Bella Italia!
Novembro 30, 2007
Nos próximos dias o blogue estará um pouco menos activo do que o normal. Motivo? O seu autor estará em Itália, a participar num seminário dedicado às práticas da vinicultura e da jardinagem no século XXI.Tema muito interessante.
O autor aproveitará também para fazer uma visita pelo país. A seu tempo estará de volta.
Até ao seu regresso, os leitores poderão imaginar o conteúdo das aventuras do autor com base nalgumas fotos por ele gentilmente cedidas.
Ciao.
George Harrison (1943-2001)
Novembro 29, 2007
Faz hoje seis anos que morreu George Harrison. O “quiet Beatle”, como foi apelidado, juntou-se a John Lennon no dia 29 de Novembro de 2001. Aos 58 anos, Harrison não aguentou o cancro que atacava os seus pulmões e deixou-nos.
Durante a carreira dos ‘Fab Four’ Harrison contribuiu com bastante música para o reportório do grupo, como “Something”, “Here Comes the Sun” ou “While My Guitar Gently Weeps”. Notícias da época, no entanto, dão conta de uma certa desconfiança de McCartney e alguma relutância de Sir Paul em aceitar todas as contribuições propostas por George.
Não é por isso de estranhar que o primeiro álbum a solo de George Harrison, “All Things Must Pass”, tenha sido um álbum triplo, o primeiro da história da música rock, e que boa parte das músicas presentes no disco tinham sido escritas nos tempos da beatlemania, apesar de não aproveitadas pelo quarteto de Liverpool.
“All Things Must Pass” é, ainda hoje, o álbum mais vendido de um qualquer ex-Beatle. Para além desse disco, Harrison organizou o primeiro concerto de beneficência de larga escala, “The Concert for Bangladesh”.
Hindu por convicção, não “oficial” pois a religião não permite conversões, Harrison deixou essa vocação religiosa penetrar na sua música, quer pelas letras e pelos arranjos, quer pela introdução de certos instrumentos desconhecidos no Ocidente, como a cítara.
Tem havido alguma especulação sobre se as suas cinzas – o corpo de George Harrison foi cremado – teriam sido espalhadas pelo Ganges, tal como sugere a tradição hindu. As informações mais consistentes não confirmam essa teoria, mas a colocação das cinzas tem sido ocultada, não se conhecendo ao certo o seu paradeiro.
Aquilo que se sabe é que Harrison partiu deste Mundo numa mansão de Hollywood, que havia pertencido, posteriormente, a Paul McCartney e que, oficialmente, era a casa de um segurança pessoal do próprio George, Gavin de Becker.
Após a sua morte, a família divulgou uma nota: “Ele [George] deixou este Mundo da mesma maneira como viveu nele: ciente de Deus, sem medo da morte e em paz, rodeado por familiares e amigos. Várias vezes ele disse que “tudo o resto pode esperar, mas a procura por Deus não; amem-se uns aos outros”. Assim seja.
A quinta frase
Novembro 28, 2007
Tarde e a más horas, aqui vai a minha resposta ao repto lançado pelo Rosmaninho. A proposta é simples: «reproduzir aqui no blogue, integralmente, a quinta frase da página 161 do livro à distância de um braço».
Ora, então, aqui vai ela:
“As rodas do ferro arrancavam centelhas aos resíduos de pederneira e Mr. Maxted segurou-lhe o o ombro, ofegante do esforço por tentar acompanhá-lo.”
in “O Império do Sol”, J.G. Ballard (Livros do Brasil, 1987)
Como demorei tanto a responder ao desafio, nem sei se devo arriscar endereçá-lo a mais alguém. Mas, envolto num espírito de aventura, vou fazê-lo na mesma. Então, que as meninas Sílva Pereira e Cristiana Reis e os meninos Alexandre Carvalho, Marcos Sabino e Hugo Monteiro continuem a tarefa.
Escrever justiça por linhas direitas (3) – O estado minimalista
Novembro 28, 2007
Um estado minimalista é uma forma de governo em que as funções do Estado são as mais residuais, de forma a interferir o menos possível na liberdade e nas acções dos indivíduos.
