Não fumar

Dezembro 30, 2007

A partir de 1 de Janeiro fumar em espaços fechados vai-se tornar quase numa batalha hercúlea para a maioria dos portugueses. O motivo é muito simples: A nova lei contra o tabaco.

Em Portugal acredita-se que existam cerca de 2 milhões de fumadores. Aqueles que são contrários à lei são rápidos e incisivos em classificar a mesma como antidemocrática e digna de uma ditadura da pior espécie. Um pouco à imagem da forma como o Liedson classificou o balneário de Alcochete.

Do alto do pedestal dos não fumadores, aplaudo a medida. Já o disse várias vezes, e volto a dizê-lo, legislar no sentido de impedir o fumo dentro de espaços fechados representa um passo em frente na protecção dos direitos dos indivíduos e garantia de melhor saúde pública.

Não nascemos de cigarro na boca. Fumar não é uma coisa intrínseca ao ser humano. Aliás, está provado que é prejudicial à saúde não só dos que fumam, como daqueles que vêem fumar. Por exemplo, estar numa discoteca ou bar uma noite inteira significa para quem não fuma o equivalente a ter puxado de 14 cigarros. Parece-me tremendamente injusto que alguém que não fume tenha de respirar o fumo enviado pelos outros, aqueles que fumam.

Todo o fumador passa a ter a liberdade de escolher quando quer fumar. A lei não proíbe o tabaco, não impede as pessoas de fumarem. Esta lei, simplesmente, regulamenta os locais públicos onde se poderá fumar. Não me parece, de todo, irrazoável que se deixe de poder fumar livremente em locais como restaurantes, bares, hotéis, escolas, bancos, hospitais, etc.

Aliás, não se acaba com o fumo nesses estabelecimentos. A única coisa que se faz é delimitar onde se pode fumar. Se o espaço tiver uma área superior a 100 m2, poderá ser criada uma área para fumadores, assim como em espaços pequenos se poderá fumar, desde que os mesmos sejam equipados com um sistema de ventilação que previna incómodos para os não fumadores.

Se o indivíduo é fumador, deve estar disposto a cumprir as regras para quem fuma. Não custa nada vir à rua fumar. Em Inglaterra, onde tenho vivido, esta lei já se encontra em vigor e as pessoas não têm problemas em respeitá-la. Se estiver frio ou chuva, pode muito bem escolher não fumar ou esperar até chegar a casa – sim, porque em nossa casa o estado não entra. Assim, o fumador fuma, e o não fumador não é obrigado a apanhar com o fumo na cara.

O Estado tem uma responsabilidade social de zelar pelos cidadãos e com esta lei faz precisamente isso: defende os fumadores passivos, protegendo-os de uma exposição indesejada ao tabaco; como protege os fumadores, dando-lhes assim um espaço para desfrutarem do seu vício.

Por tudo isto, não percebo os problemas dos fumadores. Ninguém os impede de fumar, apenas se procura limpar um bocado o ar e evitar que aqueles que não fumam e que não querem estar expostos ao cigarro continuem a ser prejudicados por um acto que não da sua responsabilidade.

Num estado de liberdades individuais, não devemos fugir à nossa responsabilidade para com os outros, sabendo que os nossos actos têm consequências para todos. Quando no restaurante o Manel fuma, o Joaquim apanha com o fumo apesar de não ter pedido ao Manel para lhe fumar na cara. São situações dessas que a lei pretende irradiar. E eu acho bem.

Benazir Bhutto assassinada

Dezembro 27, 2007

Quando morre a primeira mulher que chefiou um governo islâmico é claro que se trata de uma notícia infeliz. Mais triste se torna se tivermos em linha de conta que a dita foi assassinada numa altura em que ameaçava voltar a ocupar o lugar, tendo regressado há pouco mais de dois meses de um exílio forçado.

Falo de Benazir Bhutto, a paquistanesa que foi primeira-ministra do seu país de 1988 a 1990 e entre 1993 e 1996. Bhutto, filha do antigo primeiro-ministro Zulfikar Ali Bhutto que foi enforcado por suspeita de envolvimento no assassinato de um adversário político em 1979, esteve exilada oito anos depois de ter sido considerada culpada de corrupção.

