Em Fevereiro O Eclipse fez anos. Na altura, a data não foi devidamente comemorada porque não tinha vontade para o fazer. Assim, mais de um mês depois, reforço o blogue com duas prendinhas de anos:  Duas novas páginas!

“O que se diz” e “Boa Boca” são os títulos das duas novas páginas deste blogue que pretendem, no caso da primeira, dar destaque a declarações proferidas no dia pelas individualidades que marcam o nosso quotidiano. Sobre a segunda página, posso dizer que se trata de um breve apanhado de frase célebres proferidas por personalidades também elas (re)conhecidas do público. Acreditem que estão por aqui perdidas algumas pérolas.

Porém, não se fica por aqui este post. Hoje saiu a 5ª edição da versão impressa do ComUM, o jornal universitário do qual orgulhosamente faço parte. Parece algo disparatado festejar cinco edições, mas cada uma delas saiu do nosso corpo - e do PC dele - como produto de muito sangue, suor e lágrimas. Sem apoios institucionais, sem ‘big money’, o jornal lá vai aparecendo e desaparecendo pelos corredores da UM.

O público sabe apreciar um produto com valor e o ComUM é isso mesmo: um jornal de valor, de muito valor.

We’ve got a War to fight

Março 29, 2008

portishead.jpgNão estive lá há 10 anos. Não estive lá na quarta-feira. Não estive lá na quinta-feira. Não fui ver Portishead. Não fui ouvir a voz de Beth Gibbons. Não me arrepiei com os acordes estridentes de Geoff Barrow e Adrien Utley.

Há 10 anos não poderia ter ido. Em 1998 andava a seguir demasiado Bryan Adams ou os Corrs para me aperceber dos Portishead – apesar de estar em vias de ‘riscar’ ‘Supernatural’, de Carlos Santana.

Ainda bem que não fui. Não tinha maturidade para perceber, ou tentar perceber, a riqueza presente no sofrimento das letras de Gibbons, nem os arranjos musicais ‘out of this world’ de Barrow e Utley.

Foi só aos 20 anos. Esperei 20 anos para ouvir Portishead. ‘Only You’ foi a faixa que marcou o início da minha relação com Beth. Desde o princípio todo aquele universo sonoro pareceu-me ter tanto de estranho, quanto de fascinante. Comecei a perceber que ouvir Portishead era embarcar numa viagem sem destino e, mais estranho, sem proveniência. Simplesmente, entrava-se na nave, não interessando – nem existindo – qualquer tipo de procedência anterior.

Mas foi com 21 que assumi o meu relacionamento com Beth Gibbons. Em Manchester, lar da Hacienda dos Joy Division e dos Smiths, de Roy Harper e dos Oasis, fui desafiado por um sueco a ouvir ‘Dummy’. Disse-me o rapaz, o único sueco louro que conheci, enquanto mascava uma pastilha de tabaco, que aquele era o derradeiro álbum, a verdadeira experiência musical em que corpo e alma se fundem e fazem um só. Não estava céptico, nada disso, mas custava-me a acreditar que fosse assim tão bom.

Mas é. Dummy é daqueles álbuns que todos os músicos querem fazer – e os Portishead acertaram à primeira. Lindo do plano musical e ao nível das letras, existe em todo o álbum um afecto, um carinho muito grande pela existência humana que transparece nos rasgos de dor, sofrimento e ódio que a vocalista deixa fugir por entre gemidos, sussurros e desabafos.

Talvez como a grande parte dos fãs, a faixa que me marcou foi “Roads”. Ouvi o álbum, numa madrugada após essa noitada em que o sueco Thomas me aconselhou a voz de Beth. Cheguei a casa, liguei o PC e carreguei no botão do download. 45 minutos depois estava deitado na minha cama, a ver o sol timidamente penetrar por entre as frinchas da persiana. Quando começou a tocar Roads, abri os olhos que se tinham fechado para criar o ambiente para a experiência musical. Despertei.

