“Salazar, continuas vivo mesmo contra quem nega a tua obra”

Foi com cartazes com coisas desse género neles inscritos que alguns habitantes de Santa Comba Dão vieram a público defender a edificação de um museu em homenagem ao ditador na sua terra natal, no Vimieiro.

As pessoas juntaram-se na praça 25 de Abril e na Rua Humberto Delgado – querem mais ironia do que isso? – a pedir a construção do museu ao Estado Novo. Considerando que rejeitar isso é rejeitar a história do “maior estadista português”.

Do outro lado da mesma praça e da mesma rua, os militantes da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) protestava exactamente contra a edificação do mesmo museu. “Estão a branquear o fascismo”, dizia o coordenador da URAP, Aurélio Santos. O seu raciocínio é que a construção de um museu dedicado àquele “período negro” deve partir dos oprimidos e não dos opressores.

Já aqui dei a entender a minha posição acerca de Salazar, mas a paixão que essa personagem continua a suscitar nas pessoas continua a intrigar-me. Rejeitar a memória de Salazar é rejeitar a memória de Portugal durante boa parte do Século XX. Por isso, devemos aprender a aceitá-lo e viver com isso. Sem nenhum orgulho particular, mas cientes de que faz parte da nossa história.

Mas, passar dessa compreensão de realidade histórica para um estado de completa cegueira e defesa efusiva do passado do ditador – apelidando-o de modelo a seguir – é um passo perigoso de se dar. Vir-se defender que Salazar foi um líder perfeito e que “no tempo dele” é que as coisas estavam bem é um atentado à moral e sanidade pública.

Defender-se Salazar é defender e justificar tudo aquilo que ele fez. Desde prisões políticas à tortura e repressão, desde a censura à pobreza. Dizer-se que ele recuperou as finanças não é mentira. Mas é mentira dizer-se que os portugueses viviam melhor. Caso contrário, porque emigravam tantos? Porque fugiam das suas famílias? Porque iam à socapa? Como justificar que Salazar tenha, num tempo histórico de promoção das democracias e da descolonização, iniciado uma, inútil, guerra colonial? E não me venham responder a isto com o medo da “ameaça vermelha”!

Não há como negar. Salazar foi um repressor e um mau estratega político. A sua recusa em aceitar a ajuda dos EUA, o célebre “Plano Marshall” que dinamizou a economia dos restantes países no período pós-guerra, revelou-se numa das grandes estupidezes da história da política internacional portuguesa.

Grande parte dos problemas estruturais de Portugal são devidos a Salazar e à sua inabilidade política. Por isso, se percebo que a sua imagem na história deve ser compreendida e aceite, não consigo compreender como é possível defender tão veementemente um homem que tanto mal e dor causou a Portugal e aos portugueses.

Se alguém me quiser explicar, força.

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4 respostas a “Salazar, continuas vivo mesmo contra quem nega a tua obra”

  1. Miguel diz:

    A Democracia foi feita para todos, incluindo para aqueles que a negaram aos que não pensavam como eles durante 48 anos. Mas a Democracia é um conceito abstracto, acredito que há várias definições de Democracia, dependendo das ideias de cada um.
    Quando em Fevereiro de 1994 estive em Budapeste, ouvi diversas pessoas com saudades do tempo em que a Hungria era uma Democracia Popular.
    Não há democracias perfeitas, nem a americana (por mais que eles se gabem), há sim democracias regionais que se adaptam à sua própria realidade.

  2. E a nossa realidade – ou parte dela – é de “Salazar lovers”?

  3. jrocha diz:

    Falem da 1ª Republica, de 1910 até 1928. Uma época, que só se pode comparar em termos se reveldia e segurança com o actual Iraque, Siria ou Afeganistão entre outros. Hoje nestes países destroiem-se pessoas e coisas devido ao sofisticado armamento que hoje existe. Na 1ª Republica não se destruiam tantas coisas, mas iam em camionetas com matriculas falsas, e individuos encapussados, a casa dos opositores, alguns até do partido que estava no governo, traziam-nos para a praça da marinha, junto à Praça do comércio e eram aí fuzilados a sangue frio, as Finanças eram um ver se te avias a ver quem sacava mais do quase nada que lá havia, empréstimos a ortugal népia ja ningué confiava neste País, os agricultores portugueses nas suas fazendas, eram roubados de todos os haveres que haviam colhido das suas colheitas, Etc.etc.. Só por isto se pode avaliar o que era a 1ª Republica em termos de ordem, disciplina, e respeito pelos outros. E é, a partir desta data e destes acontecimentos, que se pode começar a falar de Salazar: O que ele fez nas finanças, o que ele fez no País as mais emblemáticas obras publicas,que ainda hoje existem em todo o País, em todas as areas, obras publicas estradas pontes escolas milhares delas liceus em todos os distritos, LENC hospitais os maiores que hoje ainda existem, a TAP o Estádio Nacional o 1º de Maio, teatros cinemas em quantidade como nunca mais existiram, A disciplina nas forças armadas, as instalações dos Três ramos das forças armadas, a Praça do Império, Cristo Rei, Companhia colonial de navegação que fazia inveja a países mais ricos que o nosso, a A Mata do Monsanto, a Lisnave EDP, CP,tudo empresas que não tinham dividas porque as administrações eram, como todo o governo, salvo rarissimas excepções todos honestos. Hoje salvo rarissimas excepções são todos o contrário., E já começa a haver honestos que não querem servir o Estado na area da governação, para não perderem o bom nome que sempre têm tido. Dentro em breve, mais depressa do que se pensa, estamos a chegar a um periodo igual ao da 1ª republica é tudo a roubar, é a lei do mais forte e fé em deus para os mais fracos. A História sempre se repete e trezentos ou quatro centos anos depois, lá aparecerá outro Salazar para pôr a casa em ordem para uns, e em desordem para os que gostam de sugar o seu semelhante.Tchau tenham bom estomago, para digerir o que aí vem, que deve ser um tempo muito amargoso.

  4. jrocha diz:

    Uma pequena adenda ao comentário de jrocha de 06/24/2016. É que é preciso lembrar que todas as obras foram feitas com dinheiro Português, depois de pagar as descalabrosas Dividas que os da 1ª republica deixaram para pagar. E sem andar a mendigar nem a dizer mal de ninguém, e ainda deixou 200milhões de contos em dinheiro 860 Toneladas de OURO nos cofres do Estado. Tudo Isto, em vamos falar em 48 anos! E nestes últimos 42 anos o que é que foi feito para as proximas gerações? O mesmo que fez a 1ª Republica Dividas para as próximas gerações pagarem. Aprenderam a lição da !º Republica que era roubar! Mas não aprenderam a Lição de Salazar que era gastar bem gasto para o futuro. E se falarmos em vidas perdidas por causa das politicas dos politicos, só no primeiro ano depois da Abrilada, morreu muito mais gente em Portugal e nas ex Colónias, devido à politica seguida de abandono dos deslocados das colónias e abandono dos negros que combateram ao lado de Portugal no Ultramar, que foram vitimas de assassinatos em massa pelas forças que ocuparam o poder nessas Colónias logo a seguir. Do que em 13anos de guerra com os movimentos da chamada libertação que não o foi, foi apenas e só uma mudança de colonizadores, com mandantes mesma côr dos naturais de Lá. Se aqilo era Português há mais de 500anos, onde está a democracia desses Países, que dividiram tudo só por meia duzia deles? Viva Salazar, Viva Portugal.

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