Bhutto regressou ao Paquistão em Outubro tendo, quase de imediato, sido colocada em prisão doméstica por Musharraf. Depois de levantada a sentença, decidiu que não iria viver uma vida de opressão e isolamento imposto por terceiros. Procurou viver a sua vida e pagou o preço dessa audácia: vítima de um atentado suicida, morreu segundos depois de ter sorrido e acenado para a multidão que a acompanhava em Rawalpindi.

Pouco mais se sabe para já, a não ser que Bhutto, que preparava a eleição para um terceiro mandato ao leme do estado paquistanês, foi assassinada enquanto se encontrava com um grupo de apoiantes, não se sabendo ainda ao certo se foi atingida por alguns dos tiros disparados antes da explosão ou se terá sido a bomba a responsável pelo seu falecimento.

A morte de Bhutto é mais um indicador de um cenário há já algum tempo especulado: o Paquistão poderá, rapidamente, entrar numa guerra civil que irá pôr a nu as debilidades do actual regime político do estado islâmico. Aparentemente, os culpados são um dos grupos radicais que, nas palavras de Musharraf, o “Paquistão tem combatido”.

O alarme internacional soa ainda mais alto se tivermos em conta que o Paquistão é uma das nações com poder nuclear e que um confronto civil pode tornar incerto o paradeiro desses instrumentos. Imaginemos que os tais radicais conseguem colocar as mãos num desses engenhos. E depois? Como reage o governo paquistanês? O que faz a comunidade internacional? E a Índia? De certeza que Nova Deli não vai ficar a olhar de fora e apreciar o espectáculo.

Adivinham-se problemas para aqueles lados. Muitos problemas. Mais ainda do que aqueles que eles têm tido.

2007 foi, entre outras coisas, o ano do Referendo do Aborto. Litros e litros de tinta foram gastos durante a discussão, por vezes apaixonada, outras simplesmente estúpida. Uns eram a favor, outros contra. Uns andavam naquele meio-termo, naquele limbo que caracteriza tão bem os que não se querem comprometer com nada. Quem se esquece do famoso sketch do Gato Fedorento sobre a posição de Marcelo? “ – Professor, o aborto é legal? – Não. Mas, se eu fizer um aborto o que me acontece? – Nada”.  Ia qualquer coisa assim.

O engraçado da questão é que após páginas e páginas de jornal sobre o tema, depois de horas de direitos de antena na rádio e na televisão, ninguém foi votar. Este ‘ninguém’ é, claramente, exagerado. Mas dizer que pouco mais de 40% dos eleitores foi votar já diz mais alguma coisa. Aliás, esclarecer que o referendo foi, efectivamente, chumbado é uma necessidade, pois não tendo sido votado pela maioria dos eleitores não tem qualquer valor constitucional. O PS simplesmente fez avançar o comboio. De facto, seria muito mais embaraçoso se daqui a 10 anos voltássemos a ver um Referendo do Aborto chumbado por um número insuficiente de votantes.

Porém, a 9 de Novembro de 1998 foi outra a questão que foi a referendo: A regionalização. Na altura, tal como na questão do Aborto, também não se atingiu o mínimo constitucionalmente exigido para que o resultado fosse considerado vinculativo. Mesmo assim, venceu na altura o Não, derrota que começou a desenhar o futuro negro do Portugal de Guterres.

Porém, onze anos volvidos muita coisa mudou no nosso país. Entre outras coisas, tivemos mais um referendo sobre o Aborto. Porém, a regionalização ficou à parte. Porquê? Porque não constava das “promessas de Sócrates”? Porque é um tema que não vende tantos jornais? Ou será porque não é um assunto tão importante para o desenvolvimento de Portugal? Não sei.

Para mim, e sabendo que estou naquele limiar que separa os insensíveis dos sacanas frios, um referendo sobre a regionalização é muito mais importante do que foi o do aborto. Claro que Portugal precisava de resolver essa questão, mas não deixa de ser crucial apresentar um novo plano de regionalização para o país.

O debate da regionalização nunca foi levado a sério em Portugal. O plano de Guterres mais parecia ter sido desenhado no Rato após um almoço prolongado entre os boys. Nunca foi apresentado ao eleitorado um projecto eficiente de regionalização, nem foi explicado aos portugueses aquilo que iria mudar com a regionalização.

