Olha olha… o Salazar ganhou umas eleições democráticas!

Com toda a certeza que a 25 de Abril de 74 nunca ninguém pensou que, algum dia, e muito menos 33 anos depois, Oliveira Salazar ganhasse uma eleição democrática e livre – já isso seria muito duvidoso – e, mais do que isso, que essa fosse uma eleição para… melhor português de sempre.

É verdade, a partir de ontem é oficial: António Oliveira Salazar é o melhor português de sempre, vencendo com 46 porcento dos votos! Ah, e em segundo ficou Álvaro Cunhal. E depois ainda dizem que Portugal é um país que não faz sentido!

Agora, um pouco mais a sério, o programa era estúpido. O seu conceito ainda mais o era. Procurar o “Melhor Português de Sempre” é absolutamente ridículo. Como comparar Pessoa e Afonso Henriques? D. João II e Aristides? Camões e o Marquês? Salazar e o Infante?

Todos eles têm o seu nome e importância na história do nosso país. Sem Afonso Henriques, poderia nem haver Portugal. Sem D. João II, no Brasil falar-se-ia espanhol. Sem o Infante, nunca teríamos chegado à Índia. Sem Salazar teríamos caído na bancarrota no tempo da I República.

Exactamente, por isso mesmo, é estúpido sequer pensar no exercício de melhor português de sempre. Todos viveram épocas diferentes, momentos históricos e realidades sócio-político-económicas específicas.

Mas, mesmo que se quisesse levar a tarefa avante, com certeza que, e olhando para a nossa história, os vencedores não poderia ser pré-séc XVI. Depois disso, foi o marasmo com algumas raras e honrosas excepções, das quais Pessoa e o Marquês fazem parte. A escolha, se feita com pressupostos no serviço da nação e do papel na história, teria de recair ou sobre o fundador da nação, Afonso Henriques, ou sobre um (o?) maior Rei de sempre, D. João II, o responsável pela aventura oceânica, o Infante D. Henrique ou Camões, a mistura da bravura e selvajaria com o brilhantismo e o génio tão característico dos portugueses.

Nunca, a meu ver, figuras do período mais negro e obscuro da nossa história enquanto nação – séc. XX – poderiam ser seriamente contempladas. Salazar era um mesquinho, um estudioso dos números, sem ambição nem grande arrojo. Preferiu manter-se sozinho e isolado do que ser audaz e criativo. Cunhal, esse, se tivesse levado a sua avante tinha-nos transformado num enclave da URSS na Europa Ocidental. Se a ideia era promover um resistente anti-fascista, porque não o General Humberto Delgado – talvez porque morreu há mais tempo. E quem o mandou assassinar? Pois, esse, o “maior”. Aristides salvou milhares de judeus, e por isso merece a nomeação.

É engraçado como um país com mais de oito séculos de história nomeie como seu mais ilustre representante um desgraçado que oprimiu o país, perdeu o contacto com a realidade e morreu ao cair da cadeira? Mais do que isso, como eleger em segundo lugar o seu “inimigo” de referência? Um totalitário que também não acreditava na democracia e queria instituir uma outra ditadura em Portugal, mas essa de esquerda. Qual a melhor…?

Em 2005, Paulo Portas ao despedir-se – mas não de vez – do CDS/PP disse que não queria viver num país em que estalinistas, maoistas e trotskistas tivessem mais votos do que democratas-cristãos. A mim, apetece-me dizer que não quer viver num país que, com uma história tão rica e gloriosa – o que tantos países não davam para ter o nosso passado – escolhe dois totalitários, um pela direita ou pela direita, como as suas maiores figuras de sempre! Mas, depois lembro-me que o concurso era estúpido, abusrdo, populista e brejeiro e fico mais descansado. Afinal, vou-me deixar ficar por cá e chamar por el-Rei, D. Afonso Henriques e esperar que a demência colectiva em que nos encontramos passe rapidamente. Muito rápido mesmo!

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8 respostas a Olha olha… o Salazar ganhou umas eleições democráticas!

  1. lfm diz:

    Para quem não tinha a certeza, ficou comprovada uma vez mais que o povo português não sabe votar. Sempre que vota, mistura tudo e confunde o resto. Não sabe formular perguntas ou responde indirectamente.

    Basta pensar um pouco (um pouquinho só) e facilmente podemos constatar que sempre que há eleições, a maior parte vota para passar ‘cartões vermelhos’ ou para um determinado partido ou candidato não ganhar.
    Esta é a forma negativa e destruidora como o português encara a democracia.

  2. Rita diz:

    “No tempo do Salazar não era nada disto… esta juventude de agora só se mete nas drogas, é uma pouca vergonha”=P

    de facto, arranjaste a expressão certa: “demência colectiva”. Ou isso, ou pura estupidez. Fiquemos na esperança de que é demência, e passageira…

  3. Concordo com cada palavra que escreveste. Se me permitires, assino por baixo.

    Abraços

  4. Pingback: Sobre os Grandes Portugueses... « LONGE DAQUI

  5. monique diz:

    De facto, disseste tudo!
    Tudinho mesmo.
    E como diz o Alex: “nem uma vírgula” a mais.
    Abraço

  6. “e, mais do que isso, que essa fosse uma eleição para… melhor português de sempre.”

    Isto é, de facto, um erro grave. Que se saiba, o nome do programa é “Os Grandes Portugueses” e não “Os Melhores Portugueses”.
    Este concurso, de certa forma, quis aferir qual o português que mais impacto teve na história portuguesa. É indiscutível (parece-me) que a personagem mais importante do século XX português é (a figura de) Oliveira Salazar. É, tão-somente, um dos principais responsáveis pelo actual estado do país, para o bem e para o mal.
    Além de que temos de contar com a proximidade histórica. Qual é, então, a surpresa? Não percebo nem o alarido, nem a perplexidade. Ou então andam todos a dormir…

  7. Alex e Monique,
    Ok ok, eu deixo-vos “usarem” as minhas palavras…

    Hugo,
    Sim, o concurso chamava-se “Grandes Portugueses”, porém a opção em escolher um em 10 finalistas visava, apenas, perceber qual desses 10 grandes seria o maior, logo, melhor ou mais notável.

    Salazar poderá mesmo ser a figura central de todo o séc. XX português. Contudo, o nosso séc. XX olhado em perspectiva histórica foi demasiado pobre. Como se pode, racionalmente, argumentar que Salazar terá sido o melhor quando olhamos pela vertente histórica e deparamo-nos com homens como Afonso Henriques, D. João II, Infante D. Henrique, Vasco da Gama entre ourtos – D. Dinis, D. João I, Egas Moniza, etc…?

    A proximidade histórica deveria também relembrar as pessoas da fome, miséria e da guerra colonial, da repressão e da ausência de liberdade de expressão.

    fico perplexo pois 33 (!!) anos depois do 25 de Abril parece que o período do Estado Novo foi um mar de rosas.

    e, isso de votos de protesto, é perfeitamente estúpido. quer-me parecer.

  8. se me permites a adenda, parece-me que a votação resulta apenas da capacidade de mobilização de umas quantas pessoas.
    depois, merece-me a clarificação de que uma vontade ditatorial do Cunhal para o Portugal pós-25 de Abril é mera conjectura. ou não é dele a culpa de uma das últimas palavras que nos privaram de uma guerra civil por essas horas?

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