A sala estava cheia
Agosto 29, 2009
A sala estava cheia. Não era para menos, uma vez que se tratava da estreia do mais recente filme de Quentin Tarantino, um realizador intemporal que faz da sua paixão e respeito pelo cinema a base de todo e qualquer projecto. A última sessão do dia.
A sala estava cheia. Respirava-se intensidade na sala. Cada trailer era demasiado longo. Cada publicidade era incompreensivelmente ridícula. Nós estávamos lá para uma coisa e só uma: Inglourious Basterds.
A sala estava cheia. Capítulo 1: “Era uma vez na França ocupado pelos Nazis…”. Assim começa a maior obra de Tarantino desde “Pulp Fiction”. Isso é seguro. Agora, será o seu melhor trabalho de sempre?
A sala estava cheia. Cada palavra de Christoph Waltz é escutada com toda a atenção. Seja proferida em francês, alemão, inglês ou italiano. Não podemos deixar escapar nada. Não podemos deixar o filme fugir.
A sala estava cheia. Tarantino transformou a Segunda Guerra Mundial num spaghetti western. E não me incomodo muito com isso. Ele não gosta muito de como o conflito acabou. Propôs outro final. É-lhe permitido adulterar a história. Se calhar, num universo paralelo foi mesmo assim que a guerra acabou.
A sala estava cheia. Brad Pitt é um alucinante judeu com sangue índio, Aldo, o Apache, o líder dos Basterds, um bando de judeus que se infiltra em França para matar nazis. A missão é assim tão fácil. Matar nazis, um por um. Sem pressas. Eles chegam para todos.
A sala estava cheia. Mélanie Laurent passeia-se pela câmara de Tarantino. Os nossos olhos estão onde ela está. Assim com com Diane Kruger, a elegante actriz alemã que se junta aos aliados num esforço para eliminar os nazis. E a música? Não dá para descrever uma banda sonora assim.
A sala estava cheia. Os sacanas sem lei matam nazis. Os nazis matam judeus. Os franceses tentam matar nazis. E Tarantino mostra que, afinal, a história do conflito não estava realmente contada. E, no final, a sala continuava cheia e, apesar de não se ter passado todo o tempo em que os créditos estiveram a passar a bater palmas ao realizador e à sua equipa, a maior parte da sala ficou para ver tudo até ao fim.
A sala esteve cheia para ver a obra maior de Tarantino – sou eu quem o diz. “Inglourious Basterds” é o sonho de qualquer realizador. E só podia ter saído da cabeça de Tarantino.
Depois do filme, a sala ficou vazia.
O Leão do Senado
Agosto 26, 2009

Morreu Ted Kennedy (1932-2009), o último representante da família no Senado. Irmão do ex-presidente John F. Kennedy e de Bobby F. Kennedy, ambos assassinados, Ted passou uma vida a servir o seu país. A última imagem que deixa é a do apoio a Barack Obama nas primárias do Partido Democrata no ano passado.
Depois das mortes do pai e dos irmãos, Ted assumiu as rédeas da família. Tal como os irmãos mais velhos, Ted também tinha aspirações na política e a Casa Branca era um objectivo. Contudo, um aparatoso e mal explicado acidente de viação em 1969 deitou por terra todas as suas aspirações. No entanto, Ted Kennedy nunca precisou de estar na Casa Branca para ter papel importante na elaboração de algumas das leis mais determinantes da história legislativa dos Estados Unidos, em áreas tão importantes como os direitos cívicos, a saúde e a justiça.
O Presidente Obama já reagiu à morte de Ted, apelidando-o não só como um “dos melhores senadores da nossa era” mas também “como um dos americanos que melhor serviu a democracia no país”.
Naturalmente, a morte do Senador pelo estado de Massachusetts é a notícia do dia. A CNN faz aqui um belo trabalho de homenagem à carreira política de Kennedy. Também o Público está de parabéns pelo slideshow que recupera algumas das fotografias mais interessantes de um dos homens responsáveis pela paz na Irlanda do Norte.
Eu voto em mim
Agosto 19, 2009
Oeiras pode não ser o concelho mais reconhecível em Portugal. Talvez, nem toda a gente conseguirá identificar Oeiras no mapa. Talvez.
Já o nome de Isaltino Morais levanta logo toda uma outra conversa. Ex-ministro, actual autarca, acusado e condenado por crimes de corrupção é uma vedeta da política nacional.