É importante também que o projecto da regionalização não nasça e morra na Assembleia. O princípio usado para trazer o aborto à rua, aplica-se à regionalização. É um assunto que poderá mudar a vida dos portugueses, logo eles têm direito a pronunciar-se sobre o mesmo.

Não há questões mais ou menos legítimas quando se trata da governação de um Estado. Não se podem usar alguns temas como bandeiras apenas porque dão votos e evitar outros. Se o tema do aborto era suficientemente importante para ser referendado, apesar da maioria dos eleitores ter discordado pela segunda vez desse raciocínio, então o da regionalização não pode ser colocado num patamar inferior.

E quem fala da regionalização fala de qualquer outro assunto que possa interferir com o quotidiano dos portugueses. Se concordarmos que alguns desses temas têm direito a julgamento popular, num sistema democrático somos forçados a ampliar esse direito a todas as outras questões que possam fracturar a vida da população. 

Mesmo que isto signifique que passemos a vida em referendos, trata-se de uma questão de princípio que não pode ser descurada. Mas, também, como ninguém vai votar, eles passarão quase despercebidos.

O Enternecimento do coração

Dezembro 22, 2007

Foram 13 semanas. 91 dias. 2184 horas longe de Portugal. Foram dias, semanas, meses de frio. Frio. E mais frio.

Mas por estes dias vou ter umas tréguas. O Natal está aí à porta e para celebrar o dia santo voltei ao meu cantinho e por cá permanecerei até ser altura de voltar a enrijar e regressar ao frigorífico de Manchester.

Ontem foi um dia bom. Era o dia do regresso, o dia em que eu voltaria a respirar ar português e o facto de a hospedeira da TAP me ter oferecido a edição daquele dia do Diário de Notícias só serviu para apimentar o meu entusiasmo.

Apesar de ter mantido os meus ouvidos e olhos atentos sobre aquilo que se passava por cá enquanto estive por lá, ter um jornal português nas mãos é totalmente diferente, pois poder ler, reler e interpretar as notícias, assim como analisar os editoriais e as colunas de opinião é um daqueles prazeres que não se tem online.

Para aquele momento ser ainda mais perfeito, ou pitoresco, só faltava mesmo o cigarro e/ou o café. Ora, como eu não inalo o primeiro, nem ingiro os segundo, bastava-me um chocolate quente e uma nata e estaria nas minhas sete quintas. Tive de me contentar com o assento à janela do airbus da TAP e o Compal de maçã. Bem bom.

A ideia em ler o DN era ir-me actualizando ao pormenor sobre as principais notícias portuguesas. Queria saber o que se passava por cá, para além do congelamento das negociações entre o Benfica e o Léo. Ora, logo na primeira página vinha uma chamada para a iminência de os Diabos Vermelhos e os No Name Boys deixarem o Estádio da Luz vazio, pois são claques ilegais e ao abrigo da nova Lei do Desporto isso dá como pena a obrigatoriedade de jogar à porta fechada. Tem de ser. Há que legalizar as claques.

Continuo a ler e vejo que se fala do caso “Noite Branca”, dos Pidás e dos Beckhams à moda do Porto, da necessidade que houve em chamar o exército para incinerar porcos, as dívidas crescentes das câmaras, a existência de duas clínicas de aborto ilegais, a luta contra o tráfego de droga proveniente da Guiné, a coroação de Ronaldo como figura mais mediática do Mundo do futebol, a crítica de Rui Machete a Bush por este ter desvalorizado a língua portuguesa, a posição assumida por apoiantes da ETA num tribunal basco, a instalação de câmaras de vigilância na Baixa lisboeta…

Muita coisa os jornais portugueses trazem na capa. Lá nisso os ingleses são mais práticos: espetam com uma fotografia de corpo inteiro da Gemma na capa e está o assunto arrumado. O DN incluiu ainda na capa uma reportagem sobre Macau e aquilo que mudou na nossa antiga colónia desde 1999, ano da passagem de testemunho.