Despertei para as gotas de água que vão caindo e avisando que a tempestade estava a chegar. “Oh, can’t anybody see/we’ve got a war to fight/Never found our way/Regardless of what they say”, começa Beth. O tormento que contamina a sua voz é mel para os ouvidos de quem escuta. Acima de tudo é genuíno, não só o sofrimento, como a compaixão que erradia da sua boca.

Foi a partir desse momento, dessa manhã em que ouvi o álbum, que quis fazer parte do universo Portishead, quis conhecer mais sobre este grupo que marcou a segunda metade da década de 90 e que, tão naturalmente quanto surgiu, desapareceu para sempre. Descobri que a vocalista não fala em público, que não ouve música contemporânea e que, a maior parte das vezes, os outros dois músicos da banda não percebem as letras das músicas – apenas tratam de arranjar som para acompanhar a poesia de Beth.

Descobri também que inúmeras pessoas – sobretudo mulheres – classificavam Portishead como a melhor banda para se ouvir na cama, enquanto se faz amor ou sexo, para fins de procriação, ou para simples recreio.

Eu acho que têm razão. Mas, também, sou suspeito devido ao meu relacionamento demasiado próximo com Beth Gibbons, com a sua voz e com as suas letras.

Não estive lá há 10 anos, quando lá era a Zambujeira. Não estive lá na quarta, no Porto. Não estive lá na quinta, em Lisboa. Não estive. Mas com a voz de Beth e com a música de Geoff e Adrien estou sempre. Desde aquela noite em Manchester.

Fica só um cheirinho:For 13 long months, we’d held off on publicizing one of the Bush administration’s biggest secrets. Finally, one afternoon in December 2005, as my editors and I waited anxiously in an elegantly appointed sitting room at the White House, we were again about to let President Bush’s top aides plead their case: why our newspaper shouldn’t let the public know that the president had authorized the National Security Agency, in apparent contravention of federal wiretapping law, to eavesdrop on Americans without court warrants.

As New York Times Editor Bill Keller, Washington Bureau Chief Phil Taubman, and I awaited our meeting, we still weren’t sure who would make the pitch for the president. Dick Cheney had thought about coming to the meeting but figured his own tense relations with the newspaper might actually hinder the White House’s efforts to stop publication. (He was probably right.) As the door to the conference room opened, however, a slew of other White House VIPs strolled out to greet us, with Secretary of State Condoleezza Rice near the head of the receiving line and White House Counsel Harriet Miers at the back.”

Para ler o resto, basta clicar aqui.

Sra. Sarkozy

Março 26, 2008

nsarko625.jpg

No dia em que chegou a Inglaterra, Carla Bruni soube que uma foto sua vai ser leiloada, no próximo mês, pela Christie’s em Nova Iorque. O retrato poderá render € 3000 à instituição.

De recordar que a primeira-dama de França está despida na foto tirada pelo fotógrafo Michel Comte em 1993, revelando apenas um ar desafiador enquanto cobre as suas partes baixas com as mãos.

E não é que Sócrates baixou mesmo os impostos! Agora falta é saber se essa descida vai trazer consigo quaisquer efeitos práticos, como a descida do preço dos bens de consumo.

Creio que se tratará de uma descida praticamente inconsequente, mas fica bem abrir os telejornais a dizer que se “desceu o IVA”. E a verdade é que ele desceu. Um porcento, mas desceu.

Laughing Out Loud

Março 25, 2008

Desde que vi o primeiro jogo do Maxi Pereira que só me rio. É l.o.l atrás de l.o.l. São gargalhadas de tristeza, mas não deixam de ser gargalhadas.

1601.jpgEste ano não passei a Páscoa em casa. Ao contrário daquilo que manda a tradição, que me põe a beijar 5 cruzes a cada domingo pascal, fui passar o dia ao Santuário de Fátima. Ora, foi em passeio pela vila que tomei nota de uma coisa que me impressionou: o valor astronómico das estatuas de Cristo e de Nossa Senhora.