Essas responsabilidades passam por garantir o funcionamento da polícia, do sistema judicial, das prisões e do Exército, ou seja, o menor número de serviços possível de modo a garantir a aplicação da lei, que se limita a ser uma ferramenta de protecção dos indivíduos da coacção e do roubo, promovendo a mais eficaz remoção dos criminosos do seio da sociedade.
O argumento essencial dos teóricos e adeptos da minarquia é aquele segundo o qual o Estado não tem direito a interferir nas relações entre as pessoas, desde que essas sejam accionadas de livre vontade. Pelo contrário, a função do Estado será a de garantir que as relações entre os indivíduos são, precisamente, livres.
Nesta linha de raciocínio, o aumento do tamanho dos tentáculos do Estado sobre a sociedade será naturalmente mau. Alguns minarcas, como Ayn Rand, acreditam que os impostos que financiam as acções governamentais são, essencialmente, roubo. Outros minarcas, da escola de Popper, acreditam que as instituições e as culturas evolvem melhor sem a interferência do governo.
Porém, existem várias correntes que apresentam argumentos contra a instauração de um Estado minimalista. Defendem que a intervenção do Estado, para além de necessária, é boa pois contribui para maior igualdade entre os indivíduos e uma melhoria do nível de vida geral.
Dessa escola fazem parte os sociais-democratas e sociais-liberais. Acreditam que o carácter social do Governo é mãos do que capaz de proceder à protecção das pessoas menos avantajadas no mercado, ou num estado de vida que pressupõe alguma dependência por parte dos indivíduos – por exemplo, a dependência típica dos mais novos, dos idosos, dos deficientes, entre outros grupos. E, o Governo faria isto através da aplicação do Estado de providência.
Os conservadores sociais sustentam que o Estado deve-se preocupar em manter e proteger a moral na sociedade, legislando no sentido oposto ao do comportamento prejudicial à comunidade. O raciocínio destes teóricos é que o Estado não pode sobreviver se os cidadãos não mantiverem um certo comportamento. Assim, ignorar o papel que o Estado tem em moldar os valores dos indivíduos pode ser desastroso.
Dos argumentos contrários à instauração de um Estado minimalista fazem também parte os da escola de Keynes. De acordo com esta doutrina, não há necessidade nenhuma em reduzir a dimensão do Estado até àquela proposta pelos minimalistas. Porquê? Essencialmente por razões jurídicas e económicas, pois é crença desta escola que um Estado minimalista nada pode fazer perante recessões e outras questões das ciências económicas. Do plano jurídico, a própria constituição minimalista é anti-democrática, pois à medida que limita o poder do Governo, fá-lo através de uma constituição que não pode ser revista pelos cidadãos.
Por outro lado, onde se pode traçar a linha que determina que as liberdades de alguém estão a ser coagidas por outrem? Se eu impedir alguém de falar, posso ser acusado de estar a impedir alguém de exercer a sua liberdade. Porém, se eu tiver impedido essa pessoa de falar para um megafone numa área residencial a meio da noite. Deveria, ou não, ter deixado essa pessoa falar ao megafone? Quem determina qual a liberdade mais importante? A do que queria falar, ou a dos que queriam dormir?
O Estado minimalista teria de fazer valer todos os contratos sociais que não lesassem terceiros. Acontece que proteger uma pessoa de infringir os seus direitos poderia ser uma violação da sua liberdade. Por exemplo, se eu me decidir vender para a escravatura, o Estado poderia impedir a transacção pois a escravatura é uma forma de trabalho que vai contra os princípios liberais. Contudo, não terei eu oferecido de livre vontade o meu corpo à escravatura? Se o Estado me impede de levar a avante esse desejo, então está a ir contra os meus desejos e a interferir na minha vida, nas escolhas que eu traço para mim.
Aliás, até os próprios anárquicos criticam a forma de governo minimalista, pois defendem que qualquer governo, mesmo o mais pequeno, exerce uma forma de roubo sobre as pessoas, pois sustenta-se e governa-se com base em dinheiro proveniente dos impostos que resultam, como já disse, de uma extorsão por parte do Governo.