Em 1999 tinha eu 13 anos e assisti à transição pela televisão (quem disse que a revolução não seria televisionada?). Lembro-me de assistir à troca da bandeira, ao hastear da chinesa e à descida da nossa. Lembro-me de ver o governador de lágrimas nos olhos e de olhar para o meu Pai e ver o mesmo. O meu Pai, uma fortaleza de homem, o meu modelo, a chorar ao ver a passagem da soberania num pedaço de terra que ele nunca conheceu e de onde apenas tido lido e ouvido algumas coisas na escola, mas já estava tudo muito distante.

À medida que a bandeira descia, iam caindo mais lágrimas. Quando Vasco Rocha Vieira abraçou a bandeira e chorou, também o Carlos Vieira, sentado na sua poltrona em Braga, chorou. Mais tarde explicou-me que chorou porque se tratava do fim da presença de Portugal naquela parte do globo, do desaparecimento de mais um traço da grandeza de outros tempos.

Numa dimensão totalmente diferente, devo dizer que sinto o mesmo. O apego aos símbolos da Portugalidade no exterior. Ver garrafas de Super Bock em Edimburgo deixou-me aos pulos, comprar pêra rocha em Manchester deu-me prazer, assim como emborcar uma garrafa de rosé com amigos numa residência em Manchester.

Entrar no avião e ouvir português, fazer uma viagem inteira com o Diário de Notícias nas mãos e o tal copo de Compal no tabuleiro deu-me prazer. Fez-me sentir mesmo muito bem. Chegar a Sá Carneiro e concluir que se trata de um aeroporto de cinco estrelas, recolher as malas e ver a família à minha espera só serviu para enriquecer um dia especial. Acordar às 10 da manhã com 0º em Manchester e chegar às 23h40 ao Porto (atraso de uma hora…) com 13º foi assombroso. Melhor ainda quando o Sr. Vieira me informou que o Glorioso havia despachado o Estrela minutos antes por 3-0.

This is Portugal. And I love it.

PS: Para fechar o ciclo de ouro só faltava uma derrota do Porto. E não é que o Lipatin me deu essa prenda? O Natal é mesmo para todos.

Madame President

Dezembro 19, 2007

Se fossem hoje as primárias do Partido Democrata Hillary Clinton seria a candidata nomeada pelo partido para o assalto à Casa Branca. Mais, se as próprias eleições nacionais fossem hoje o apelido Clinton voltaria a ocupar o lugar do destinatário nas cartas dirigidas à casa grande de Pennsylvania Avenue. 

Neste momento, a mulher de Bill Clinton tem uma intenção de voto junto do eleitorado democrata de 40%, mais 10% do que o candidato que vem em segundo lugar, o senador do Illinois, Barack Obama.

Depois de 8 anos de Bush os EUA e o Mundo pedem por uma lufada de ar fresco. Suplicam mesmo por alguma coisa nova, diferente. As asneiras do presidente deixaram de ter piada, a sua aparente falta de retórica já incomoda assim como a sua estupidez e idiotice. Está na hora de alguma coisa diferente.

Estará na hora de Hillary? Talvez. Dê por onde der, nunca esteve tão perto a chegada de uma mulher à cadeira do poder na Sala Oval.

Existem dúvidas em torno de Hillary. Qual será a sua estratégia política? Isto é, quais serão as suas prioridades? Como vai agir perante o lobby das seguradoras de saúdes e reformar o sistema de saúde americano? Do plano económico, como tenciona espevitar a economia do país? Ao nível da educação, quais são os planos?

E, claro, não podemos deixar de falar do Iraque e do Afeganistão. Onde se posiciona a Senadora neste campo? Sabemos que é contra a guerra, mas como vai agir perante a mesma quando entrar na mansão presidencial? Ir-se-á sujeitar ao plano traçado por Bush ou, num rasgo de iniciativa, mandar recolher as tropas americanas e deixar o Iraque aos iraquianos?

O problema de uma retirada, neste momento, do Iraque é que o país não está em condições de superar tal situação. Caso as tropas aliadas deixassem neste momento o país, os grupos rebeldes ocupariam imediatamente o mesmo e todo o esforço teria ido por água abaixo.

De acordo com os americanos nada pode ser mais catastrófico. Isto é, após quatro anos a despejar dinheiro no Iraque, a contar o cada vez maior número de soldados americanos a voltar para casa em caixões e não sentados no avião, a perspectiva de poder vir a pensar que tudo foi em vão é terrível.

