Neutralidade no jornalismo: Imposição profissional ou capricho ideológico?

Desde o início da nossa aprendizagem no ramo do jornalismo que somos ensinados que o profissional da comunicação deverá ser isento, imparcial, nunca tingindo qualquer notícia com uma posição pessoal de modo a não influenciar directamente o público nem adulterar o acontecimento em questão.

É-nos ensinado que todos os profissionais têm a obrigação de olhar para um acontecimento e atribuir-lhe um “valor-notícia”, caso seja relevante para o nosso público, isto é, se for algo que nós consideremos interessante para a nossa audiência. Se o acontecimento for, então, visto como relevante para o nosso destinatário devemos construir a notícia de acordo com todos os preceitos tradicionais mas, sempre, debaixo da objectividade que caracteriza o trabalho do jornalista.

Tudo isto pressupõe que o jornalista vê os acontecimentos de uma forma particular e diferente do que as outras pessoas. Na realidade, o jornalista tem um poder fantástico nos dias que correm. O jornalista tem o poder da palavra, tem o poder de definir o que é notícia e, muito mais do que isso, de determinar qual o enquadramento que será dado de determinado acontecimento, isto é, decidir como um assunto será analisado, qual será a perspectiva de tratamento do tema em questão.

Só é do conhecimento público aquilo que os jornalistas “autorizam” e só é discutido na rua, pela população e – mais importante – pelos políticos aquilo que é trazido a público na imprensa. Os debates entre políticos, as conversas de rua são sempre sobre as notícias veiculadas pelos órgãos de imprensa.

Por causa de todo este poder, atribuído e reconhecido aos media, pede-se bom-senso aos profissionais da comunicação no exercício do seu trabalho. Os jornalistas são frequentemente avisados do seu papel de observadores imparciais da realidade, servindo “apenas” de ponte entre o facto e o público. Exactamente por isso devem ser imparciais.

Quando o jornalista se recusa a assumir um papel neutral, dizem alguns teóricos, ocorre uma deturpação e violação na transmissão dos factos, no relato dos acontecimentos. Dá-se lugar à parcialidade, ao escolher um caminho e a preterir os outros. Foi disso que se queixou Santana Lopes quando perdeu para Sócrates. O “menino guerreiro” veio dizer que foi vítima de uma conspiração dos media.

Também Manuel Maria Carrilho, mais conhecido por ser marido de Bárbara Guimarães, acusou a imprensa de ter forçado a sua derrota nas eleições pela câmara de Lisboa. Valentim e João Loureiro acusaram a forma tendenciosa como o “Apito Dourado” tem sido tratado pela imprensa, assim como Carlos Cruz e Ferro Rodrigues incriminaram os media de tentativa de “linchamento público”.

Terá a imprensa este poder? O poder de derrubar quem quiser? De virar a opinião pública contra determinados marcos? Claro que tem. Os media constroem e destroem a opinião pública. Podem “matar”, publicamente falando, qualquer personagem. Ninguém consegue resistir à força da imprensa. Mas, será que a simples constatação desta evidência, deste poder conferido à imprensa pelo próprio público, suficiente para justificar a imperiosa necessidade de isenção do jornalista no relacionamento com a realidade?

Nos Estados Unidos, para muitos o local onde se pratica o “verdadeiro” mass media, é normal ver um órgão de comunicação a tomar posições em questões políticas ou sociais. Em 2004, três dos maiores jornais americanos – Washington Post, New York Times e o Boston Globe – deram o seu apoio ao candidato a John Kerry aquando das presenciais. Que quis isto dizer?

Simplesmente que as redacções não se isentaram do papel de eleitores e tomaram uma posição pública de apoio a uma das candidaturas. A partir daquele momento qualquer leitor sabia que a posição oficial da redacção era a de apoio a uma das listas. Porém, terá isto significado uma cobertura tendenciosa da campanha? Não. Os três jornais continuaram a cobrir as incidências da campanha de Bush e a entrevistar e dar a conhecer as posições dos seus apoiantes. Os editoriais reiteravam, nos editoriais, aquela que era, afinal de contas, a posição oficial da redacção, mas as notícias continuavam a obedecer aos critérios de objectividade. E Bush ganhou. A Fox News deu o apoio a Bush. Mas nunca ignorou a campanha de Kerry, aliás, chegou a publicar uma sondagem à boca das urnas – no dia das eleições – em que dava a vitória ao democrata.