Quando se considera a aplicabilidade do Estado minimalista, devem-se levar em linha de conta todas estas variáveis. Os prós da liberdade quase absoluta não podem, em circunstância alguma, ser medidos ser tem em consideração os contras dessa mesma situação, assim como as próprias contradições a que um Governo a viver no Estado minimalista se encontra sujeito.
Nozick pede que façamos um exercício. Assumamos o seguinte: O padrão de distribuição de uma sociedade é ordenado em função da nossa escolha, isto é, escolhemo, nós, a distribuição dos bens pela nossa sociedade. Ora, continuando neste exercício, Rui Costa é um jogador de futebol extremamente popular. Todos os que gostam do jogo lhe reconhecem mérito e qualidade. Assumamos mais ainda: na nossa sociedade, 1 milhão de pessoas estão dispostas a dar 1 euro para ver Rui Costa jogar ao longo de uma época. Acreditemos que mais nenhuma transacção tem lugar.
Nesta altura, Rui Costa tem 1 milhão de euros, uma soma muito superior à de qualquer membro da sociedade. Temos uma nova distribuição na sociedade e esta nova distribuição já não se encontra ordenada pelo princípio da escolha. Mas, não é por isso que esta nova realidade é injusta. Pelo contrário. Se cada membro da sociedade dá o dinheiro ao Rui de livre e espontânea vontade, então esta distribuição é justa.
Podemos argumentar, como o sugere Nozick, que isto significa que o modelo de justiça distributiva, como apresentado na sua formulação mais clássica, é incompatível com a igualdade e liberdade, como defendidos pelos liberais, pois de modo a preservar e garantir a justa distribuição da riqueza entre os indivíduos o Estado teria de interferir continuamente na vida das pessoas de modo a assegurar a igualdade constante na divisão das riquezas.
O argumento da justiça distributiva é que todos temos direito ao acesso às riquezas geradas em sociedade e que as mesmas devem ser distribuídas equitativamente. Porém, também sugere que temos a liberdade suficiente para decidirmos o que queremos fazer com aquilo que é nosso. Neste caso, eu tenho direito a dar o dinheiro ao Rui Costa. Ora, a viver numa sociedade em justiça distributiva, todos teríamos o mesmo direito e a mesma legitimidade ao dinheiro do Rui, o tal milhão que ele coleccionou depois de as pessoas lhe terem entregue 1 euro. Todos teríamos o mesmo direito à riqueza gerada em sociedade.
Porém, e numa posição muito prática, esta é uma solução impossível. O Estado não pode interferir permanentemente nas nossas vidas de modo a garantir que a riqueza social é equitativamente repartida entre todos.
Assim, e como sentenceia Nozick, “de todos como escolhem, para cada um como é escolhido”.
Hit the road George
Novembro 16, 2007
Não era minha intenção quebrar a sequência de textos que queria publicar sobre justiça. Por isso não o vou fazer. Simplesmente, vou seguir por uma linda diferente.
Acordei e, como de costume, liguei o computador com a intenção de ver as notícias de Portugal. Primeira passagem pelos desportivos. Tudo em ordem. Depois, o Público. Chegado ao jornal dos jornais portugueses, deparei-me com isto.
Irado. Irado fiquei quando soube que Bush filho rejeitou a proposta de Kennedy irmão para aprovar um plano que tornasse o português numa segunda língua oficial de ensino nos EUA. Enquanto dava conta do seu parecer, sentenciou que “o Congresso deve aos contribuintes esforços melhores”. Também os EUA devem ao Mundo um melhor presidente, mas ninguém lhe fecha as portas quando ele aterra nos aeroportos espalhados pelo Mundo.
Aquilo que se passa nos EUA, em relação às línguas estrangeiras é muito simples de explicar. Há quatro línguas principais: o espanhol, italiano, alemão e francês. A ordem pela qual elas estão dispostas obedece a um raciocínio relativamente racional: as duas primeiras porque pertencem às duas maiores comunidades de imigrantes de língua oficial não inglesa; as duas outras, porque são línguas de países “grandes” na Europa e tidas como importantes – principalmente, de importância histórica.
