Há muito que a Europa se apresenta como um despropositado e, por vezes, doentio bastião do chamado “anti-americanismo”. A crítica, várias vezes infundada e estúpida, do suposto “imperialismo” americano é recorrente e apelante.

Sendo essas apreciações a maior parte das vezes da responsabilidade de pessoas que nunca cruzaram o Atlântico, surge a necessidade de ler aquilo que alguém que o fez tem a dizer. Falo do sociólogo francês Bernard-Henry Lévy que em declarações à Ípsilon deu conta de algumas das suas conclusões após ter cruzado os EUA de Este a Oeste, Norte a Sul durante a campanha eleitoral de 2004.

Aqui ficam algumas respostas a outras tantas perguntas.

Depois da viagem pela América, mudou as ideias que tinha?
Mudei. Fiz o que muito pouca gente faz: atravessar o país em todos sentidos por estrada, olhar para tudo, tentar testar os clichés quando se trata da América. (…) Uma experiência como esta transforma-se numa máquina de quebrar clichés.
Por exemplo?
Pensava que a América era um país imperial. A ideia merece ser revista. Pensava que a América não tinha sistema de saúde e de segurança social. É mais complicado do que isso. É diferente do nosso, uma mistura de público e privado, mas existe. Pensava que a América era um país materialista e é provavelmente o mais religioso do Mundo. Pensava que o Sul eram os estados da segregação, onde os negros teriam ainda um longo percurso a percorrer para cumprir o programa de Martin Luther King. Descobri que o caminho já tinha sido percorrido no essencial. Cada passo foi uma surpresa.

Há passagens do seu livro dedicadas ao Presidente Ameriano. Pelo menos inicialmente os europeus não compreendiam essa escolha…
Olhe para o seu pais. Uma civilização, um império, uma cultura e ofereceu-se a si próprio durante décadas dois cretinos: Salazar e Caetano. Isso não quer dizer nada. Na França é o mesmo. O que creio, realmente, é que George W. Bush é um parêntesis. Temos os olhos fixos em Bush, ficamos obnubilados por ele, como se ele fosse a verdade da América. Não é nada disso.

Escreve também sobre a sua experiência com as comunidades árabes, sobre o facto de se sentirem americanos, ao contrário do que acontece na Europa.
Os americanos inverteram um sistema de cidadania, um modo de regulação dialéctica entre o particular e o universal, entre a origem o destino, que funciona bastante bem. Na Europa e na França teríamos todo o interesse em inspirarmo-nos nisso.

Compara a denúncia de Abu Ghraib com a denúncia do que se passou com a França na guerra da Argélia. Diz que eles foram mais rápidos a denunciar e a condenar.
A grande diferença entre a França e a América é que a França levou 40 anos a aceitar o seu Abu Ghraib e a América levou 3 dias.
Porquê?
Porque a América é uma democracia mais viva que a França. Bastaram 48 horas para a América ser informada sobre Abu Ghraib, ficar horrorizada com Abu Ghraib e condenar Abu Ghraib.

Diz que a América não é uma nação imperial. Mas, depois da guerra-fria começou a pensar-se como império.
Não tenho a certeza disso. A questão imperial é uma questão nossa, dos europeus. Fomos nós as nações imperiais. O imperialismo é o nosso fardo. A América não tem um imaginário imperial, isso é falso. A verdadeira tentação da América, a sua tendência pesada e, talvez o maior perigo é deixar cair o Mundo – o isolacionismo.

Agora (a ideia de uma Europa anti-América) é de esquerda.
Se o anti-americanismo se transformar no programa da esquerda, isso será muito grave porque, na sua substância, é uma ideia fascista. (…) A América é uma incarnação do sonho de Rousseau, gente que vem de toda a parte e que, por um acto de vontade, decide fazer uma nação. (…) Ver uma parte da esquerda europeia ligada a este anti-americanismo de origem fascizante aterroriza-me.