Qualquer que seja o resultado das eleições é certo de que se trata de uma altura crucial no Mundo. Enfrentamos em conjunto diversos desafios, como a redução das emissões de gases, o terrorismo, a guerra, a fome e as doenças contagiosas – para nomear alguns dos males que nos rodeiam. Para combater efectivamente estes perigos, precisamos dos EUA, do seu empenho e do seu dinheiro.

Por isso, temos de acompanhar o desenvolvimento desta campanha e esperar que o vencedor, seja Hillary ou outro, arrume rapidamente a casa porque precisamos que os Americanos olhem mais para fora do que para dentro. Que estejam na disposição de enfrentar mais os problemas do Mundo, do que os problemas dos americanos que, quase invariavelmente, se transformam em problemas de todos. Hoje, mais do que nunca, o Mundo precisa dos EUA e os EUA do Mundo. Perceberá Hillary aquilo que Bush deixou passar? Terá capacidade para entender que no Mundo Global todos precisamos de todos e que não vale a pena aos americanos refugiarem-se na sua bolha privada e passearem alegremente sós?

Espero que sim. Desejo que sim.

Ter cão e não ter

Dezembro 15, 2007

Gordon Brown protagonizou um episódio caricato, no mínimo, na última quinta-feira, dia em que compareceu à assinatura do Tratado de Lisboa horas depois dos restantes parceiros europeus terem assinado o documento. Não só primeiro-ministro da Grã-Bretanha chegou tarde, como assinou o documento à pressa sem direito nem à pompa nem à circunstância de que gozaram os restantes líderes europeus. Nem sequer pôde apreciar o almoço oferecido por Cavaco.

À primeira vista, esta decisão de Brown parece totalmente incompreensível. Como pode o responsável máximo de uma dos Estados mais importantes dentro da UE faltar à assinatura de um documento tão importante como este? A explicação que a maioria dos analistas britânicos tem encontrado é esta: Gordon quis dar um ar de desprezo pela União.

O euro-cepticismo britânico é mais do que conhecido. Os britânicos vêem a UE como um depósito de poder que, a pouco e pouco, vai esvaziando Westminster e desprotegendo Londres. A recusa do Euro não tem a ver com questões comerciais, até porque as maiores empresas britânicas usam a moeda única nas suas operações transoceânicas, mas sim com questões de soberania. Explicam-me os Ingleses aqui que é importante ver a Rainha na libra pois representa a soberania do povo britânico e a vitória contra as adversidades. Dizem eles, hoje, que aceitar a mesma moeda que a Alemanha era declarar como inúteis os esforços de guerra dos seus antepassados. E quem fala no Euro, fala em várias outras questões diplomáticas que eles rejeitam.

Quase tão grande como o cepticismo europeu é o cepticismo do povo britânico para com Brown e o seu governo. O escocês não foi eleito e não tem tido a sagacidade de fazer o povo esquecer-se desse pormenor. Enquanto ouço as críticas dos conservadores e de algumas alas do partido trabalhista lembro-me das críticas que se fizeram a Santana quando ele subiu ao poder. A natureza das mesmas é semelhante. Pior, Brown disse antes de tomar posse que, se o povo entendesse, ele avançaria para um processo de eleições antecipadas. Não contou que a insatisfação fosse tão grande, nem tão significativa. Como o escocês esperou pelo cargo durante anos, deixou essa promessa esfaziar e hoje nem fala nisso. Desde que cá estou, em nenhuma sondagem Brown tem ficado em primeiro. Depois da hegemonia de Blair, não deixa de ser sintomático.

Então, Brown tentou agradar aos gregos e aos troianos. Assinou o tratado, pois no fundo é tão europeísta como Blair, mas ao mesmo tempo deu – ou tentou dar – um ar de soberania e superioridade do povo britânico sobre os restantes europeus. Fez isso ao dizer que era inevitável uma reunião com parlamentares britânicos e que só poderia deixar o gelo londrino rumo ao sol lisboeta muito depois dos restantes chefes-de-estado terem assinado o documento.