Até aqui tudo bem. Aqueles que queiram aprender português, e são normalmente os filhos dos emigrantes, têm de ter aulas em escolas privadas. No meu caso, tinha aulas das 9 às 14 na escola “americana” e das 16 às 18 tinha aulas na “escola portuguesa”.
Apesar de viverem um milhão de portugueses nos EUA, esse número é residual quando comparado com os hispânicos ou italianos que lá se encontram. E, se calhar por isso mesmo, as comunidades portuguesas sempre se submeteram a essa situação, não exigindo nada de mais no que concerne ao ensino da língua. Aliás, nesse respeito, sempre se viraram muito mais para o Governo Português do que para o americano.
Acontece que numa zona em particular do país, existe uma alta concentração de portugueses. Falo da costa leste (e, em concreto, de estados como Massachusetts, Rhode Island e New Jersey) e das freguesias e cidades onde a maior parte da população é portuguesa. Basta visitar New Bedford ou Fall River para perceber que estamos em áreas portuguesas. Em Newark a pressão demográfica é tanta, que até já temos direito a uma “little Portugal”.
E, foi inspirado por este fenómeno (e não nos esqueçamos da cada vez maior comunidade brasileira nos EUA) que o congressista Kennedy propôs, como parte integrante de um pacote de reformas para a educação, a inclusão do português enquanto uma das “segundas” línguas oficiais. Bush rejeitou.
A recusa de Bush não fica bem ao Presidente dos EUA. Foi, nos anos 60 que John Kennedy convidou os portugueses a entrar na Terra das Oportunidades. A maioria fixou-se na costa leste, próximo do mar, e empenhou-se em dar razão ao voto de confiança do presidente. Assim se tornaram as comunidades portuguesas numa das mais respeitadas e bem-vindas da região e do país.
Rejeitar unilateralmente, e classificar como esbanjador, um programa que procurava criar condições para o ensino oficial do português nas escolas, e até promover o português como forma de reconhecimento pelo serviço prestado ao longo dos anos, é de uma ingratidão que apenas se compadece com alguém tão ignorante, mesquinho, medíocre e (dentro de um ano) insignificante como George Walker Bush, o homem que disse ter pena de não falar latim, pois caso contrário poderia comunicar com os povos da América Latina.
Se calhar, se tivesse aprendido outra língua, não teria dito alguns dos disparates que disparou daquela boca. E, talvez, tivesse disparado menos balas também.
Escrever justiça por linhas direitas (I)
Novembro 16, 2007
Este postal é o primeiro de uma série de outros dedicado a questões da justiça, deontologia e direito.
Em 1971 John Rawls publicou “Uma Teoria da Justiça”. Na obra, o autor procura resolver o problema da justiça distributiva, servindo-se de uma linha de raciocínio e pensamento semelhante à dos autores contratualistas.
A justiça distributiva dedica-se ao estudo e verificação daquilo que é justo e correcto no que à distribuição dos bens em sociedade diz respeito. Significa isso dizer-se que uma sociedade em que os seus constituídos são remunerados de forma equilibrada e em função dos serviços prestados é uma sociedade que se deixa reger pelos princípios da justiça distributiva.
A justiça distributiva considera e analisa a disposição dos bens por entre os membros da sociedade de um tempo específico e, nessa base, determinar se o estado de coisas é aceitável. Por exemplo, quando analisamos os padrões de vida de uma sociedade em função da riqueza criada pela mesma, e da sua distribuição, estamos, frequentemente, em terrenos da justiça distributiva..
Rawls faz parte da escola contratualista, na linha de Hobbes, Locke e Rousseau. Porém, a posição do autor difere ligeiramente da dos contratualistas clássicos, na medida em que desenvolve os princípios da justiça através de um artifício por ele chamado de “posição original”, em que todos nós tomamos as nossas decisões sobre esses mesmos princípios através de um “véu de ignorância”. Este “véu” é um que se limita a eliminar todos as nuvens que nos possam impedir de entender o desenvolvimento da justiça.
“Ninguém conhece o seu lugar na sociedade, a sua posição dentro de determinada classe social, nem sabe qual será a sua sorte na distribuição de vantagens e habilidades naturais, tais como a inteligência e força. Assumirei ainda que os indivíduos desconhecem as suas concepções do bem ou as suas especiais inclinações psicológicas. Os princípios da justiça são escolhidos por detrás do um “véu de ignorância”.”
