espíritos mais puros e delicados. Promessa de Burton.

The Great Gig in the Sky

Setembro 3, 2007

Sim, o título deste post refere-se a uma faixa de “The Dark Side of the Moon”, mítico álbum dos Pink Floyd. Mas não é deles que tratará o post.

Ao longo dos seus muitos anos de vida, o rock já perdeu várias das suas personalidades mais fortes e carismáticas. Kurt Cobain, Janis Joplin, Michael Hutchence, John Entwistle, Bon Scott, John Lennon, Syd Barrett entre muitos outros já tocam no Céu, ou numa qualquer outra área de existência pós-vida, a última paragem da viagem que é a vida.

Foram personalidades que chegaram, tocaram, inovaram e deixaram a sua marca para todo o sempre, não precisando de tocar até terem cabelos brancos para deixarem a sua impressão digital na história da música.

Bandas como Led Zeppelin, Metallica, The Who e Pantera perderam para o coveiro elementos vitais. Algumas conseguiram recuperar, outras não.

Eu gosto, por vezes, de pensar enquanto ouço “Rubber Soul”, “Wish You Were Here”, “Led Zeppelin IV”, “Ride the Lightning”, “Paranoid”, enfim, são tantos, que lá em cima alguns desses vultos do rock se juntam para umas jam sessions.

Quase que consigo ver. E ouvir, claro. John Bonham, na bateria, a dar início à sessão, com um solo improvisado de “Moby Dick”, acompanhado por Cliff Burton no baixo. George Harrison e Jimi Hendrix tocam a guitarra, o primeiro tratando de assegurar o ritmo, enquanto o outro aventura-se por solos nunca antes tocados. E Morrison, sim, Jim Morrison, com a sua voz tão divinal que chega a ser pecado ouvi-la, entretém o público. Cativa e chama a audiência, embebendo-a na sua poesia, no jogo que faz com as palavras, cruzando os seus ritmos e terminações.

Quando Morrison está cansado e pára para ir ao “Whisky Bar” entra Jeff Buckley para o seu lugar. Este, com o seu jeito meio criança, apaixona o público e envolve-o no seu timbre sublime, olhando-o como se não houvesse amanhã. Talvez se ouça o seu – e de Leonard Cohen – Hallelujah. Ironicamente perverso.

E passam a noite inteira a tocar, a tocar, porque só a música interessa, porque só fazer boa música é que interessa. Foi para isso que nasceram, é por isso que nos lembramos deles, é por isso que temos saudades deles e é por isso que quando nos juntarmos a eles vamos estar acompanhados pela derradeira e maravilhosa banda sonora.

A banda sonora vinda do céu.

Dois pesos, duas medidas

Setembro 3, 2007

Pepe foi convocado para a selecção. Aquilo que alguns temiam tornou-se realidade por desígnio de Scolari.

Muitas foram as vozes críticas que se levantaram contra a chamada do brasileiro, agora luso também. Os argumentos usados foram vários, desde o facto de Pepe não ter nascido deste lado do Atlântico, como o facto de a sua chamada tirar lugar a jogadores portugueses.

Os partidários da decisão de Scolari defendem o seleccionador brasileiro. Obikwelu não é português, no entanto todos nos emocionamos com a sua prestação nas Olimpíadas de Atenas. O facto é que, dizem estes, se o atleta em causa representar uma mais-valia para a equipa então é um esforço válido.

Eu preferia que a selecção fosse composta por jogadores nascidos e criados em Portugal. Por muito que Pepe goste de Portugal, ele não nasceu cá, não cresceu cá, não estudou cá, enfim, não partilha dos mesmos valores culturais e patrimoniais que todos os outros portugueses.

Mas, esta é uma decisão que não pode ser tomada apenas com o coração. O futebol é um negócio, e o futebol de selecção não se encontra isento desta realidade. Os Mundiais e os Europeus são a Liga dos Campeões do futebol entre federações. É nessas provas que elas recebem a grande parte do seu financiamento e prestígio. Assim sendo, é forçoso que a equipa seja reforçada e constituída pelos melhores atletas à disposição do treinador. Sejam eles nascidos ou não em Portugal.

Os grandes culpados da chamada de Pepe não são, contudo, Scolari e sua equipa técnica. São os clubes, a liga e a Federação que tardam em tomar medidas restritivas. Sessenta porcento dos jogadores a actuar na nossa Liga são estrangeiros. Se olharmos para os plantéis dos 3 grandes, vemos que a minoria dos jogadores titulares são portugueses. Quando os clubes precisam de jogadores, optam pela alternativa no mercado estrangeiro.

Miguel Vítor assumiu a titularidade no eixo da defesa do Benfica por inexistência de alternativas. Com os regressos dos três (estrangeiros) centrais lesionados, mais a contratação de Edcarlos o seu futuro a breve trecho deverá passar pelo banco. Se assim for, como poderá o jogador evoluir?

Veja-se o caso espanhol. Os clubes só podem inscrever três jogadores extra-comunitários. Para mais, o futebol juvenil é estimulado e é mais competitivo. Como resultado, aparecem todos os anos, e nas mais diversas equipas, novos jogadores espanhóis.

O fim das equipas B, a ausência de limites nos jogadores estrangeiros inscritos e a inexistência de quotas para a inclusão de jogadores nacionais e formados no clube são razões que justificam a necessidade de Scolari em recorrer a Deco, primeiro, e Pepe, agora.

E, a não ser que medidas preventivas sejam tomadas, não se ficarão por aqui e a selecção continuará a ser reforçada por jogadores nascidos noutros países, que não cantam o hino e que não ‘falam a mesma língua’.