Privatizar ou deixar como está?
Outubro 27, 2007
Ele lançou o repto. Eu faço o melhor que posso desde Manchester.
Ciclicamente o tema da privatização da RTP é lançado para a praça pública. Normalmente, quando o ministro da tutela se encontra sobre brasas, atira para o ar umas notas soltas sobre o futuro da companhia, na esperança de ser olhado como um visionário; como o ministro que redefiniu a televisão pública em Portugal.
Recentemente, e perdoem-me pela dispersão temporal, mas estou longe de Portugal, José Rodrigues dos Santos foi suspenso de funções por ter dito, em entrevista ao Público, que a administração da RTP interferiu na nomeação de Rosa Veloso para correspondente em Madrid, quando esta era a quarta na lista de candidatos. Para o pivot, essa era uma decisão que cabia exclusivamente à direcção de informação, da qual ele fazia parte, motivo bastante para apresentar imediatamente a sua demissão.
Em suma, um jornalista foi castigado por falar com outros jornalistas sobre um processo nada claro de nomeação de uma outra jornalista.
A direcção de informação da RTP é apontada pelo Conselho de Administração que, por sua vez, é escolhido a dedo pelo governo. Para se ter uma ideia da carga política que o cargo de Presidente da RTP tem, o actual titular da pasta, Almerindo Marques, é o único a ter resistido a uma mudança governamental. Foi nomeado por Morais Sarmento e Augusto Santos Silva manteve a sua confiança nele.
Muito tentador é agora insinuar que Marques assegurou a continuidade no cargo graças a um qualquer favoritismo político. É que, para além da intromissão na nomeação de Rosa Veloso, Rodrigues dos Santos deixa entender que havia interferência ao nível da política editorial da estação. É essa a interpretação que eu retiro quando leio que a Administração da estação “passa recados do poder político”.
Rodrigues dos Santos vai mais longe e conta que a administração tomou decisões “na área editorial em substituição do director – na realidade contra ele. Isso é interferência consumada”. “Ver o poder interferir despudoradamente na informação como eu vi é algo que desmotiva”.
E eu podia continuar a transcrever citação atrás de citação porque elas são todas bombásticas e sensacionais.
Lendo essas palavras temos de nos fazer uma pergunta: “Mentirá Rodrigues dos Santos?” “Estará amargurado ao ponto de querer guerrilha interna?” “Estará, simplesmente, aborrecido?”
Ora, a minha opinião é que se trata de um profissional sério e responsável. Aceitando isso, tenho de encarar as suas declarações como sendo a sua interpretação, em boa fé, daquilo que se passou enquanto ele fez parte da Direcção de Informação da RTP.
E, aceitando-as como verdadeiras, só posso concluir que: a) a Administração da RTP é um joguete dissimulado do Estado; b) A equipa de Almerindo Marques é incompetente.
Primeiro ponto: Sempre se conotou a direcção da RTP com o poder político. Por mais não fosse, a proximidade institucional não pode ser ignorada. A uma escala menor, mas numa realidade mais próxima, o mesmo se passa no ambiente da Academia minhota com o jornal Académico. Pelo facto de ser o ‘jornal oficial’ da Associação, é visto como o ‘press-release’ da AAUM.
Ora, na RTP passa-se o mesmo. No final do mês, todos aqueles profissionais são funcionários públicos e a organização da empresa depende dos bolsos estatais e, claro, das contribuições dos portugueses. Mas, a esse ponto volto mais tarde.
Mas, se a Administração se intrometeu nos critérios editoriais da redacção – e recordo que a Administração em causa é a única a ter resistido a alterações no governo – então a RTP não passa de uma agência propagandística que serve os interesses de quem está no poder. E, pior do que ser uma marioneta é ser uma marioneta que serve a todos, ora sejam eles laranja, ora sejam rosa.
E, claro, do plano da imparcialidade da imprensa em Portugal estamos falados, porque se a RTP não é isenta e imparcial não podemos esperar que as privadas o sejam.
Segundo ponto: A incompetência da equipa de Almerindo Marques. Normalmente, quando se entra pelo caminho da corrupção é para favorecer alguém que, sem essa ajuda, não chegava ao destino desejado. Por exemplo, o Boavista não teria sido campeão se não fosse ajudado, etc. Em traços brutos é este o modus operandi da corrupção.
O problema é que, normalmente, o que se serve da corrupção para atingir o seu objectivo não é o melhor para o cargo. Excluindo o FC Porto do Mourinho, que mesmo sem ser ajudado teria sido campeão, a regra é mesmo essa. Então, se num concurso democrático Rosa Veloso era quarta na lista, significa que a Direcção de Informação – entidade competente pela distribuição das tarefas pelos jornalistas – entendia que havia três outros profissionais mais adequados para o posto.
Escolher a quarta da lista significa eliminar três alternativas melhores e proporcionar ao telespectador – e, no caso da RTP, ‘accionista’ – pior serviço. É, claramente, uma atitude incompetente que só poderia ser recompensada com um despedimento sem grandes honras.
Poderíamos, então, optar pelo fim do Serviço Público? Ora, neste momento, a RTP1 pouco ou nada tem a ver com uma estação de serviço público. É, hoje, claramente uma estação de televisão com lucro em mente e que participa nas guerras das audiências, prejudicando a qualidade do serviço prestado aos portugueses – programas de entretenimento tipificados, informação de imparcialidade duvidosa, etc.
Uma aposta a sério na RTP2 poderia reduzir esse fosso. Mas, essa estação é deixada para os ‘intelectuais’ e concentram-se atenções sobre o Fernando Mendes e o João Baião.
Parece-me que a solução lógica seria privatizar a RTP, nem que não fosse essa uma privatização a meio-gás – à imagem da GALP ou da PT. Poupava-se algum dinheiro, ganhava-se algum extra e dava-se mais margem de manobra à Administração para tomar todas as decisões incompetentes que quisesse. Guardava-se a RTP2 e aproveitavam-se os diamantes que a estação tem, para se oferecer serviço público de qualidade, ficando a RTP1 enquanto canal generalista, governada maioritariamente com dinheiros privados e que continuasse a transmitir os jogos da selecção.
Esta seria uma forma de clarear a concorrência pelas audiências e em incrementar a qualidade média do serviço público de televisão, enquanto que o nível do privado, esse, cai a pique.