Para o autor, a ignorância destes detalhes conduzirá a princípios que são justos para todos. E o raciocínio é simples: se um indivíduo não conhece o seu destino dentro de determinada sociedade, ele terá menor propensão a privilegiar a classe y sobre a z mas tratar todos de forma mais justa e igualitária. Como o próprio Rawls aventa, aqueles que viveram na Posição Original adoptariam uma estratégia de máxima força que maximizaria a posição do menos afortunado.
Assim chega Rawls ao primeiro princípio da justiça: “Cada pessoa tem o mesmo direito ao mais extenso esquema de liberdades básicas que seja compatível com um esquema de liberdade geral”. E, quais são essas liberdades básicas dos cidadãos? De forma sucinta, essas liberdades são a liberdade política, liberdade de expressão e de reunião, liberdade de pensamento e consciência e o direito à propriedade.
Este princípio é, para Rawls, absoluto e não pode ser violado. Quer isso dizer que em caso algum um cidadão pode ser privado de qualquer uma dessas liberdades. Não quer isso dizer que em certas circunstâncias os indivíduos não se sintam tentados a trocar alguma dessas liberdades no sentido de obter o mais amplo sistema de direitos.
O segundo princípio da justiça para Rawls é o de que as iniquidades sociais e económicas terão de ser resolvidas de modo a “todos tenham condições de acesso aos serviços e a posições profissionais, de acordo com a liberdade de oportunidade e que esses serviços se encontrem à disposição na sua plenitude aos mais desafortunados”.
Rawls sugere que a única justificação para um êxodo do estado de coisas igualitário se encontra apenas se essa perturbação do estado de igualdade melhorar a condição de vida dos mais fracos. Ou seja, apenas é justo perturbar a distribuição equitativa se essa violação for mais benéfica para os mais desfavorecidos.
Assim, o autor apresenta-se contrário, por exemplo, à ideia de que o status económico da família em que nascemos deva determinar o nosso futuro – não escolhemos as condições do nosso nascimento.
Quando nascemos estamos todos intitulados ao mesmo e à satisfação das nossas necessidades. Temos direito às mesmas liberdades e direitos, e a nossa vida deve ser uma busca constante e contínua pelo nosso aperfeiçoamento e de auto-conhecimento das nossas capacidades e inclinações. E, assim, seremos recompensados em função do mérito que é reconhecido e atribuído pela sociedade quer a nós, enquanto membros da mesma, como em função do serviço que nós prestamos.
Logo, falando em termos de coexistência social, a igualdade encontra-se no direito comum de aceder à riqueza da sociedade e na sua subsequente repartição entre todos os membros da comunidade. Nenhuma circunstância pode determinar a valia de um indivíduo, nem melindrar o uso que ele faz dos seus direitos, a não ser o produto das acções do indivíduo, os seus comportamentos e as suas escolhas.
Manchester é uma cidade fantástica para se ir ao cinema. Muito boa mesmo. O complexo cinematográfico do ODEON é enorme. Mais de 20 salas de cinema, amplas e extremamente confortáveis. Perfeitas para se ver bom cinema. E, “Rendition” é um exemplo de bom cinema.
O filme do sul-africano Gavin Hood é bastante bom. O pentágono sobre o qual assenta a película, constituído por Jake Gyllenhaall, enquanto agente da CIA que desenvolve uma consciência ao longo de um processo de tortura, Omar Metwally, na pele de um egípcio radicado nos EUA que é associado a um terrorista internacionalmente procurado, Meryl Streep, a destemida chefe da agência de segurança americana que ordena a prisão da personagem interpretada por Metwally, Reese Witherspoon, a mulher inconsolável que tudo faz para encontrar respostas para o desaparecimento do marido e Peter Sarsgaard, o amigo da mulher do prisioneiro que trabalha para um senador americano, interpretado por Alan Arkin, é sóbrio e transmite um registo tranquilo e sereno ao longo do filme.
