Benazir Bhutto assassinada
Dezembro 27, 2007
Quando morre a primeira mulher que chefiou um governo islâmico é claro que se trata de uma notícia infeliz. Mais triste se torna se tivermos em linha de conta que a dita foi assassinada numa altura em que ameaçava voltar a ocupar o lugar, tendo regressado há pouco mais de dois meses de um exílio forçado.
Falo de Benazir Bhutto, a paquistanesa que foi primeira-ministra do seu país de 1988 a 1990 e entre 1993 e 1996. Bhutto, filha do antigo primeiro-ministro Zulfikar Ali Bhutto que foi enforcado por suspeita de envolvimento no assassinato de um adversário político em 1979, esteve exilada oito anos depois de ter sido considerada culpada de corrupção.
Bhutto regressou ao Paquistão em Outubro tendo, quase de imediato, sido colocada em prisão doméstica por Musharraf. Depois de levantada a sentença, decidiu que não iria viver uma vida de opressão e isolamento imposto por terceiros. Procurou viver a sua vida e pagou o preço dessa audácia: vítima de um atentado suicida, morreu segundos depois de ter sorrido e acenado para a multidão que a acompanhava em Rawalpindi.
Pouco mais se sabe para já, a não ser que Bhutto, que preparava a eleição para um terceiro mandato ao leme do estado paquistanês, foi assassinada enquanto se encontrava com um grupo de apoiantes, não se sabendo ainda ao certo se foi atingida por alguns dos tiros disparados antes da explosão ou se terá sido a bomba a responsável pelo seu falecimento.
A morte de Bhutto é mais um indicador de um cenário há já algum tempo especulado: o Paquistão poderá, rapidamente, entrar numa guerra civil que irá pôr a nu as debilidades do actual regime político do estado islâmico. Aparentemente, os culpados são um dos grupos radicais que, nas palavras de Musharraf, o “Paquistão tem combatido”.
O alarme internacional soa ainda mais alto se tivermos em conta que o Paquistão é uma das nações com poder nuclear e que um confronto civil pode tornar incerto o paradeiro desses instrumentos. Imaginemos que os tais radicais conseguem colocar as mãos num desses engenhos. E depois? Como reage o governo paquistanês? O que faz a comunidade internacional? E a Índia? De certeza que Nova Deli não vai ficar a olhar de fora e apreciar o espectáculo.
Adivinham-se problemas para aqueles lados. Muitos problemas. Mais ainda do que aqueles que eles têm tido.
Para 2008 quero outro referendo
Dezembro 27, 2007
2007 foi, entre outras coisas, o ano do Referendo do Aborto. Litros e litros de tinta foram gastos durante a discussão, por vezes apaixonada, outras simplesmente estúpida. Uns eram a favor, outros contra. Uns andavam naquele meio-termo, naquele limbo que caracteriza tão bem os que não se querem comprometer com nada. Quem se esquece do famoso sketch do Gato Fedorento sobre a posição de Marcelo? “ – Professor, o aborto é legal? – Não. Mas, se eu fizer um aborto o que me acontece? – Nada”. Ia qualquer coisa assim.
O engraçado da questão é que após páginas e páginas de jornal sobre o tema, depois de horas de direitos de antena na rádio e na televisão, ninguém foi votar. Este ‘ninguém’ é, claramente, exagerado. Mas dizer que pouco mais de 40% dos eleitores foi votar já diz mais alguma coisa. Aliás, esclarecer que o referendo foi, efectivamente, chumbado é uma necessidade, pois não tendo sido votado pela maioria dos eleitores não tem qualquer valor constitucional. O PS simplesmente fez avançar o comboio. De facto, seria muito mais embaraçoso se daqui a 10 anos voltássemos a ver um Referendo do Aborto chumbado por um número insuficiente de votantes.
Porém, a 9 de Novembro de 1998 foi outra a questão que foi a referendo: A regionalização. Na altura, tal como na questão do Aborto, também não se atingiu o mínimo constitucionalmente exigido para que o resultado fosse considerado vinculativo. Mesmo assim, venceu na altura o Não, derrota que começou a desenhar o futuro negro do Portugal de Guterres.
Porém, onze anos volvidos muita coisa mudou no nosso país. Entre outras coisas, tivemos mais um referendo sobre o Aborto. Porém, a regionalização ficou à parte. Porquê? Porque não constava das “promessas de Sócrates”? Porque é um tema que não vende tantos jornais? Ou será porque não é um assunto tão importante para o desenvolvimento de Portugal? Não sei.
Para mim, e sabendo que estou naquele limiar que separa os insensíveis dos sacanas frios, um referendo sobre a regionalização é muito mais importante do que foi o do aborto. Claro que Portugal precisava de resolver essa questão, mas não deixa de ser crucial apresentar um novo plano de regionalização para o país.
O debate da regionalização nunca foi levado a sério em Portugal. O plano de Guterres mais parecia ter sido desenhado no Rato após um almoço prolongado entre os boys. Nunca foi apresentado ao eleitorado um projecto eficiente de regionalização, nem foi explicado aos portugueses aquilo que iria mudar com a regionalização.
É importante também que o projecto da regionalização não nasça e morra na Assembleia. O princípio usado para trazer o aborto à rua, aplica-se à regionalização. É um assunto que poderá mudar a vida dos portugueses, logo eles têm direito a pronunciar-se sobre o mesmo.
Não há questões mais ou menos legítimas quando se trata da governação de um Estado. Não se podem usar alguns temas como bandeiras apenas porque dão votos e evitar outros. Se o tema do aborto era suficientemente importante para ser referendado, apesar da maioria dos eleitores ter discordado pela segunda vez desse raciocínio, então o da regionalização não pode ser colocado num patamar inferior.
E quem fala da regionalização fala de qualquer outro assunto que possa interferir com o quotidiano dos portugueses. Se concordarmos que alguns desses temas têm direito a julgamento popular, num sistema democrático somos forçados a ampliar esse direito a todas as outras questões que possam fracturar a vida da população.
Mesmo que isto signifique que passemos a vida em referendos, trata-se de uma questão de princípio que não pode ser descurada. Mas, também, como ninguém vai votar, eles passarão quase despercebidos.