A filosofia nos salvará
Maio 30, 2009
“Ora isto, só poderá realizá-lo em plena pureza o homem que, na medida das suas forças, for ao encontro de cada um dos seres exclusivamente pela via do pensamento, abstraindo dele o recurso à vista ou a qualquer outro dos sentidos, e sem arrastar nenhum deles atrás da razão: que, utilizando apenas o pensamento em si mesmo, sem mistura, se lançar na caça de cada uma das realidades em si mesmas e sem mistura, liberto até onde lhe for possível dos olhos, dos ouvidos, numa palavra, de todo o corpo – ciente de quanto este perturba a alma e a impede de adquirir verdade e sabedoria, quando ambos se associam.
(…)
Daqui decorre, pois, uma inevitável convicção que se impõe ao espírito dos filósofos genuínos e os leva a comentários mais ou menos deste teor: «Provavelmente, há uma espécie de pista que [juntamente razão] nos guia nas nossas pesquisas; ou seja, que, enquanto possuirmos um copor e a semelhante flagelo estiver a nossa alma enleada, jamais conseguiremos alcançar satisfatoriamente o alvo das nossas aspirações: e esse, dizemos nós que é a verdade. Inúmeros são, de facto, os entraves que o corpo nos põe, e não apenas pela natural necessidade de subsistência, pois também doenças que sobrevenham podem ser outros tantos impeditivos da nossa caça ao real. Paixões, desejos, temores, futilidades e fantasias de toda a ordem – com tudo isso ele nos açambarca, de tal sorte que não será exagero dizer-se, como se diz, que, sujeitos a ele, jamais teremos disponibilidades para pensar. E senão vejamos: as guerras, as lutas, as discórdias, quem as fomenta a não ser o corpo, ele e os seus apetites? É de facto o desejo de possuir riquezas que está na base de todas as guerras; e as riquezas, somos por sua vez levados a adquiri-las em proveito desse corpo que seguimos como escravos… Daí, por todas as razões apontadas, esta nossa falta de disponibilidade para a filosofia. Mas não é tudo: se em algum momento o corpo nos dá tréguas e nos viramos para qualquer tipo de indagação, logo vemos os nossos esforços de todo em todo baldados por um súbito temor, pela confusão em que nos lança e nos torna inaptos para discernir a verdade. A experiência mostra-nos efectivamente que, para conhecermos com clareza um dado objecto, é indispensável que nos libertemos da nossa realidade física e observemos as coisas em si mesmas, pelo simples intermédio da alma. E então sim, ser-nos-á dado, ao que parece, alcançar o alvo das nossas aspirações, essa sabedoria de que nos dizemos amantes – depois de morrermos, não já em vida, como a lógica do argumento pressupõe. Com efeito se, associados ao corpo, nada podemos conhecer com clareza, das duas uma: ou tal aquisição da sabedoria não existe, ou apenas se concretiza após a morte, precisamente quando (e não antes…) a alma existir em si e por si, independentemente do corpo. E nesse caso estaremos, ao que parece, tanto mais perto do verdadeiro saber durante a nossa existência terrena quanto mais reduzirmos ao indispensável o contacto e o comércio com ele, não permitindo que nos contamine e conservando-nos puros da sua natural corrupção, até que o deus se digne a libertar-nos: assim, pois, uma vez puros e resgatados da demência do corpo, é razoável supor-se que gozaremos da companhia de outros seres igualmente puros e conheceremos por nós mesmos tudo o que é sem mistura, o que equivale talvez a dizer, a verdade: pois só ao impuro não deverá ser permitido tocar o que é puro.» Aqui tens, Símias, o que, quanto a mim, não deixarão de sentir e comentar entre si todos aqueles que efectivamente amam a sabedoria. Ou não concordas?”
in, “Fédon”, Platão, 386-380 a.C.: 55,56