A premissa da fita é cativante. O agente da CIA encarregue pela delegação da agência num qualquer país do “Norte de África” (o filme nunca especifica qual) é assassinado em resultado de um atentado contra Abasi Fawal, figura proeminente do governo nacional. Em virtude da morte de um cidadão americano em território nacional, o governo americano entra rapidamente em acção à procura de um responsável.
Ora, o alvo das atenções dos americanos passa a ser um professor universitário, Anwar El-Ibrahimi, um cidadão egípcio a viver nos EUA desde os seus 14 anos e que se formou na NYU. Acontece que El-Ibrahimi, que entretanto se casou com Isabella Fields, tem registado no seu telemóvel chamadas provenientes de um número associado ao terrorista responsável pelo ataque, Rashid Salimi.
El-Ibrahimi encontra-se, na altura do atentado, a viajar da África do Sul para os EUA após ter falado numa conferência. À chegada ao aeroporto de Chicago é apreendido por agentes americanos que rapidamente o fecham numa sala isolada com o braço direito de Corrine Whitman (Meryl Streep), o duro Lee Mayer (J.K. Simmons).
Não conseguindo extrair informação do egípcio nos EUA, Whitman dá ordens para que seja transportado para o “Norte de África” onde será interrogado pelo próprio Fawal. Aqui entra em cena Douglas Freeman (Jake Gyllenhall), um recém-formado agente da CIA a quem é dado o papel de representação dos EUA no interrogatório de El-Ibrahimi.
Durante a tortura a que Ibrahimi é sujeito, Freeman começa a ter dúvidas acerca do seu papel em toda aquela situação e tem a certeza de que tem de agir quando o prisioneiro oferece o nome dos jogadores da selecção egípcia de futebol de 1992 como sendo os seus colegas de conspiração. A partir desse ponto, Douglas constrói um plano para libertar Ibrahimi e enviá-lo para junto de Isabella, a sua mulher e mãe do seu seu filho Jeremy.
Os problemas de “Rendition” são as pequenas coisas que me impedem de o levar a sério. Não gosto que me digam que o filme se desenrola na “África do Norte”, e que em nenhum momento se diga que estado é Fawal membro. Por outro lado, há uma missão clara e objectiva em criticar abertamente o papel dos EUA no Médio Oriente, com menções veladas aos incidentes de Abu Grahib e à prisão de Guantánamo.
Várias questões ficam por responder, num filme que tem numa história paralela entre dois jovens muçulmanos a chave para a sua interpretação. Por exemplo, o que acontece a Freeman depois de orquestrar a libertação de Ibrahimi e contar a história à imprensa? Qual era, então, a ligação entre Ibrahimi e o terrorista?
Depois, as pretações dos actores. Witherspoon não me convence. A actriz tem um papel fraco, é verdade, mas mesmo assim não me seduz. Arkin mal aparece no filme (porquê?) mas, quando o faz, toma conta da cena. A personagem de Sarsgaard, que a dada altura assume as rédeas da acção, desaparece sem razão aparente. Porém, Gyllenhaal continua muito bem e Omar Metwally convence enquanto torturado sem motivo.
Muitos apontavam “Rendition” como o filme com potencial para surpreender nos Óscares, mas, para mim, não passa de um respeitável filme político contra a presença americana no Médio Oriente, num ano em que essas películas abundam. É bom, mas podia ser melhor. Devia ser melhor.
Tira o Pereira!!!
Novembro 8, 2007
Mesmo longe, mas não muito longe, acompanho religiosamente os jogos do Benfica. A maioria das partidas consigo ver em Live Streaming, as outras ouço pelo relato das nossas rádios. De uma maneira ou de outra, ainda não perdi o contacto com a realidade do glorioso.
E, devo dizer, que ver os jogos do Benfica não é uma grande injecção de moral para quem está longe e já um pouco nostálgico. Vitórias sofridas, derrotas inexplicáveis e uma apatia e falta de jeito que assusta o maior coxo.
Seria fácil dizer que a culpa é do Camacho. O espanhol não trouxe com o seu regresso a mesma qualidade e virtuosismo como aquando da sua primeira passagem pelo clube. A equipa não joga tão bem nem mostra a agressividade de outros tempos em campo.
