Ser-se de direita hoje

Em pleno século XXI o que é ser-se de direita? O que significa dizer-se que se apoiam os valores de direita? É ser-se monárquico? Fascista? Conservador? Religioso? Será votar contra o aborto uma prática de direita? Será que quem votou a favor do aborto não pode ser de direita? Possivelmente até será.

A não ser que estejamos a falar da realidade política e social dos EUA, a maior distinção que se pode fazer entre direita e esquerda tem a ver com a política económica. Na tradição Europeia, a direita é a grande defensora do capitalismo ao passo que a esquerda professa o socialismo ou, noutros casos, o próprio comunismo.

Num extremo dessa política económica de direita, podemos encontrar nalguns indivíduos uma atitude algo “laissez faire” para com o capitalismo, isto é, deixar que seja o mercado a ditar as normas de funcionamento, limitando a intervenção do Estado a operações de menor destaque como o controlo da emissão de moeda e poucos impostos.

Nos tempos que correm, a direita tem-se ocupado com uma certa protecção de alguns valores fundamentais – normalmente religiosos e históricos – e a preservação de direitos individuais e corporativos através de maiores constrangimentos no poder do governo.

Longe vão os tempos em que ser-se de direita implicava o apoio incondicional a medidas de preservação do poder e da riqueza nas mãos da elite tradicionalmente encarregue dessa tarefa, pensando que assim se garantira a solidariedade social e nacional assim como o crescimento da ambição do país.

A direita moderna pede o investimento privado. Convida-o para tornar e economia interna mais competitiva e menos dependente do Estado.

Tradicionalmente costuma-se caracterizar a forma como a direita entende o Mundo como se de uma competição se tratasse, uma competição em que apenas os mais fortes e mais aplicados conseguem ter sucesso e atingir os seus objectivos. O falhanço está conotado com a fraqueza e a debilidade.

A direita vê o sucesso como algo positivo e desejável, enquanto que outros há que vêem esse mesmo desejo de êxito como uma forma de superiorização social e criticam aqueles que conseguem atingir a excelência simplesmente porque o conseguiram e eles não.

A direita valoriza o trabalho e entende-o o instrumento necessário para atingir uma boa posição e estatuto social. Quem não trabalha não merece essa posição. Quem pode trabalhar e prefere ficar em casa não pode ser auxiliado pelo Estado.

Todos nascemos iguais. Com os mesmos direitos e obrigações. Aquilo que atingimos na vida depende do que fizermos com ela. Se nos aplicarmos e dedicarmos às questões relevantes, vamos ter sucesso e, mais provavelmente, ter capacidade para nos sustentarmos a nós e à nossa família. Se nada fizermos e esperarmos pelo cheque do Estado, o mais provável é que pouco ou nada iremos alcançar e fazer da nossa vida.

A justiça aplica-se a todos. Ricos ou pobres. Formados ou não. Aquilo que de mais alto uma sociedade tem é a lei. Logo, todos os seus cidadãos a devem respeitar e fazer respeitar e quem infringir essa mesma lei deverá ser punido de forma condizente, ou seja, os castigos aplicados deverão ser concordantes com a pena cometida.

A direita do nosso século preocupa-se com as questões sociais. Porém, não acredita que a sua resolução se faça pela concessão de subsídios. Uma política de trabalho para combater o desemprego é determinante para combater a pobreza. Não se deixa de ser pobre pela atribuição de um subsídio. Deixa-se de ser pobre quando se tem um trabalho e um salário certo e se poupa aquilo que se ganha.

Uma sociedade óptima é aquela que valoriza o seu património social e cultural. A direita apela à preservação dessa memória no presente e no incutir do espírito de conquista dos antepassados nas gerações mais recentes.