E isso é um problema para a integração europeia?
Sim. Não se pode detestar a América e querer, ao mesmo tempo, a Europa. Porque a ideia de que a Europa é possível é a América que no-la dá. É já uma Europa – povos diferentes, de tradições e memórias que não têm nada umas com as outras, que formam uma nação. É isto a América e é isto de tentamos fazer na Europa.

Van Morrison faz parte de um tipo de músico que já não existe. Este natural de Belfast deixou-se influenciar pelo “soul” americano, R&B, pelas tradições célticas e pelo jazz. Tudo isso conjugado deu origem a uma dos mais únicos e verdadeiros músicos (e sons, porque não dizê-lo) do nosso tempo.

Líder da banda “Them”, que marcou a primeira metade da década de 60, é com “Moondance” (1970) que Van Morrison atinge o reconhecimento internacional. Temas como “Crazy Love”, “Into the Mystic”, “Moondance”, “Caravan” e “Come Running”, entre outras marcaram uma época.

Na transição entre os anos 70 e 80 passou por um problema devastador para qualquer músico: Medo dos palcos. O seu “stage fright” impediu-o de continuar a promover os seus álbuns para os milhares que se juntavam para o ver. Passou a actuar em pequenos clubes de jazz.

Porém, em 1990 teve de deixar esses medos para trás quando aceitou o convite de Roger Waters para integrar a equipa que pôs de pé a monstruosa actuação de “The Wall” no sítio onde antes estivera erguido o Muro de Berlim.

Van Morrison cantou Comfortably Numb, versão da faixa que Scorsese incluiu em “The Departed”.

Van Morisson marcou uma geração de singer-songwriters. Da sua lista de “influenciados” podemos encontra os U2, Bruce Springsteen, John Mellencamp, Jim Morrison, Rickie Lee Jones, Tom Petty, Elvis Costello, Thin Lizzy, Bob Seger, Jimi Hendrix, Jeff Buckley e, até, James Morrison.

Sendo, para mim, comparável na profundidade e brilhantismo das letras a Bob Dylan – será ele o Dylan Europeu? – Van Morrison é um dos nomes mais respeitados da música e um dos meus favoritos e é senhor de uma voz de meter respeito a qualquer um.

Como disse Greil Marcus, “no white man sings like Van Morrison.” E é mesmo. Ninguém canta com a alma patenteada por Van “The Man” Morrison.

“We were born before the wind
Also younger than the sun
Ere the bonnie boat was won as we sailed into the mystic
Hark, now hear the sailors cry
Smell the sea and feel the sky
Let your soul and spirit fly into the mystic”

Para ouvir:

 

E, assim, depois do último post vou ganhando, aos poucos, a credibilidade de outrora.

Os Maias “revisited”

Abril 23, 2007

Ao completar a minha quarta viagem pelo maravilhoso Mundo do Ramalhete, e das intrigas da família Maia, deparei-me com a minha passagem favorita. No capítulo XVII, na página 667 – para aqueles que seguem pelo edição clássica – a acção passa-se após uma noite de incesto entre Carlos e Maria Eduarda da Maia. O médico, sabendo que Maria era sua irmã, resolvido a ir contar-lhe a verdade, sucumbe perante a beleza e sensualidade do seu amor. Deixa-se cair nos seus braços e, conscientemente, tem relações com a sua irmã.

Entretanto, todas estas tramas atormentam Afonso da Maia, avô de Carlos e Maria Eduarda. Depois de ver o seu filho cometer suicídio após a partida de Maria Monforte, Afonso jura que fará de Carlos um homem mais forte do que Pedro. Porém, Carlos, que entretanto tira medicina em Coimbra, deixa-se afectar pela lassidão da vida em Lisboa e nada faz, vivendo apenas dos rendimentos e somando casos com mulheres casadas. O médico encontra em Maria a sua alma gémea e, determinado a ficar com ela para sempre, assume o desejo de fugir com a mulher e sua filha para longe de Lisboa. No entanto, essas intenções são destruídas quando o Sr. Guimarães entrega a Ega as provas irrefutáveis do parentesco entre Carlos e Maria Eduarda.

