O que é boa televisão?

Será que a televisão que nós temos hoje – e por questões de simplicidade falo apenas das 3 estações de televisão generalistas – é de boa qualidade? Estará ela nivelada por baixo? Serão os padrões de exigência do público baixos? Preferirá o nosso público um relity show a um debate político? Será mais interessante um série juvenil, como “Morangos com açúcar” do que um concerto de música, por exemplo, dos Oasis, para o público juvenil? Deverá a orientação temática da televisão ir no sentido daquilo que o povo quer, ou daquilo que o povo deveria querer? E quem determina isso, ou seja, quem diz o que o povo quer e quem sabe aquilo que o povo deveria querer?

Para responder a estas questões é que há directores de programação. Quando determinam as grelhas das suas estações, fazem-no na convicção de que é o melhor caminho para a estação e, consequentemente, para o seu público.

Porém, se atentarmos àquilo que a nossa televisão nos dá, chegamos à conclusão de que “todos queremos o mesmo”. A semelhança entre a programação da SIC e da TVI é grotesca, recheando os nossos ecrãs com novelas em saturação, “Morangos” e Floribella, Goucha e Fátima. A RTP, que durante alguns anos se pautou pela diferença, tem vindo a alterar os seus critérios para se aproximar do Grande Público aumentando, assim, as suas audiências.

O caso da RTP, aliás, é diferente dos demais. Financiada pelo Estado, a Rádio Televisão Portuguesa recebe também dinheiros provenientes dos interesses privados, isto é, da publicidade. Podemos assim dizer que a RTP tem o melhor de dois Mundos: por um lado recebe o dinheiro da publicidade – tal e qual qualquer operadora privada – e por outro vai recebendo subsídios estatais. 

A razão pela qual a RTP recebe esses mesmos dinheiros é para, entre outras coisas, providenciar um bom serviço público de televisão. Mas, que será isso de bom serviço público de televisão? Será o “Preço Certo em Euros”? Será a “Grande Entrevista” ou o “Prós e Contras”? Será o “Um Contra Todos”? Será uma mistura de tudo isso?

Eu não sei e penso que na RTP também ninguém sabe. A minha ideia é que eles se limitam a tentar chegar ao público da mesma maneira que a SIC ou a TVI para subir nas audiências.

Mas, deveria a RTP estar preocupada com as audiências? Isto é, deveria sacrificar a integridade da sua programação apenas para subir uns pontos nas audiências? O Estado não continuará a financiar a RTP quer as ditas audiências sejam boas ou más? Não deveríamos esperar da RTP um papel de maior interesse pela formação cultural e cívica dos seus espectadores e menos preocupada em bater a TVI nas audiências? Não deverá ser a prioridade da RTP, a todo o tempo, o de contribuir para o enriquecimento cultural e social dos indivíduos?

Eu não me sinto identificado com nenhum desses três canais. Aliás, apenas a “2” satisfaz alguns dos meus desejos televisivos. De resto é um deserto. Porém, posso admitir que existe a possibilidade de eu ser uma minoria e da maior parte da população gostar daquilo que vemos na televisão. A maior parte poderá gostar de ver os concursos televisivos em que se faz tudo menos um apelo ao conhecimento.

Se calhar o problema é meu porque gostaria de ver mais documentários históricos, mais filmes e melhores séries na televisão. Porque gostaria que tivéssemos mais informação, mais debate e mais música na televisão. Porque gostaria que alguém se lembrasse de pegar “n’Os Lusíadas” ou “n’Os Maias” e fizesse um filme ou uma série/novela com qualidade, em vez de importar pré-fabricados. Mas, nada disso dá audiências e nada disso dá dinheiro. Ou será que até dava, se as televisões apostassem nessa linha?

O desejo de emissão de um maior conteúdo cultural na televisão não tem nenhuma presunção de superioridade de uma elite sobre as massas. Desde quando é que um documentário histórico é uma imposição sobre alguém? Desde quando é que transmitir concertos, filmes de culto ou peças de teatro é imposição sobre as “massas”? Será que hoje não me estão a impor já os Morangos e a Floribella? Será que a elite que se receia tanto não é mesmo o grande público? Não serão os outros a minoria? Aqueles a quem se impõe a programação?

PS: Este post vem na sequência de uma debate na aula de Sociologia da Comunicação. Aqueles que foram conhecerão melhor as circunstâncias que o envolveram.

 

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2 thoughts on “O que é boa televisão?

  1. Se a política do Estado for apenas o de financiar empresas públicas que apresentem bons resultados – de acordo com a tua afirmação, dever-se-á compreender bom resultado, para a RTP, como altas audiências – então muitas empresas públicas corriam o risco de fechar as portas.

    Se a RTP é financiada pelo Estado, deve reflectir as posições dos portugueses. De todos eles.

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