Uma sociedade de direita é aquela que é livre. Onde todos os indivíduos podem expressar as suas opiniões e visões do Mundo, sem medo de repressão ou perseguição. É uma sociedade em que todos podemos professar a religião que melhor nos representar. Mas é uma sociedade que conhece os limites dessa liberdade. É uma sociedade que sabe que não pode interferir com o bem-estar do outro. É uma sociedade em que os indivíduos sabem que a sua liberdade termina onde a do outro começa. É uma sociedade respeitadora e conhecedora dos limites do bom senso e razoabilidade nas suas acções.

Enfim, ser-se de direita nos dias que correm não implica ser-se racista, conservador, reaccionário, chauvinista ou moralista. Significa acreditar-se num mercado livre e autónomo. Significa aceitar que há certos valores demasiado importantes para serem diluídos no tempo. Significa compreender qual o nosso papel numa economia de mercado e incentivar a inovação e o desenvolvimento. Significa a valorização do trabalho árduo em busca da justa recompensa social e económica. Significa o respeito pela justiça acima de tudo. Significa ter uma preocupação em resolver os problemas sociais por vias eficazes, mesmo que sabendo que poderão ser difíceis e morosas. Significa estabelecer objectivos para a nação e alcançá-los. Significa ser-se determinado e persistente. Significa ser-se audaz e ambicioso. Significa compreender o valor da liberdade e lutar pela sua preservação.

E esta é a direita moderna.

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13 respostas a Ser-se de direita hoje

  1. Phillipe:
    Pá, isso é extremamente parecido com a Esquerda Moderna. Hás-de reparar que, hoje em dia, os “Modernos” têm discursos muito semelhantes. Só se opõem realmente quando um deles está no poder…

  2. «Ser-se de direita nos dias que correm (…) significa acreditar-se num mercado livre e autónomo»

    Então não há direita em Portugal.

    «Significa aceitar que há certos valores demasiado importantes para serem diluídos no tempo. Significa compreender qual o nosso papel numa economia de mercado e incentivar a inovação e o desenvolvimento. Significa a valorização do trabalho árduo em busca da justa recompensa social e económica. Significa o respeito pela justiça acima de tudo. Significa ter uma preocupação em resolver os problemas sociais por vias eficazes, mesmo que sabendo que poderão ser difíceis e morosas. Significa estabelecer objectivos para a nação e alcançá-los. Significa ser-se determinado e persistente. Significa ser-se audaz e ambicioso. Significa compreender o valor da liberdade e lutar pela sua preservação».

    E aqui estou com o Hugo: isto tanto dá para a Direita como para a Esquerda.

  3. Phillipe Vieira diz:

    Hugo e romano,

    mesmo com as semelhança que poderão exisitir, não deixam de haver diferenças de base significativas entre a direita e a esquerda, nomeadamente ao nível da vertente económica, dos valores e dos objectivos. e não falo apenas da realidade portuguesa.

    romano,
    há direita em portugal, tanto há que se estiveres com atenção verificarás quais são os que pedem uma maior intervenção do estado na economia e aqueles que querem exactamente o contrário. a diferença entre aqueles que não querem que o Estado se ausente da participação no mercado e aqueles que defendem apenas uma presença o mais minimalista possível.

  4. Eu nunca disse que não havia diferenças entre Esquerda e Direita; disse que a passagem que citei tanto dava para uma como para outra (faz a experiência: entrega o texto a alguém e pergunta-lhe se acha que é de um tipo de Esquerda ou de Direita).

    Quanto ao segunto ponto, não me expliquei bem. O que eu queria dizer era que, se a Direita defende «apenas uma presença o mais minimalista possível [na economia]», então não há Direita em Portugal.