A insistência de Camacho em jogar com jogadores como Maxi Pereira e Binya chega a ser enervante! Está visto que são dois jogadores abnegados e esforçados, mas nem num clube de meio da tabela teriam lugar. Muito menos um lugar assegurado no onze inicial.
Chegar ao ponto de recuar Katsouranis (o melhor médio-defensivo na ausência de Petit) para central prova uma de duas coisas: ou Katsouranis é mellhor do que qualquer outro dos defesas-centrais do plantel, ou Binya é bom demais para ser sacrificado. E como a segunda não pode ser verdade, só resta a primeira.
E, acreditar que Katsouranis é melhor defesa-central, mesmo que adaptado à função, do que EdCarlos, Zoro ou Miguel Vítor levanta uma questão importante: porque se contrataram os dois primeiros e se promoveu o terceiro? Quando se contrata um jogador é porque se trata de uma mais-valia para o grupo. A serem contratados, tanto um como outro teriam de provar serem melhores do que quem já cá estava. Caso contrário, porque razão gastar dinheiro em jogadores para o banco e para a bancada?
Para o banco chegam os jovens promovidos dos escalões de formação. Miguel Vítor já provou que tem potencial mas não joga. E, não joga porque não tem nome. Porque não foi contratado no Brasil. Porque é da casa e os da casa podem sempre ser emprestados para rodar. Mesmo, por exemplo, se no seu último jogo tivesse jogado ao lado de EdCarlos, de o jogo ter sido em Milão e de ter sido o melhor elemento da dupla de centrais.
Mas, para mim, pior do que a insistência em Binya é a aparente veneração por Maxi Pereira. Tal como o camaronês, Pereira é um rapaz esforçado e tal mas não tem um décimo da qualidade necessária para estar no Benfica. A sua presença em campo não acrescenta nada. Absolutamente nada. Estar a jogar a lateral, médio ou ala não acrescenta nem diminui nada à exibição do Benfica. Aliás, até prejudica porque parece que jogamos com menos um.
Deixar Luís Filipe (quando Pereira joga a lateral) ou Di Maria e Adu (quando Pereira joga na ala) no banco quase que dá a entender que a equipa é moldada em função de onde Camacho quer que o uruguaio jogue. É difícil entender quando vemos que a equipa do Benfica é definida tendo em conta a vontade que o nosso treinador tem em jogar com um jogador que simplesmente não tem qualidade, nem real nem potencial, para jogar na nossa equipa.
Não gostava particularmente de Fernando Santos. Mas, pelo menos, ia compreendendo a lógica atrás de algumas das suas decisões e porque motivo mexia na equipa como o fazia. Não concordava, mas percebia a lógica. Porém, com Camacho não percebo nem uma nem outra coisa. O homem muda de táctica em função do adversário, troca de jogadores sem uma linha de raciocínio aparente e faz substituições estranhas. Trocar Rui Costa e Cardozo (falha muitos golos, mas pelos menos dá trabalho e está sempre no sítio certo) por Bergessio e Nuno Gomes revela, para além de falta de visão, ausência de um espírito criativo e capacidade de leitura de jogo.
Não quis trocar o Binya, tirou o Rui. Minutos depois o 18 foi expulso, passamos a jogar com 10 (ainda assim, mais um do que enquanto Pereira e Binya estiveram em campo em simultâneo) e confirmamos a derrota quando tínhamos de vencer para continuar na Liga dos Campeões – porque temos de jogar sempre para ganhar e estar na ‘Champions’ com a nata do futebol.
Camacho gosta de jogar com extremos. O problema é que o plantel foi construído para jogar num 4X4X2 em losango e não há flanqueadores de raiz. Talvez se possa falar no Di Maria e no Rodriguez, mas são ambos esquerdinos. E na direita? Quem joga? Maxi Pereira?
Mas, a culpa não morre em Camacho. Não foi Camacho quem contratou a maioria dos jogadores, nem foi Camacho quem disse que este era o melhor plantel da última década. Nem acredito que tenha sido Fernando Santos a pedir Andrés Diaz e Zoro para a equipa.
