“Why don’t you give me a bottle of scotch and a handgun to blow my head off.”

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Aqueles que leram o anterior post já perceberam a minha fixação pelo filme “The Departed”, de Martin Scorsese. Não tendo visto todos os filmes que saíram este ano, devo dizer que dos que vi “The Departed” foi, sem sombra de dúvidas, o melhor. Aliás, à saída da sala comentei que há muito tempo que não deixava um cinema tão arrebatado pelo inteligência, consistência e brilho de um filme.

A película, rodada na minha cidade natal de Boston, Massachusetts, é um remake da popular trilogia “Assuntos Internos”, com origem em Hong Kong. O guião de “The Departed” foi adaptado por William Monahan do original de Felix Chong e Siu Fai Mak.

“The Departed” é um filme que já foi premiado com um globo de ouro para Martin Scorsese, na categoria de melhor realizador. Alguns Óscares poderão estar também na calha, principalmente na categoria de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Actor Secundário – para Mark Wahlberg.

Este filme marca o regresso de Scorsese ao seu estilo de referência: a vida do crime. Depois de “Gangs of New York” e “The Aviator”, em que experimentou diferentes formas de realização – com particular destaque para o brilhante filme que é “Gangs of New York” – Scorsese regressa agora ao estilo em que se sente mais à vontade. Do elenco fazem parte Matt Damon e Mark Wahlberg – meus conterrâneos – Jack Nicholson e Leonardo DiCaprio – este a afirmar-se como um caso cada vez mais sério da representação.

Damon e DiCaprio são os informadores. Ambos são polícias, mas um é um informador da polícia junto da máfia – DiCaprio – e outro é um mafioso que trabalha para a polícia – Damon. Pelo meio, temos Nicholson – será que consegue fazer maus papéis? – que representa uma espécie de figura paternal para ambas as personagens, mas que se revela por ser um informador do FBI não ficando claro se denunciava tanto DiCaprio como Damon, ou apenas este último. Temos também a figura feminina do filme, Vera Farmiga, que no papel de psiquiatra de DiCaprio e amante de Damon desenvolve com o decorrer do filme um interesse amoroso pelos dois, não ficando também claro quem será o pai do filho. Apesar de uma ligeira indicação de que será DiCaprio, o espectador nunca vê essa dúvida desfeita.

“The Departed” é um filme fortemente influenciado pela relação “pai-filho”. Nunca se menciona o papel que o pai de Damon (Colin Sullivan) tem na maturação do filho, mas sabe-se da relação próxima entre DiCaprio (Billy Costigan) e seu pai. No entanto, com o decorrer do filme, vários são os momentos em que percebemos que Nicholson desempenhou e desempenha esse papel para Sullivan e passa a desempenhá-lo em relação a Costigan. Aliás, com o avançar do filme, a relação entre Costello (personagem de Jack Nicholson) e Sullivan deteriora-se até chegar ao ponto em que Costello confia mais em Costigan do que no seu anterior protegido. Esta situação é demonstrada pela entrega a Costigan por Costello do embrulho em que contém as gravações das suas conversas com Sullivan, que Billy envia para este.

Em entrevista de promoção do filme, Nicholson terá dito que aceitou o papel porque lhe dava a oportunidade de representar um vilão. Aliás, a estrela de “The Shining”, classificou a sua personagem – “Frank Costello” – como a derradeira “encarnação do mal”.

O filme contempla uma série de pormenores e homenagens de Scorsese a alguns dos seus realizadores e filmes favoritos. Numa cena inicial, Scorsese utiliza uma cena do filme “The Informer”, realizado por John Ford 1935. Uma outra – e muito engraçada – é o facto de a personagem de Farmiga oferecer ao seu namorado – Sullivan – um croissant após um encontro com Costigan. Ora, os italianos chamam “corna” ao croissant pela sua forma em corno. Nas culturas mediterrânicas esse objecto está associado à infidelidade. Scorsese já tinha “brincado” com a situação em Goodfellas, quando a sua mãe conta a anedota do “corno contente”. O realizador de origem italiana inspirou-se nos filmes de “Fantozzi Contro Tutti” para fazer essas brincadeiras.

Referências a “The Untouchables”, ao “Inferno de Dante”, “Scarface” e “Chinatown” são também visíveis neste filme, assim como o recurso aos Rolling Stones e ao tema “Gimme Shelter”, faixa de abertura do filme e que se encontra também em “GoodFellas” e “Casino”, duas outras obras-primas de Scorsese.

O realizador já disse que “The Departed” foi o seu último filme para um grande estúdio. Pretenderá agora dedicar-se a projectos de mais baixo orçamento e aos filmes independentes. Por isso, muitos defendem que a ganhar este ano o Óscar para melhor realizador será por toda a sua obra – que inclui clássicos de culto como “Raging Bull” e “Táxi Driver” – e não para “The Departed” em particular. Eu não vejo as coisas assim. “The Departed” é um excelente filme que em nada fica a dever aos outros. Se Scorsese receber a estatueta será, claro, pela qualidade da sua extensa obra, mas não se poderá esquecer o papel determinante que “The Departed” terá nessa mesma atribuição.

Por falar em grandes filmes do ano, não gostaria de terminar sem referir um dos que mais me surpreendeu em 2006: “Casino Royale”, o remake do James Bond original. O filme está muito bem conseguido e Craig apresenta-se como o Bond mais vulnerável, falível mas também credível e humano dos tempos mais recentes. É claramente uma nova forma de fazer Bond, e nem alguns raccords históricos – se este é o primeiro Bond, como pode “M” ser Judi Dench, se ela só assume o posto com Pierce Brosnan? – chegam para retirar a qualidade ao filme e aos protagonistas.

Mas, voltando ao importante: Quero e desejo que “The Departed” seja o grande vencedor do próximo dia 25. Scorsese – o meu realizador favorito – merece-o.

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