Uma senhora, alemã, perguntou à menina da caixa de uma dessas lojas quanto custava uma representação em mármore da Virgem Maria. “650 euros”, foi a resposta da jovem. Outras reproduções, mais pequenas e mais toscas, iam para os 300, outras para os 200 euros. Inclusive, um crucifixo em madeira com a imagem de Jesus em bronze estava à venda por 250 euros. Nada mau.

Depois, dentro do Santuário, não deixa de surpreender a nova Basílica. A Igreja da Santíssima Trindade é um objecto arquitectónico notável, com doze portas, cada uma baptizada por um dos apóstolos. Para além da sala principal, nos pisos subterrâneos há uma imensidão de capelas e capelinhas consagradas a tudo o que é santo, cada uma com o seu santinho banhado em ouro.

Confesso que, enquanto assistia à cerimónia episcopal, estive bastante tempo a pensar nisto tudo. A religião, e falo da cristã neste caso, é uma autêntica máquina de fazer dinheiro. Pensamos em Fátima, em Lourdes e, claro, no Vaticano e não podemos deixar de reparar na ostentação da Igreja, que contrasta com a pobreza de milhões de fiéis que não têm onde passar a noite.

Mas, voltando ao início, o caso das imagens é muito interessante e elucidativo da interpreatação popular e errada do fenómeno religioso. Quem conhece a Bíblia sabe que, no livro do Êxodo, Deus diz a Moisés o seguinte: “Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma do que há em cima no céu, e do que há em baixo na terra, nem do que nas águas debaixo da terra. Não adorarás tais coisas, nem lhes prestarás culto.” 

Ou seja, Deus proíbe a Moisés o culto de símbolos – algo que estava impregnado na tradição politeísta do povo egípcio, do qual os judeus se haviam libertado. A ligação com Deus faz-se de dentro, pela oração, através do coração e pelo cumprimento dos X Mandamentos, onde o Senhor lá de cima dá a conhecer as regras do jogo terreno. Curioso, que logo o primeiro desses mandamentos é este: “Não fareis imagem esculpida, nem figura alguma do que está em cima do céu, nem em baixo na Terra, nem do que quer que esteja nas águas sob a terra. Não os adorareis e não lhes prestareis culto soberano.”

Mesmo assim, a Igreja patrocina o objecto religioso. Se numa primeira instância servia como forma de resistência face aos opressores romanos – os cristãos desenhavam cruzes nas suas medalhas na tentativa de contrariar o totalitarismo Imperial e de criar um grupo de fiéis – depois da consolidação da religião católica o símbolo passou a ser exactamente aquilo que os antigos – e Deus – haviam querido evitar: uma figura representativa de algo que está no Céu, adorando-se a figura e não a mensagem.

E, mais grave do que isso, a Igreja entrou no negócio da venda desses materiais, tal como havia entrado no negócio da venda de pedaços do Céu, nos tempos das indulgências. É esta uma dupla infracção à regra divina: não só autoriza e aprova dos símbolos, como os vende e patrocina o seu culto, entrando em choque com a Palavra da Salvação. Por exemplo, não será o culto a um santo uma forma de politeísmo? Não estamos a adorar outra figura, para além de Deus? Não está a Igreja a apoiar o culto a outras figuras para além de Deus e Cristo?

Um pouco na linha – imagine-se esta associação! – do comunismo, também a Igreja Católica começou com um grupo de indivíduos que queriam espalhar uma doutrina de igualdade e justiça entre os homens, mas aquilo em que se tornou foi – agora, pasme-se com esta! – num fenómeno semelhante ao da URSS, isto é, num clube de amigos e de bons costumes com uma visão errada e estagnada da sociedade que, pior do que isso, procuram retirar lucro para uma instituição que em vez de receber deveria dar – e, claro, também foram tirando uns ‘pedaços do céu’ para eles.