Teve azar. Os britânicos não aprovaram quer a assinatura do tratado, quer a aparente rebeldia de Brown. Não sancionam o tratado pois acreditam que se trata de um documento de transferência de poder e soberania do Estado britânico para o comunitário. Contudo, não apreciaram o gesto de Brown porque deu uma má imagem da Nação, tendo-se excluído da assinatura de um documento importante em que todos os parceiros – creio que se poderia ler rivais – europeus estavam presentes.

Enquanto Merkel, Sarkozi e Prodi assinavam o documento, Brown discutia trivialidades numa audiência parlamentar. Na cabeça dos britânicos, pior do que assinar um tratado que lhes retira poder, é que o seu líder dê uma pálida imagem externa do país, oferecendo o protagonismo aos outros líderes e dando ar de fraco.

Brown tentou com alguma habilidade virar uma situação adversa aos olhos do público – os conservadores criticam a inexistência de um referendo ao Tratado– e assim melhorar a sua imagem junto do mesmo. Falhou de todos os lados pois para além de não ter conseguido reunir simpatia junto dos seus eleitores, o seu acto de desconsideração pelos camaradas europeus foi visto com repúdio pela opinião pública de quase todos os restantes Estados Europeus.

E de erro em erro, que não cause surpresa ver Brown, o escocês que viu-se e desejou-se para ocupar Downing Street, a ser convidado a esvaziar o nº10.

Sobre o ‘nosso’ ComUM

Dezembro 12, 2007

Hoje, sim hoje, o ComUM faz anos. Para aqueles que não sabem, o ComUM é um diário digital inteiramente mantido e dirigido por alunos do curso de Ciências de Comunicação (quase escrevi Comunicação Social…) da Universidade do Minho.

Desde a sua reformulação para o modelo digital – já anteriormente servira o público minhoto na forma de revista – o ComUM já passou por algumas transformações. Em termos de nomenclatura, o menino perdeu recentemente o ‘Online’ que lhe completava o nome para se apresentar como ComUM.

Ao mesmo tempo que se procedeu à mudança do nome, lavou-se também a cara do site, alterando-se o alojamento do mesmo para aqui.

Hoje, o ComUM não é mais o jornal engraçado dos meninos que queriam brincar aos jornalistas. Todavia, não pensem que a fantasia acabou, pois o jornal continua a ser constituído por meninos e meninas com sonhos de jornalismo; a cada notícia que é escrita, a cada peça filmada sentem-se mais próximos de alcançar e atingir o seu sonho, a sua ambição – ser Jornalistas.

É por isso que o ComUM é diferente de outros órgãos do género. Apesar de ser de responsabilidade estudantil, é sério e competente, não se dobrando para agradar nem a gregos, nem a troianos. A nossa única preocupação é apresentar a notícia e fazemo-lo sem qualquer apego a qualquer ideologia que não seja a da verdade. Para mentir ou ocultar verdades em favor de terceiros não contem connosco.

E, apesar de o projecto do ComUM ter nascido num papel de guardanapo e à mesa do café, a verdade é que o menino tem crescido e a pouco e pouco se tem tornado numa força constante e presente na realidade e no quotidiano da Academia minhota, que tantas vezes parece dormente e inerte face a tudo aquilo que passa à sua volta.

E é essa função cívica e de verdadeiro serviço público que o ComUM quer manter. E vai manter. Quer seja em formatos futuristas ou mais conservadores, quer estejam os actuais alunos ao leme, quer as gerações vindouras, o ComUM jamais poderá ser rotulado como o jornaleco dos intelectuais de CS (não me convencem a escrever CC…). O ComUM, hoje e sempre, é o jornal que melhor serve os alunos da UM, o que mais se importa em lhes fornecer notícias na hora e aquele que mais preocupação tem em garantir que os estudantes sabem aquilo que se passa na sua Academia, na Região e no Ensino Superior.

Por isso digo que se trata do nosso jornal. Nosso, pois não é nem meu nem dos meus colegas de curso. O ComUM pertence à Academia, aos estudantes minhotos. Existe para os servir. No dia em que eles não quiserem saber do jornal, o ComUM morre. Morre, pois um jornal sem público é como uma sala de espectáculos vazia: oca, triste e cinzenta.

Mas, o facto de o jornal ainda existir e de estar a completar o segundo aniversário num momento de tanta euforia e de crescimento significa que não só os estudantes querem saber do ComUM, como lhe reconhecem qualidade e valia para informar.