Enquanto que o Benfica não tiver um plano para o futebol profissional não vamos lá. O clube apresenta resultados financeiros e económicos interessantes, a aposta nas modalidades é segura e até as camadas jovens começam a oferecer bons resultados – investimento na Academia do Seixal não deve ser ignorado neste aspecto. Mas, o principal negócio do Benfica será sempre o futebol profissional e se esse não apresenta bons resultados não vale a pena dizer-se que se tem um saldo positivo nas contas, porque isso não preocupa em demasia o adepto.
Luís Filipe Vieira tem de passar menos tempo a oferecer o lugar a Rui Costa e mais algum a gerir o futebol do clube. Se perceber que não tem a capacidade necessária para ser o responsável pela pasta do futebol, então sempre pode ceder a mesma a alguém com mais conhecimento do mercado, tempo e vontade.
Qualquer coisa tem de ser feita de modo a que possa ficar orgulhoso e contente de ver o meu Benfica aqui longe, longe de casa.
Welcome to Old Trafford. How can I help you?
Novembro 3, 2007
A vida de Erasmus tem muita coisa boa. Uma dessas coisas é um aparente retrocesso até aos tempos do Ensino Secundário ou, se calhar, ao Básico no que às nossas responsabilidades diz respeito.
Os alunos da Universidade de acolhimento olham-nos como crianças em busca de um último gole do cálice da eterna juventude e que devem ser examinados com alguma desconfiança; os professores encaram-nos como turistas que param nas suas aulas de pára-quedas e que estão por lá de passagem e, por isso mesmo, não esperam muito de nós. Até os professores da nossa universidade de origem desejam apenas que não deixemos ficar mal a Instituição mãe – quer isto dizer, que não partamos nada nem sejamos presos.
E nós, os Erasmus, não levamos isso a mal. Nem por sombras. Estamos aqui para experimentar aquilo que é viver e estudar (?) num país diferente, numa outra cultura e rodeado de símbolos e convenções estranhas.
Em Inglaterra, dizer-se que se é um português a fazer Erasmus soa aos ouvidos dos locais como: “Olá, sou da terra do Ronaldo e do Nani e estou aqui para beber, fumar e partir tudo. Queres-me acompanhar?”
E, nas longas noites em Manchester (que só são longas porque começam às 21h) é frequente ver os “bifes” a colarem-se aos estudantes estrangeiros em busca de “diversão”, na procura de alguma coisa diferente. Quando vêm ter com os latinos esperam poder aproveitar-se da boa disposição e calor dos povos do sul da Europa.
Aliás, tenho uma teoria segundo a qual a frieza e distância natural da maioria dos ingleses tem a ver com a ausência de Sol. Como estão habituados a viver os seus dias por entre o nevoeiro e a neblina não são particularmente bem dispostos, a não ser que tenham uma pint na mão.
Mas, e por muito pouco que esperem de nós, uma pessoa não pode passar o tempo a beber, viajar e dormir. Tem de fazer alguma coisa da sua vida. E, ainda por cima, quando se vive na cidade do melhor clube do Mundo, tem-se de fazer tudo por tudo para se ver futebol in loco.
A experiência de ver futebol no pub é engraçada. Mas, por exemplo, poder assistir a uma partida em Old Trafford tem todo um outro sabor. O problema, sim existe um problema, é que todos os bilhetes estão esgotados.
Dito de outra forma, até ao final da época não há um único bilhete disponível para ver jogos do campeonato inglês em Old Trafford. Estão esgotados. Cada um dos 76 212 lugares está comprado. Então, como ver futebol?
Na ausência de mais alternativas, trabalha-se no estádio. E, foi isso mesmo que fiz. Fui ao recinto, fizeram-me a entrevista imediatamente, puxei do charme tuga e arranjei emprego na hora. Tudo simples. Tudo eficaz. Agora, Old Trafford também é a minha casa.
A partir da próxima semana começo a trabalhar para o mesmo patrão que o Ronaldo. A diferença é capaz de ser na quantidade de zeros nos nossos cheques. Talvez eu tenha menos alguns.
Welcome to Old Trafford. How can I help you?