A nova igreja de Fátima é muito bonita. Sem dúvidas. Mas não teria feito melhor a congregação em investir esse dinheiro em centros de reabilitação ou acolhimento social? Ou em ajudar organizações internacionais, como a AMI, e combater a pobreza e a miséria de algumas nações cristãs de África?

Algo vai mal dentro de uma religião quando o melhor que se consegue fazer com os milhões que os fiéis doam é construir uma igreja em tamanho gigante, esquecendo os milhares que poderiam ser servidos com esse dinheiro.

Mas, se perguntarem a quem manda, dirão que o grande problema da Igreja de hoje é o sexo antes do casamento e a união entre homossexuais. A opulência e luxúria da Igreja são um mal-menor, um pecadozinnho sem importância.

Depois da divulgação do vídeo da agressão da aluna à professora, foram vários os pensadores da Educação que vieram a público defender todo o tipo de teorias para o sucedido: desde questões sociais, familiares, até o já famoso bullying, tudo valeu para explicar o comportamento da rapariga.

Pergunto eu, e que tal falar na falta de educação da rapariga? Nos seus pais, medíocres e, provavelemente, incapazes? Por que não discutir o motivo para a ausência de um eficaz regulamento interno e a aparente falta de aplicação de castigos a quem viola as regras? Ou será esta uma perspectiva que não tem em conta os sentimentos da ‘criança’?

É mais fácil apontar o dedo ao telemóvel.

A RTP existe para fornecer aos espectadores ‘serviço público de Televisão’. Não é uma empresa com fins lucrativos nem interessada – dizem – em liderar as audiências. Porém, com a sua política de dois canais, a 1 e a 2, vai separando também as águas ao nível do serviço ao cidadão: para a 2 vão os conteúdos mais fechados, das elites, de culto; para a 1 vai aquilo que é mais mainstream e, vá lá, populucho. A questão é esta: Onde se encontra o serviço público na RTP1?

Basta analisar a grelha da RTP1 e compará-la, por exemplo, à da SIC – fazer este exercício com TVI seria demasiado penoso e monótono - para ver como responder a essa pergunta é difícil. Ambas têm serviços noticiosos durante a manhã, o da SIC arranca logo às 6h00 enquanto que o ‘Bom Dia Portugal’ vai para o ar na RTP1 30 minutos depois. Depois, entre as 8h35 e as 11h10 a SIC apresenta conteúdos de animação infantil, ao passo que a RTP começa logo às 10h00 a maratona Jorge Gabriel, com a exibição da Praça da Alegria que conta também com a bela Sónia Araújo.

Às 11h10 a SIC entra com o ‘Fátima’, talk-show em tudo, mesmo tudo, inspirado no famoso “Oprah” da apoiante de Barack Obama, Oprah Winfrey. Aqui levanta-se a primeira questão: em termos de serviço público, tem a Praça da Alegria um carácter de maior prestação de – perdoem a redundância – serviço do que o Fátima? Qual a diferença essencial entre os dois que permite dizer que um é, serviço público, e o outro não?

Às 13h00 ambos arrancam para a informação à hora de almoço. Por curioso que pareça, ambos apresentam às 14h15 uma telenovela brasileira. Outra vez, onde está a diferença? Às 15h20 continua a sessão Jorge Gabriel com a repetição do ‘Quem Quer Ser Milionário’ da noite anterior (pagamos a nossa taxa de TV para ver repetições de um concurso?) para as 16 arrancar o ‘Portugal No Coração’, o equivalente da RTP ao ‘Contacto’ da SIC. Mais uma vez, estabelece-se entre os dois uma semelhança de conteúdos que não nos permite, objectivamente, estabelecer de forma cabal a distinção entre um canal público e um privado. As aberrações ditas pelo João Baião são de maior interesse público do que os decotes da Rita Ferro Rodrigues?