Chegou a ser considerado como um autarca modelo pelo PSD. Agora, é apenas visto como uma nódoa negra no passado do partido laranja, um infeliz acidente de que ninguém se quer lembrar. Ele até já concorre como independente.
Tal como Fátima Felgueiras ou Valentim Loureiro, também Isaltino foi acusado de tudo e mais alguma coisa em 2005. Mesmo assim, concorreu sem o apoio do PSD e ganhou a câmara – tal como todos os outros “candidatos bandidos”. Portugal é assim. Um país estranho.
Agora, no entanto, as coisas mudaram. Passaram-se quatro anos e Isaltino já foi condenado pelos crimes aparentemente cometidos. Recorreu, é certo. Mas, o tribunal considerou-o culpado em crimes de corrupção e abuso de poder. Isaltino, naturalmente, não quis saber. É novamente candidato.
E, não estivéssemos nós a viver na aura da mensagem mediatizada, Iasltino trabalha com uma equipa de marketing e de comunicação que preserva a imagem do líder. E a mensagem para estas eleições é que votar em Isaltino não é só votar em Isaltino, é votar em nós e na nossa família e segurança.
Nesta altura, os cartazes de Isaltino já invadiram Oeiras. Só que, não são de Isaltino as fotografias que lá estão. “Eu voto em mim” é o slogan. A cara, essa, é dada por cidadãos anónimos do concelho. O nome de Isaltino lá aparece num canto, meio escondido, meio envergonhado.
A mensagem é simples: votar em Isaltino é votar em mim. É ele quem defende os meus interesses. Ele é como eu. Corrupto? Apenas tentou safar-se. Desenrascar-se, como dizem os outros. Não é isso que nós estamos sempre a fazer? De certeza que é bom tipo e deve ser do Benfica. Por isso, claro que voto em mim. De que outra maneira poderia ser?
Raul Solnado (1929 – 2009)
Agosto 9, 2009
Morreu o homem que queria saber onde era a guerra de 1908. Ficam os trabalhos do primeiro humorista dos tempos modernos em Portugal.
Política de verdade
Agosto 5, 2009
O PSD de Manuel Ferreira Leite apresentou as listas para as próximas eleições legislativas. E a contestação não se fez esperar, com a inclusão de nomes como os de Alberto João Jardim, Maria José Nogueira Pinto ou Fernando Negrão mas, principalmente, pela exclusão do nome de Pedro Passos Coelho, o rosto da oposição interna e que por isso mesmo fica fora destas contas.
Olhando para estes nomes dá vontade de questionar se esta era mesmo a melhor lista que o PSD poderia apresentar. Em Lisboa, por exemplo, há candidatos arguidos: António Preto e Helena Lopes da Costa são suspeitos de acção fraudulenta no caso da concessão das casas camarárias. Mas, a polémica não fica por aqui e em Aveiro a discussão prende-se com o facto de Couto dos Santos, cabeça-de-lista, não ser aveirense.
No Algarve também se contesta a escolha de Bacelar Gouveia pelo facto de o candidato não ser da região. Em Setúbal o nome de Fernando Negrão é criticado por outros motivos: a distrital refere que o candidato, simplesmente, não quer saber de Setúbal. Em Viana do Castelo, o líder da distrital não gosta de ser apenas o quarto da lista e ainda não decidiu se vai, ou não, a votos.
Mas, mais do que os nomes que estão presentes – se bem que a inclusão de candidatos arguidos não deixa de ser contrária à filosofia do partido desde a liderança de Marques Mendes – o que se discute é a ausência de Pedro Passos Coelho. O economista disse estar disponível para encabeçar a lista de Vila Real, distrito onde tem raízes familiares, mas Ferreira Leite rejeitou a oferta.
A exclusão de Passos Coelho só se entende como um castigo movido ao ex-líder da JSD pela oposição interna que se encarregou de mover, mais ou menos, até à vitória nas Europeias. Depois, sossegou.
Contudo, a decisão de excluir uma das vozes do contraditório das listas não passa a imagem de um PSD unido, de bem consigo mesmo, confiante e a criar condições para conseguir dar seguimento à vitória nas Europeias. Pelo contrário, deixa transparecer um PSD dividido e rancoroso.
Enfim, eles lá saberão Para consulta, aqui fica a ligação para a lista completa de candidatos. Refira-se que por Braga, o terceiro círculo mais importante do país, o cabeça-de-lista é João de Deus Pinheiro, seguido por Miguel Macedo.