Em nenhum destes casos a difusão, factual e concreta, da realidade esteve em causa. Os jornais e televisões, apesar de não se recusarem a emitir uma posição oficial, nunca deixaram de cumprir a sua função, isto é, a divulgação noticiosa.

Mas, não foi apenas para as eleições que os órgãos de comunicação tomaram esta posição. Nos EUA é rotina que um órgão se identifique como sendo de direita ou de esquerda, conservador ou liberal. Quem vir as notícias da NBC sabe que está perante um noticiário liberal, tal como quem preferir o da CBS sabe que estará em frente a uma redacção de direita.

Ora, em Portugal não se ganharia com a tomada de posição por parte das redacções? Se de antemão soubéssemos que determinada redacção era favorável ao PS não seria esta uma forma de “limpar o ar” e eliminar as suspeições. Se eu sei que determinado jornal segue determinada tendência, ao comprá-lo não estou já cinte dessa mesma posição? Não ocorrerá uma certa ilibação dos órgãos de informação? Não se eliminará logo o clima de desconfiança tão frequente, por exemplo, em tempo de eleições? A tomada de posição não poderá ser encarada como uma forma de salvaguarda das próprias redacções, de protecção contra eventuais acusações de facciosismo?

É evidente que o jornalista deverá ser sempre objectivo na produção, tratamento e difusão de informação. Deverá moldá-la da forma que melhor servir o seu público. Todavia, será legítimo afirmar-se que a qualidade da notícia estaria em causa caso o órgão responsável pela sua difusão assumisse uma dada posição em relação a uma dada matéria?

Acredito que o papel do jornalista na sociedade actual, tão importante e de responsabilidade tão grande, não é incompatível com a tomada de uma posição acerca de certo assunto. O jornalista tem de ser capaz de retratar um acontecimento com objectividade, mesmo que vá contra a sua atitude perante determinado assunto, independentemente de ter afirmado publicamente a defesa de uma opinião contrária.

Aliás, não faz ele já isso? Os jornalistas, apesar de não as manifestarem, têm as suas posições em relação aos temas que abordam. Porém, isentam-se de responsabilidades, afirmando-se como neutros em relação à temática abordada.

Será, então, correcto dizer-se que a defesa – pública – de uma posição é antagónica à produção de jornalismo de qualidade? Se funciona nos EUA, porque não poderá funcionar por cá?  

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2 respostas a Neutralidade no jornalismo: Imposição profissional ou capricho ideológico?

  1. Pingback: texto sobre neutralidade no jornalismo « Publismo

  2. camila diz:

    Estive discutindo estas questões a pouco… Aqui no Brasil, a maioria dos veículos que comunicação de massa expressam claramente um posicionamento ou subjetivamente, nas entrelinhas – ao omitirem uma informação ou darem mais relevância a outra – expõem uma opinião, ou seja, manipulam a informação. Interferindo diretamente na interpretação e conclusão do leitor/ receptor da notícia. Apesar disso, é muito afirmada a ética e o compromisso com a verdade e objetividade informacional. São muito contraditórios.

    O jornalista pode ter sua opinião sobre dado assunto, mas como você apontou, ele tem que saber retratar a informação com isenção de posicionamento ou opinião, deixando que o público tire suas próprias conclusões. Mas no jornalismo comunitário e popular é bastante difícil, pois, tem-se uma questão social envolvida – e esse público geralmente segue estritamente o senso comum, cabendo ao jornalismo comunitário um papel pedagógico. Então é mais comum que se priorize uma abordagem concreta, de forma que seja apresentados o senso crítico e questionamentos ao povo, alertando-o sobre a realidade em que se encontra. Nesse caso, papel do jornalista na sociedade atual não é incompatível no relacionamento com a realidade. Seria essa uma forma de parcialidade?

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