  5. A única diferença notória que eu consegui estabelecer entre Esquerda e Direita é que a primeira, no seu extremo, desresponsabiliza totalmente o sujeito, e a outra, também no seu extremo, atribuí-lhe todas as culpas e méritos. Digo isto imaginando uma idiologia pura, para não estar com grandes devaneios.
    Por um lado é “coitadinho do pobrezinho que não tem sorte nenhuma na vida…”. Pelo outro é “desenrasca-te e trabalha, ó boi!”. Pouco mais ou menos isto. Note-se que isto são extremos, a política real é cheia de gradientes de cinzento…

    PS: Os meus exemplos são geniais…

  6. romano,

    se leres com mais cuidado algumas das expressões da dita passagem verás que não haverá uma total correspondência entre esquerda e direita. nomeadamente no ponto da economia e dos valores – basta analisar, p.e., as participações dos partidos na AR.

    hugo,
    aquilo de que eu quis falar foi da direita e não da extrema direita. e, tal como disse ao romano, é possível encontrares várias diferenças ideológicas.
    mas percebo a tua dificuldade em distinguir as águas. hoje, um governo de maioria socialista governa claramente à direita – pelo menos no que à economia diz respeito – e uma oposição que deveria ser de direita – centro-direita, pelo menos – não sabe o que há-de dizer.
    mas, mais uma vez, pretendi falar da direita em si, não apenas no caso português.

  7. Repito: eu não disse que não há diferenças entre Esquerda e Direita. Disse que o texto não ‘classifica’ a Direita: tanto dá para a Direita como para a Esquerda.

    Mas em relação aos exemplos concretos:

    «[Ser de Direita] Significa aceitar que há certos valores demasiado importantes para serem diluídos no tempo»

    A Esquerda diz o mesmo.

    «Significa compreender qual o nosso papel numa economia de mercado e incentivar a inovação e o desenvolvimento»

    Qual é o líder de Esquerda que diz que o seu papel é NÃO compreender a economia de mercado e NÃO incentivar a inovação e o desenvolvimento?

  8. Todo o post é uma classificação da nova direita. o excerto que escolheste analisar é um síntese do mesmo.

    mas, como sabes, a base das duas ideologias é bastante diferente. não me refiro ao facto de se sentarem à direita ou esquerda do Rei, mas em termos dos valores de base que defendiam. ora, as ideologias modificaram-se ao longo dos anos e hoje a direita já não defende o mesmo que há 50 anos atrás, p.e.

    porém, houve ideais que se mantiveram imutáveis. o apêgo à tradição, à história e, até, valores de base da conduta religiosa continuam a ser importantes para a direita. e isso a esquerda não defende nem apregoa.

    em relação ao outro ponto, certamente não andas desatento e reconheces que os líderes de esquerda são mais dados a tentativas de protecção do mercado e a repudiar o investimento privado em prol do público. basta, aliás, para perceber esse ponto analisar a posição dos líderes dos 2 partidos de esquerda – PCP, BE – e o de direita – CDS – para perceber como uns e outros interpretam a economia de mercado e como uns e outros reagem perante medidas de inovação e desenvolvimento. basta isso.

    qual é o líder de esquerda – da verdadeira esquerda – que incentiva ao funcionamento da economia de mercado e que não teme o incentivo privado à inovação ao desenvolvimento? se o fizer, não é de esquerda. será, quanto muito, do centro.

  9. Phillipe:
    No meu último comentário não pretendia comentar o post, apenas queria pôr na mesma a única diferença notória que existe entre os dois lados da questão. Vê-se isso nas políticas de mercado: Esquerda (controlo/regulamentação/desresponsabilização/”sorte”) e Direita (autonomia/liberalização/responsabilização/mérito). E isto é só um exemplo. Não quer dizer que um seja melhor ou pior. Até se costuma dizer que no meio é que está a virtude…

  10. O que eu disse foi o que o tal excerto não classifica Direita nenhuma: nem a nova nem a velha. Não porque esteja ideologicamente errado ou historicamente incorrecto mas sim porque é uma declaração de princípios completamente vagos e de tal forma difusos que ficam abertos a qualquer tipo de interpretação. Qualquer partido diz que:

    a. existem certos valores demasiado importantes para serem diluídos no tempo;
    b. compreende qual o seu papel numa economia de mercado e no incentivo da inovação e do desenvolvimento;
    c. valoriza o trabalho árduo em busca da justa recompensa social;
    d. respeita a justiça acima de tudo;
    e. tenta resolver os problemas sociais por vias eficazes;
    f. é importante estabelecer objectivos para a nação e alcançá-los;
    g. quer ser audaz e ambicioso;
    h. quer ser determinado e persistente;
    i. compreende o valor da liberdade;

    Quanto ao intervencionismo na economia, também não disse que havia diferenças. Disse que não há líder – nem na Esquerda NEM na Direita – que «incentiva ao funcionamento da economia de mercado e que não teme o incentivo privado à inovação ao desenvolvimento».