Mas, como dizia anteriormente, a minha preferida – e, talvez, a mais intensa de toda a obra – passagem dá-se quando Carlos chega ao Ramalhete, a altas horas da madrugada, depois de consumado o incesto e encontra o avô.

Melhor do que eu, o Eça pode explicar a situação:

“Mas, tendo por um só dia dormido com ela, na plena consciência da consanguinidade que os separava, poderia recomeçar a vida tranquilamente? Ainda que possuísse frieza e força para apagar dentro de si essa memória – ela não morreria no coração do avô, e do seu amigo. Aquele ascoroso segredo ficaria entre eles, estragando, maculando tudo. A existência doravante só lhe oferecia intolerável amargor… Que fazer, santo Deus, que fazer! Ah, se alguém o pudesse aconselhar, o pudesse consolar! Quando chegou à porta de casa, o seu desejo único era atirar-se aos pés de um padre, aos pés de um santo, abrir-lhe as misérias do seu coração, implorar-lhe a doçura da sua misericórdia! Mas ai! Onde havia um santo?

Defronte do Ramalhete, os candeeiros ainda ardiam. Abriu de leva a porta. Pé ante pé, subiu as escadas ensurdecidas pelo veludo cor de cereja. No patamar tacteava, procurava a vela, quando, através do reposteiro entreaberto, avistou uma claridade que se movia no fundo do quarto. Nervoso, recuou, parou no recanto. O clarão chegava, crescendo; passos lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete; a luz surgiu – e com ela o avô em mangas de camisa, lívido, mudo, grande, espectral. Carlos não se moveu, sufocado; e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, cheios de horror, caíram sobre ele, ficaram sobre ele, varando-o até às profundidades da alma, lendo lá o seu segredo. Depois, sem uma palavra, com a cabeça branca a tremer, Afonso atravessou o patamar, onde a luz sobre o veludo espalhava um tom de sangue – e os seus passos perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida!”

Para quando um verdadeiro filme, um épico, sobre a família Maia? Haverá romance mais “filmável” do que esse?

A mensagem de Pessoa

Março 28, 2007

Não sou um grande adepto de poesia, mas quando ela é boa deve ser lida e entendida. Uma das minhas obras poéticas facoritas é “A Mensagem” de Fernando Pessoa, um dos mais brilhantes pensadores do seu tempo e da história de Portugal.

Desse autêntico hino da literatura mundial, há algumas estrofes que me dizem muito. Aqui estão algumas delas:
 
D. Afonso Henriques
“Pai, foste cavaleiro,
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força”

“Dá contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!”

D. Fernando, Infante de Portugal
“Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra
Sagrou-me seu em honra e em desgraça
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra”

“Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.”

“E eu vou, a luz do meu gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.”

O Infante
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,”

“E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do Mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda do azul profundo.”

“Quem te sagrou criou-te portugês.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

O Mostrengo
“O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do Mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»”

“ «De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»”

“Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do Mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»”

Mar Português
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!”

“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”

Muitos mais versos poderiam estar aqui. Mas estes dão uma ideia daquilo que é “A Mensagem”.

Pena que se vote em fascistas e se esqueça dos artistas. Pena.

220px-jim_morrison_photo.jpgTermina hoje a semana “Doors” na Antena 3. Durante os últimos dias  a estação celebrou o quadragésimo aniversário do lançamento do primeiro álbum do quarteto. Foi em 1967 que Morrison, Manzarek, Densmore e Krieger revolucionaram a cena musical americana.

Não sendo, talvez, uma banda tão grande em Portugal quanto é nos EUA - facto que é perfeitamente explicável por questões políticas e sociais -  os “Doors” são uma das minhas duas bandas americanas favoritas – a outra são os Metallica. Foi dos primeiros grupos a aliar poesia pura e música, aparecendo como pioneiros da cena psicadélica nas Terras do Tio Sam. O seu líder foi Jim Morrison e, em homengem ao livro de Aldous Huxley, “As portas da percepção” (The doors of perception), chamou o grupo de “The Doors”. Aquilo que ele queria era que as pessoas abrissem as portas da sua mente.