Na SIC arranca mais uma telenovela brasileira às 18h05, enquanto que na RTP ‘O Preço Certo em Euros’ desenraíza às 19h00. Não existe semelhança no género do conteúdo, mas da perspectiva de interesse nacional são iguais: zero. Ninguém poderá, provar, que olhar para o Fernando Mendes e acertar nos preços de torradeiras e afins pode ser considerado serviço público.

Às 20h00 ambos apresentam a informação nocturna, antes da primeira separação digna de registo. Enquanto que a SIC massacra os espectadores com os ‘Malucos do Riso’ às 21h00, a RTP irá apresentar um especial de informação sobre a Guerra no Iraque. Finalmente, um conteúdo de claro interesse público. Só é pena que tenhamos tido que esperar 21 horas para encontrar alguma coisa com valor claro para o espectador – descontando os serviços noticiosos.

Durará 45 minutos esse especial, pois às 21h45 arrancará a terceira etapa da penosa tarefa de voltar a ver Jorge Gabriel fazer perguntas parvas a pessoas pouco menos parvas. Curioso que esse concurso durará mais do que o especial de informação anteriormente exibido. Enquanto isso, a SIC inova com duas telenovelas brasileiras de seguida.

Às 22h45 a RTP exige o último episódio de uma mini-série de carácter religioso, seguido por um filme. A SIC aposta no ‘CSI’, ‘Socorro’ e em ‘Quando o Telefone Toca’.

Na prática houve apenas 45 minutos em que, claramente, a RTP prestou aos cidadãos um serviço de televisão útil, enquanto que a SIC fazia entretenimento barato. De resto, todas as outras opções da estação pública são, no mínimo, discutíveis. Por outro lado, a 2 exibe uma programação alternativa com conteúdo artístico, informativo e de entretenimento, sem fins lucrativos. Ou seja, faz serviço público.

A questão aqui é simples: Ou definimos de uma vez por todas o que é o serviço público de televisão, ou então aceitamos que a RTP há muito que deixou de ter o cidadão em mente e é uma empresa privada de capitais públicos que opera num mercado de concorrência desleal, pois enquanto tem duas fontes de rendimento – o Estado e a Publicidade – as outras têm apenas uma – a publicidade.

Se assim for, então é gerida por pessoas sem capacidade que com mais instrumentos e possibilidades não fazem televisão marcadamente melhor do que os concorrentes.

Se à RTP1 interessam as audiências, então não pode continuar com a ilusão de que faz serviço público. E, se já não faz esse serviço, não existe razão para que continue a receber dinheiro do Estado porque, por uma questão de coerência, como podemos justificar que um canal televisivo receba fundos do Governo quando, num dia de programação, tem apenas 45 minutos de televisão marcadamente de interesse público quando em comparação com um distribuidor privado?

Então, que se comece a dar dinheiro à SIC e à TVI que não enjeitarão a possibilidade de fazer “serviço público” à là RTP.

Fez por estes dias cinco anos que o quarteto da alegria se reuniu nas Lajes e decidiu que a única coisa a fazer ao Iraque era invadi-lo e remover o tirano que dirigia os destinos do país há demasiado tempo.

Foi nessa noite que o destino de milhares de iraquianos, americanos, britânicos e demais europeus ficou selado. Morreriam a combater pela liberdade, pela protecção dos valores da liberdade e pela salvação de toda uma nação subjugada ao domínio de um déspota da pior espécie – com ligações à Al Qaeda e tudo.

Cinco anos depois, infelizmente, sabemos que isto não é verdade. Saddam foi destituído, julgado e assassinado. Porém, o Iraque não encontrou a salvação. Pior, entrou numa crise social, económica, religiosa e étnica sem paralelo no país. Não se vê sequer a luzinha ao fundo do túnel e basta que o vice-presidente dos EUA vá lá fazer uma visita – rápida, sempre rápida – para explodirem mais uns camiões e morrerem mais umas pessoas.

