A mensagem de Pessoa

Não sou um grande adepto de poesia, mas quando ela é boa deve ser lida e entendida. Uma das minhas obras poéticas facoritas é “A Mensagem” de Fernando Pessoa, um dos mais brilhantes pensadores do seu tempo e da história de Portugal.

Desse autêntico hino da literatura mundial, há algumas estrofes que me dizem muito. Aqui estão algumas delas:
 
D. Afonso Henriques
“Pai, foste cavaleiro,
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força”

“Dá contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!”

D. Fernando, Infante de Portugal
“Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra
Sagrou-me seu em honra e em desgraça
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra”

“Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.”

“E eu vou, a luz do meu gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.”

O Infante
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,”

“E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do Mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda do azul profundo.”

“Quem te sagrou criou-te portugês.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

O Mostrengo
“O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do Mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»”

“ «De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»”

“Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do Mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»”

Mar Português
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!”

“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”

Muitos mais versos poderiam estar aqui. Mas estes dão uma ideia daquilo que é “A Mensagem”.

Pena que se vote em fascistas e se esqueça dos artistas. Pena.

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One thought on “A mensagem de Pessoa

  1. Phillipe, fico feliz pelo bom gosto… Como sabes Pessoa diz-me muito… e a Mensagem é simplesmente o meu livro… Partilho da tua ideia acho que os artistas , que tão vastas e ricas obras nos deixaram, devem ser lembrados e tal como Camões o disse ” da lei da morte libertados…” Esperemos que um dia esta mentalidade se altere…

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