Numa altura em que os Beatles ainda andavam com “She loves me” e os Pink Floyd ainda eram “The Pink Floyd Sound” foram os Doors quem iniciou a transição para o rock progressivo. Morrison não era um letrista. Era um genuíno poeta que se queria rebelar contra o sistema repressivo e conservador dos EUA e usava a música como veículo. Ficou célebre o concerto em Miami, no qual desafiou a audiência ser “livre”, verdadeiramente livre. Quase tão célebre como quando cantou que queria matar o pai e dormir com a mãe…

Muitos confundem a história do grupo com a do seu líder. O facto é que Morrison era a alma da banda. O seu coração. Escrevia boa parte das letras e as pessoas que compravam os álbuns e iam aos concertos queriam vê-lo a ele. Os outros eram a banda dele. De certa forma, ele transcendeu o grupo. Sem ele, os outros ficaram sem alternativa a não ser lançar, continuamente, “best of’s” e álbuns remisturados ou lançar singles nunca antes editados. Isto para não falar da viajarem pelo Mundo, debaixo do nome “Doors 2000” ou “Riders on the Storm”. Ninguém acreditou. Porquê? Porque já não havia alma. Já não havia coração. Já não havia Morrison. Já não eram os Doors. Eram três tipos mais um a tocar qualquer coisa parecido a “Doors”. Não havia Jim.

Que Jim Morrison se auto-destruiu, é um dado consumado. Ninguém o nega. Assim como ninguém negará o impacto que a sua obra teve, tem e terá na música. Ele foi o primeiro verdadeiro “rock star” e seguiu a máxima “live hard, die young”, sugerida por John Derek no filme “Knock on any door”.

Para um grupo que produziu apenas durante 4 anos – 1967 a 1971 – a obra desse tempo não deixa de impressionar: 6 álbuns de originais, mais um duplo concerto ao vivo e, ainda, um outro álbum lançado após a morte de Morrison, chamado “American Prayer”, em que os restantes três elementos juntaram acompanhamento musical a uma gravação de Jim a recitar uma série de poemas dias antes de partir para Paris, onde morreria em Julho de 1971.

O legado de Morrison irá perdurar no tempo. Muito depois dos seus três companheiros morrerem e já não houver “box sets” para editar. Morrison marcou um momento da história da música popular e faz parte da nossa cultura. O seu nome é associado a todo um modo de ser e de encarar a vida. O dito carpe diem. Morrison viveu e morreu como quis.

Podemos concordar, ou não, com as suas posições, mas não podemos deixar de reconhecer que foi alguém que nunca deixou de viver de acordo com os seus princípios. E isso é inegável e, até, bonito. Um ícone, portanto.

A ler e a ouvir

Março 19, 2007

Faço duas sugestões neste post. A primeira, é que visitem o novo portal da Biblioteca Nacional, prinipalmente a sua secção digital em que podemos consultar documentos perfeitamente imperdíveis, como um Altlas do século XVI, ou as obras de Alberto Caeiro, Almeida Garrett e Eça de Queirós. Muito bem construído, e de fácil navegação, é um site a visitar.

A minha outra sugestão vai para o ouvido. A Antena 3 difunde esta semana entre as 22h00 e as 23h00 um especial “The Doors”, com entrevistas aos membros da banda e uma retrospectiva histórica do passado de uma das maiores bandas rock do Mundo. Toda a semana no “Coyote”, com Pedro Costa. Para fãs ou simples curiosos, a ouvir com atenção.

O que é boa televisão?

Fevereiro 28, 2007

Será que a televisão que nós temos hoje – e por questões de simplicidade falo apenas das 3 estações de televisão generalistas – é de boa qualidade? Estará ela nivelada por baixo? Serão os padrões de exigência do público baixos? Preferirá o nosso público um relity show a um debate político? Será mais interessante um série juvenil, como “Morangos com açúcar” do que um concerto de música, por exemplo, dos Oasis, para o público juvenil? Deverá a orientação temática da televisão ir no sentido daquilo que o povo quer, ou daquilo que o povo deveria querer? E quem determina isso, ou seja, quem diz o que o povo quer e quem sabe aquilo que o povo deveria querer?