  11. o “tal excerto” não pretende classificar nada. todo o post é a classificação da nova direita, sendo esse último trecho uma sistematização da mesma.

    e, se por um lado, poder-se-ia compreender o que dizes em relação ao dito excerto ser “vago e difuso”, deixa-se de poder manifestar essa mesma compreensão pela insistência em retirá-lo de contexto. sim, obviamente nenhum militante de esquerda ou direita vai dizer que não é audaz nem ambicioso. certo. mas a diferença reside no como o é, ou seja, na sua ideologia de base.

    há diferenças entre o modo como a direita expressa essa ambição e como a esquerda o faz.

    há, inclusive, algums questões intressantes a anlisar nesta caso. p.e., o caso de hoje o PCP fazer parte da nossa democracia e ter, na sua base, a sustentação da ideia do partido único. Mas hoje defende a pluridade de partidos. essa é uma diferença para com a direita e significa uma diferente forma de entender a liberdade e a sociedade.

    portanto, se quiseres continuar a ler o excerto por si só. força. está descontextualizado e vago. certo. se te decidires a ler tudo, verás que surge como a conclusão natural depois de uma reflexão daquilo que a direita moderna deve e pode ser.

    quanto ao teu último reparo, não percebi muito bem.

    “Quanto ao intervencionismo na economia, também não disse que havia diferenças”. Então, não há diferenças nesse aspecto?

    “não há líder – nem na Esquerda NEM na Direita – que «incentiva ao funcionamento da economia de mercado e que não teme o incentivo privado à inovação ao desenvolvimento».” Não há mesmo nenhum?

  12. Não pretende classificar? Então pretende o quê? Vê o que escreveste: «Ser-se de direita nos dias que correm não implica (…) Significa (…)». Isto não é uma caracterização?

    «mas a diferença reside no como o é, ou seja, na sua ideologia de base»

    Pois, a diferença reside no ‘como’. Mas é exactamente em relação a esse ponto (em que, como afirmas, se plasma a diferença entre Esquerda e Direita) que o texto é omisso.

    «Quanto ao teu último reparo, não percebi muito bem».

    É natural, eu enganei-me a escrever lol. O que eu queria dizer era que «quanto ao intervencionismo na economia, também não disse que NÃO havia diferenças» 😉

    «Não há mesmo nenhum?»

    Bom, eu não conheço nenhum.

  13. continuas a insistir no mesmo, ou seja, que o último parágrafo é a ideia do texto. nada disso. o último parágrafo é uma sintetização das ideais expressas acima. se são opacas, é porque não estão a ser lidas em contexto. se elas não te dizem nada é porque não as estás a ler em contexto com o resto. as conclusões apresentadas fazem todo o sentido, pois têm de ser interpretadas à luz dos valores e tradições da direita.

    aceito que as conclusões possam ser aceites, até certa extensão, à esquerda mas aquilo com que já não concordo que seja visto à esquerda é toda a reflexão que está por detrás e que serve de suporte à conclusão final.

    portanto, aceito que digas que alguns dos pontos poderiam ser compreendidos à esquerda, mas a partir do momento em que são suportados por todo um texto em que se expõe aquilo que a direita moderna pretende ser, creio que essa ligação se perde. assim, se o leres sozinho, poderás ter a tentação de o ligar à esquerda, mas se leres todo o post só podes ver essa conclusão como sendo à direita.

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