Os problemas de estudar em Portugal

Tal como a maior parte das pessoas que vai ler este post, estudo em Portugal, envergando orgulhosamente a camisola da UM e o signo do curso de Comunicação Social. Mas, ao contrário dessa maioria, tive a oportunidade de ir estudar para fora.

Nas vésperas de entregas das candidaturas estudei as possibilidades de ir estudar para a Inglaterra, Gales, Escócia ou os Estados Unidos. Preferi ficar por cá porque, para além desta ser uma universidade com prestígio, era uma solução financeiramente mais viável. Nunca me arrependi dessa decisão… mas não deixo de pensar: Será que fiz bem?

O número de licenciados no desemprego é assustador. Portugal apresenta-se, aos olhos dos seus jovens, como um mercado pouco atraente. É minúsculo e parado. E consome a sua força de trabalho qualificada em empregos que nada têm a ver com a sua especialização.

O problema, dizem-me, é que o mercado português é muito pequeno para o número de licenciados que temos. O Governo diz que esse número – o de licenciados – é muito reduzido e que é preciso aumentá-lo. Eu digo que o número é já bastante grande para as condições de emprego que o país pode oferecer. Com cada vez mais jovens a optar pela carreira no ensino superior, e não havendo capacidade de escoamento de todos, a grande parte dos licenciados portugueses não tem alternativa que não seja a de aceitar as condições que o mercado lhe pode oferecer, mesmo que isso implique trabalhar em áreas que nada tenham a ver com a sua opção de estudo ou, inclusive, ficar em casa a receber o desemprego.

Não são raros na nossa praça casos de indivíduos com boas notas e competências suficientes para segurarem um trabalho mas que não o conseguem. Incompetência? Talvez. Porém, a grande razão poderá ser económica. O licenciado é um empregado potencialmente mais caro do que um indivíduo sem formação, por isso, a não ser que aceite ganhar um salário mais baixo, é quase sempre preterido por esse, mesmo que muitas vezes não tenha qualquer formação. Podemos assim ver que os empregadores, com maior frequência do que pensaríamos, preferem contratar indivíduos sem formação específica nessa área em detrimento de indivíduos que a têm, mas que são muito mais caros. É a indisponibilidade em pagar um salário condizente com o nível de especialização e competência.

Eu, aproximando-me a passos largos do dia da entrega do canudo, já me apercebi dessa realidade. Por isso, já avisei os meus pais: quando acabar o curso o mais provável é a saída do país. Porquê? Ora, Portugal é hoje membro integrante da União Europeia. Nós já não somos apenas cidadãos portugueses mas europeus. Isso significa que há um aumento significativo da nossa área potencial de emprego. O mercado para o qual estudamos e no qual queremos trabalhar não é mais o português mas antes o comunitário. Para além de tudo isso, vivemos também na era da globalização, isto é, vivemos num tempo em que a velocidade das comunicações e dos transportes “encolheram” o globo, transformando a Terra na tal “aldeia global” de que todos falam. E nós temos de saber aproveitar essa possibilidade. A mobilidade é imperiosa.

E, com toda a certeza, muitos dos meus colegas já terão também pensado em soluções semelhantes à minha. É preferível ir para fora e trabalhar naquilo para que estudamos, do que ficar frustrados em casa, mesmo que esse êxodo implique as – naturais – saudades dos entes queridos. Claro que muitos argumentarão que se todos saírem, então o país perde duplamente: perde mão-de-obra qualificada e perde o dinheiro que investiu na nossa formação. Pois, visto assim até perde. Porém, se o governo e a iniciativa privada tomassem uma postura mais activa, muitos jovens, como eu, deixariam de sentir a necessidade de deixar o país. Ficariam cá e constituiriam família, isto se o Estado criasse condições para isso – incentivos à natalidade.

O meu estado natal nos EUA, Massachusetts, é lar de algumas das melhores universidades americanas, Harvard, MIT, Northeastern ou Suffolk são apenas alguns exemplos. Contudo, nos últimos anos, um em casa cinco graduados tem deixado o estado. Para combater essa situação, um vereador local já apresentou a seguinte proposta: Entregar a cada licenciado 10 mil dólares e ajudá-lo a arranjar habitação própria. A contrapartida é a obrigatoriedade em ficar no estado durante 5 anos, caso contrário corre o risco de ter de devolver o dinheiro com juros.

É claro que uma solução desta dimensão seria impraticável para Portugal, até porque o orçamento do estado de Massachusetts é quase o dobro do orçamento do Estado português. Mas, percebe-se que há um interesse e uma vontade em contrariar uma tendência dominante e prejudicial para o futuro do Estado. Cá ninguém percebe onde é que o Estado pretende investir para impedir a fuga de cérebros.

Se tudo correr conforme o planeado, para o próximo ano irei de Erasmus. Será a oportunidade de conhecer um novo ambiente e novas perspectivas. De ver como são as coisas lá fora e se estou melhor cá dentro. Depois digo.

Anúncios

7 thoughts on “Os problemas de estudar em Portugal

  1. É parca a minha experiência neste momento em estudar fora do pais. Mas já te posso dizer duas ou três coisas que aprendi.
    As saudades são bastantes, ainda para mais se estiveres a estudar na tua terra de origem (como é o nosso caso) e for a primeira vez que sais do seio da tua família.
    O método de ensino (o espanhol neste caso) é bastante diferente. Aqui não se dá muito valor aos falsos intelectuais. Tens de ser bom naquilo que fazes no campo de trabalho. A teoria é para os investigadores, não para os jornalistas.
    E é aqui neste ponto que as coisas divergem e se cria um buraco que separa os dois países. Ficas bem melhor preparado quando és formado aqui do que na UM. Digo-te isto e apenas tive 3 aulas de jornalismo impresso com o Professor Xose Lopez Garcia e 4 aulas de informacion televisiva com o Prof. José Soengas Perez. Provavelmente nomes desconhecidos para a maioria, mas que aqui em Espanha são de cabal importância!

    Um grande abraço meu amigo e continua com o bom trabalho. O que eu acho sobre o trabalho que desenvolves tu já sabes.

  2. Não fique tão preocupado em deixar o país de origem para viajar a outros lugares, mesmo que isso seja para receber melhor formação, mesmo que o Estado português não dê o incentivo de que tu necessitas. Eu acho errado pensares assim. Qualquer experiência, por menor que seja, fora do país, é uma grande experiência. Não fique tão preocupado assim com o mercado de trabalho; às vezes, o destino nos prega peças que não podemos nem acreditar… seja mais otimista. Tu estás a pensar muito no que ganharás com isso, mas deves preocupar-te em que poderás ajudar a ti, aos teus familiares e à sociedade do teu país, quando voltares para lá – digo-te isso por experiência própria.

    Um grande abraço saído do Brasil,

    Marlon Miranda

  3. Olá!

    Estava cá a procurar informações sobre intercâmbios em teu sítio, quando percebo que estás justamente a contar sobre as desvantagens e vantagens das qualificações profissionais em Portugal. Sou brasileiro, de São Paulo, considerada a maior cidade da américa latina e tenho exactamente a mesma inquietação. Tenho amigo que mora em Cascais, mas nunca viajei a teu país e tenho vontade de conhecer. Pretendo em 2011, viajar depois muito trabalhar e juntar dinheiro para conseguir realizar meu sonho de conhecer a europa. Sou descendente de Italianos e Espanhóis, mas a UE não reconhece netos de 4º geração. De toda maneira, saiba que o que enfrentas é o mesmo que enfrento. Portanto, não estás só nestas dúvidas profissionais.

    grande abraço directo do Brasil.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s