Para responder a estas questões é que há directores de programação. Quando determinam as grelhas das suas estações, fazem-no na convicção de que é o melhor caminho para a estação e, consequentemente, para o seu público.

Porém, se atentarmos àquilo que a nossa televisão nos dá, chegamos à conclusão de que “todos queremos o mesmo”. A semelhança entre a programação da SIC e da TVI é grotesca, recheando os nossos ecrãs com novelas em saturação, “Morangos” e Floribella, Goucha e Fátima. A RTP, que durante alguns anos se pautou pela diferença, tem vindo a alterar os seus critérios para se aproximar do Grande Público aumentando, assim, as suas audiências.

O caso da RTP, aliás, é diferente dos demais. Financiada pelo Estado, a Rádio Televisão Portuguesa recebe também dinheiros provenientes dos interesses privados, isto é, da publicidade. Podemos assim dizer que a RTP tem o melhor de dois Mundos: por um lado recebe o dinheiro da publicidade – tal e qual qualquer operadora privada – e por outro vai recebendo subsídios estatais. 

A razão pela qual a RTP recebe esses mesmos dinheiros é para, entre outras coisas, providenciar um bom serviço público de televisão. Mas, que será isso de bom serviço público de televisão? Será o “Preço Certo em Euros”? Será a “Grande Entrevista” ou o “Prós e Contras”? Será o “Um Contra Todos”? Será uma mistura de tudo isso?

Eu não sei e penso que na RTP também ninguém sabe. A minha ideia é que eles se limitam a tentar chegar ao público da mesma maneira que a SIC ou a TVI para subir nas audiências.

Mas, deveria a RTP estar preocupada com as audiências? Isto é, deveria sacrificar a integridade da sua programação apenas para subir uns pontos nas audiências? O Estado não continuará a financiar a RTP quer as ditas audiências sejam boas ou más? Não deveríamos esperar da RTP um papel de maior interesse pela formação cultural e cívica dos seus espectadores e menos preocupada em bater a TVI nas audiências? Não deverá ser a prioridade da RTP, a todo o tempo, o de contribuir para o enriquecimento cultural e social dos indivíduos?

Eu não me sinto identificado com nenhum desses três canais. Aliás, apenas a “2” satisfaz alguns dos meus desejos televisivos. De resto é um deserto. Porém, posso admitir que existe a possibilidade de eu ser uma minoria e da maior parte da população gostar daquilo que vemos na televisão. A maior parte poderá gostar de ver os concursos televisivos em que se faz tudo menos um apelo ao conhecimento.

Se calhar o problema é meu porque gostaria de ver mais documentários históricos, mais filmes e melhores séries na televisão. Porque gostaria que tivéssemos mais informação, mais debate e mais música na televisão. Porque gostaria que alguém se lembrasse de pegar “n’Os Lusíadas” ou “n’Os Maias” e fizesse um filme ou uma série/novela com qualidade, em vez de importar pré-fabricados. Mas, nada disso dá audiências e nada disso dá dinheiro. Ou será que até dava, se as televisões apostassem nessa linha?

O desejo de emissão de um maior conteúdo cultural na televisão não tem nenhuma presunção de superioridade de uma elite sobre as massas. Desde quando é que um documentário histórico é uma imposição sobre alguém? Desde quando é que transmitir concertos, filmes de culto ou peças de teatro é imposição sobre as “massas”? Será que hoje não me estão a impor já os Morangos e a Floribella? Será que a elite que se receia tanto não é mesmo o grande público? Não serão os outros a minoria? Aqueles a quem se impõe a programação?

PS: Este post vem na sequência de uma debate na aula de Sociologia da Comunicação. Aqueles que foram conhecerão melhor as circunstâncias que o envolveram.