Apesar de não estar nesta altura tão envolvido quanto gostaria, relembro com frequência desde Manchester as horas que passei a editar artigos, a orientar redactores e, claro, a pesquisar e a construir as minhas próprias notícias para o ComUM.

Se sei muito ou pouco de jornalismo, não sei, mas tenho a certeza que todo o conhecimento que tenho da arte foi adquirido em frente ao meu computador, a este Toshibazito, a trabalhar para o ComUM. O ComUM foi a minha, como espero que seja a de muitos outros no presente e no futuro, oficina de jornalismo.

Não consigo pensar no dia de hoje, sem me lembrar do mesmo dia há 2 anos quando, enquanto aluno do 2º ano, virgem na actividade jornalística, fui levado por este jornalista a sério – o meu modelo académico – e comecei a minha caminhada. Depois, cresci, voei para fora do ninho, dei umas braçadas por aí mas logo regressei porque casa há só uma.

Durante os dois anos do ComUM, vários foram os estudantes que tomaram parte na construção do jornal. Alguns já partiram para a vida adulta, outros ficaram a tomar conta do menino que hoje faz 2 anos. Eu, como eles, orgulho-me de ter essa responsabilidade, de assegurar que o rapaz continue a ter espaço para crescer e que esse crescimento seja sustentado.

Para o Rui e o Romano envio uma mensagem especial, pois reconheço o seu imenso trabalho e revejo-me nos seus planos e projectos. Aliás, só tenho pena de não poder ter estado aí, no terreno, a trabalhar convosco durante estes primeiros meses de ‘novo’ ComUM. Mas, não se preocupem. Em Fevereiro aí estarei. De corpo e alma. E com muito café para durar a noite toda. É que a edição vai ser a dobrar…

Parabéns ComUM! Pessoal, hoje e sempre, bebam um copo por mim!

Jim Morrison

Dezembro 8, 2007

Se fosse vivo, James Douglas Morrison faria hoje 64 anos. Infelizmente, há muito que a vedeta desapareceu deixando apenas o mito, sujeito à veneração dos muitos que seguiram a vida de Morrison com a mesma paixão e intensidade com que o líder mítico dos “The Doors” a viveu.

brucespringsteen_magic_cover.jpgO “Boss” está de volta e mostra que ainda está em forma. Magic é o seu novo álbum, apenas o segundo gravado em estúdio com a “E Street Band” – o primeiro foi o condecorado Born in the USA (1984) –  e conta com o single de sucesso “Radio Nowhere”.

A presença da E Street Band incute no álbum uma sonoridade muito mais pesada e próxima do rock, algo que faltara nos últimos projectos de Springsteen, nomeadamente em Devils & Dust e We Shall Overcome: The Pete Seeger Sessions.

O single de apresentação do álbum, Radio Nowhere, é um perfeito exemplo da força emprestada pela E Street Band a Springsteen, com as guitarras a comandar um ataque que parece conduzido pelo desespero, melancolia e taciturnidade, emoções que transpiram por todos os poros do disco.

Aliás, este poderá ser considerado um álbum de luto para Springsteen, uma expressão de angústia já há muito esperada e repetida por diversos artistas ao longo do ano de 2007. Apesar do título do disco poder indicar o contrário, Magic não oferece faixas de alegria e contentamento. De facto, a própria imagem de Bruce na capa, sombrio e desalentado, dá pistas sobre qual a disposição que predomina no álbum.

Às vezes de forma declarada, outras nem tanto, o facto é que Springsteen critica abertamente a guerra e os políticos, quer por metáforas (como em “Magic”, faixa em que o público retratado é enganado por um impostor), quer de forma directa, como em “Last to Die” (Who’ll be the last to die for a mistake/The last to die for a mistake/ Whose blood will spill, whose heart will break/Who’ll be the last to die for a mistake).

Num ano, como tantos outros, marcado pelas manifestações contra a guerra e conta a corrupção na política, Magic é a contribuição de Bruce Springsteen para essa luta, um combate que há muito ele assumiu como sendo dele.

E se é a vontade de lutar que o leva a compor álbuns como este, então que continue a combater porque a música precisa de um Boss interventivo e com coisas para dizer.