Welcome to Old Trafford. How can I help you?
Novembro 3, 2007
A vida de Erasmus tem muita coisa boa. Uma dessas coisas é um aparente retrocesso até aos tempos do Ensino Secundário ou, se calhar, ao Básico no que às nossas responsabilidades diz respeito.
Os alunos da Universidade de acolhimento olham-nos como crianças em busca de um último gole do cálice da eterna juventude e que devem ser examinados com alguma desconfiança; os professores encaram-nos como turistas que param nas suas aulas de pára-quedas e que estão por lá de passagem e, por isso mesmo, não esperam muito de nós. Até os professores da nossa universidade de origem desejam apenas que não deixemos ficar mal a Instituição mãe – quer isto dizer, que não partamos nada nem sejamos presos.
E nós, os Erasmus, não levamos isso a mal. Nem por sombras. Estamos aqui para experimentar aquilo que é viver e estudar (?) num país diferente, numa outra cultura e rodeado de símbolos e convenções estranhas.
Em Inglaterra, dizer-se que se é um português a fazer Erasmus soa aos ouvidos dos locais como: “Olá, sou da terra do Ronaldo e do Nani e estou aqui para beber, fumar e partir tudo. Queres-me acompanhar?”
E, nas longas noites em Manchester (que só são longas porque começam às 21h) é frequente ver os “bifes” a colarem-se aos estudantes estrangeiros em busca de “diversão”, na procura de alguma coisa diferente. Quando vêm ter com os latinos esperam poder aproveitar-se da boa disposição e calor dos povos do sul da Europa.
Aliás, tenho uma teoria segundo a qual a frieza e distância natural da maioria dos ingleses tem a ver com a ausência de Sol. Como estão habituados a viver os seus dias por entre o nevoeiro e a neblina não são particularmente bem dispostos, a não ser que tenham uma pint na mão.
Mas, e por muito pouco que esperem de nós, uma pessoa não pode passar o tempo a beber, viajar e dormir. Tem de fazer alguma coisa da sua vida. E, ainda por cima, quando se vive na cidade do melhor clube do Mundo, tem-se de fazer tudo por tudo para se ver futebol in loco.
A experiência de ver futebol no pub é engraçada. Mas, por exemplo, poder assistir a uma partida em Old Trafford tem todo um outro sabor. O problema, sim existe um problema, é que todos os bilhetes estão esgotados.
Dito de outra forma, até ao final da época não há um único bilhete disponível para ver jogos do campeonato inglês em Old Trafford. Estão esgotados. Cada um dos 76 212 lugares está comprado. Então, como ver futebol?
Na ausência de mais alternativas, trabalha-se no estádio. E, foi isso mesmo que fiz. Fui ao recinto, fizeram-me a entrevista imediatamente, puxei do charme tuga e arranjei emprego na hora. Tudo simples. Tudo eficaz. Agora, Old Trafford também é a minha casa.
A partir da próxima semana começo a trabalhar para o mesmo patrão que o Ronaldo. A diferença é capaz de ser na quantidade de zeros nos nossos cheques. Talvez eu tenha menos alguns.
Welcome to Old Trafford. How can I help you?