Mesmo para os EUA os custos da guerra têm sido demasiados. No livro “The Three Trillion Dollar War”, do Nobel Joseph Stiglitz e da professora de Harvard, Linda Bilmes, é feita uma análise, fria como só os números o conseguem ser, acerca dos custos desta guerra para a nação mais poderosa (?) do Mundo. Por exemplo, dez dias de combate custam 5 mil milhões de dólares aos cofres do Pentágono. Segundo os autores do livro, até 2017 as guerras do Afeganistão e do Iraque terão custado qualquer coisa como 3.5 milhões de milhões de dólares. Cifras quase irreais, mas representam o custo da guerra.

Mas, se esta guerra tivesse servido para melhorar a vida dos iraquianos e trazer mais paz ao Mundo, não seria eu quem a condenaria. Todavia, isso não se verificou e mais do que isso, a cada dia que passa cresce incessantemente uma ideia na cabeça de todos: os verdadeiros fins da guerra não foram o 11/9, não foram os curdos torturados nem a intenção de melhorar a vida dos iraquianos. Não. A principal motivação para a invasão foi, pura e simplesmente, o petróleo. O ouro negro, cujo valor em bolsa não pára de aumentar, achega-se como a única razão para o combate, o motivo pelo qual as ruas de Bagdade estão vermelhas, repletas de sangue derramado de ambos os lados da barricada.

Só assim se pode perceber o interesse pelo Iraque quando já todos sabemos que nunca houve armas de destruição massiva, nunca houve ligações com a Al Qaeda – Bin Laden até nem ia muito à bola com Saddam – nem nunca houve um perigo imediato e real de ataque aos EUA por parte do regime iraquiano. Aliás, para além de uns magnatas do petróleo do Texas, companhias de construção e de segurança privada, parece que mais ninguém lucrou com a guerra. Nem mesmo os iraquianos.

Por outro lado, o Tibete é chacinado, quer do ponto-de-vista humano, quer de um ponto-de-vista cultural. Desde a ocupação chinesa que a degeneração dos costumes tibetanos tem sido uma constante, principalmente desde que se instalaram nas montanhas colonos chineses, que vinham com a verdadeira missão de aculturar os locais e de eliminar os rastos singulares do povo tibetano.

Hoje o Governo tibetano no exílio confirmou que mais de 100 pessoas já morreram desde sexta-feira, início das manifestações contra a China, esse Estado que ocupou um estado vizinho que vivia, por vontade própria, na extrema pobreza, acreditando que a vida humana não precisa de coisas como o desenvolvimento e a modernização. Viviam vidas simples. Simples, mas humanas.

E que dizem disto os líderes do Mundo livre do Ocidente? Que fazem eles perante este genocídio, como disse o Dalai Lama – sim, o mesmo que Lisboa ignorou –, que ameaça a existência de um povo singular na sua concepção do valor da vida? Valem mais as vidas dos curdos massacrados do que as dos tibetanos humilhados por Pequim? É mais legítima a pretensão dos iraquianos de se verem livre de Saddam do que dos tibetanos em se livrarem da opressão chinesa? Não é a China um estado que, repetidamente, viola os acordos internacionais sobre os Direitos Humanos?

Os Bush, Blair e Barrosos do nosso tempo não passam de rufias que pegam apenas com aqueles que são, evidentemente, mais fracos do que eles. Ninguém irá fazer nada para ‘salvar’ o Tibete, porque salvar o Tibete não dá dinheiro nem petróleo. Os tibetanos são um povo das montanhas que vive fechado sobre si mesmo. Quem quer saber deles? Os americanos e europeus não querem de certeza. E a China de hoje não é, propriamente, o Iraque dos últimos tempos do Saddam. Já inspira mais algum respeito.

E, depois, é suposto ficarmos todos contentes enquanto a chama olímpica chega a Pequim e aplaudimos os esforços dos atletas e enaltecemos os progressos que a China comunista tem feito, preferindo esquecer que não muito longe mora um povo molestado, violentado e estuprado por esse mesmo estado. Mas mandam as regras da boa educação não incomodar o anfitrião com questões tão insignificantes como o genocídio.