O quarto poder, pois então!

Toda a gente fala do caso Sócrates/Independente. Terá o primeiro-ministro mentido, ou não, para alcançar o diploma? Pressionou, ou não, os administradores da UnI para lhe darem o canudo “rapidinho”.

Ora, aquilo que se discute hoje nada mais é que não o resultado de uma investigação jornalística. Há mais de dois anos que circulava pela blogosfera o rumor de que havia mais buracos na licenciatura de Sócrates do que na IP5.

É Pacheco Pereira que relembra que já em 2005 António Balbino Correira lançou as farpas iniciais. Dois anos depois, e com o escândalo em torno das contas da UnI ao rubro, o Público investigou a carreira académcia de um tal José Sócrates que em 1996 havia, na dita universidade, completado a sua licenciatura em Engenharia Civil, com especialização no área da política ambiental.

Por que razão esta notícia passeou-se pela blogosfera por dois anos até ser tratada como devia ser pelos jornalistas portugueses, não sei. Pacheco Pereira diz que esse atraso se deve à “complacência” e “deslumbramento pelo poder” da comunicação social.

Diz ainda o antigo eurodeputado que o “consenso de rebanho [que existe] entre jornalistas sobre aquilo que se deve falar, e sobre os temas malditos que «sujam» as mãos de qualquer profissional e merecem o ostracismo dos outros, é o resultado destilado dos gostos, amizades pessoais e políticas, ideias feitas, ignorâncias activas, vinganças que unem grupos de jornalistas entre si”.

Sobre tudo isto, muito poderia dizer. Porém, aquilo que me interessa é destacar o papel que o jornalismo de investigação, neste caso do Público, teve nesta história.

A partir do momento em que o jornal publicou a notícia, sabe-se hoje que vários telefonemas foram feitos pelo próprio Sócrates e pelo seu gabinete, para redacções de todo o país a procurar, primeiro, refutar a notícia do Público e, em segundo, mostrar disponibilidade em esclarecer as dúvidas levantas pelo artigo.

Desde que tomou posse, Sócrates tem sido habilidoso – e ofensivo – na forma como lida com os media. Quando precisa deles, manipula-os a seu favor, quando são inconvenientes sai pelas traseiras. E a imprensa, uns mais outros menos, adora-o e contribui para o culto da sua personalidade.

Talvez por isso mesmo, órgãos tão sérios quanto o Público não quiseram dar destaque ao facto. Falo da RTP, do Sol, do DN, etc. Foi só quando o Expresso voltou a pegar na notícia – duas semanas depois – que esta se tornou grande demais para ser ignorada.

Que Sócrates tenha, antes de ter falado ao país, ligado para as redacções a esclarecer as dúvidas que pairavam sobre a sua formação académica, já é mau; que tenha pressionado algumas para publicar artigos contestatários ao do Público é péssimo.

O nosso perito em “one man shows” precisa dos media para poder actuar. Mas, claro, apercebe-se do poder destrutivo que poderão ter na política, quando não estão a favor dos políticos. Ou não se lembrará ele do que fizeram a Santana e Ferro?

Por isso, ele quer controlar a imprensa. Por isso, Augusto Santos Silva, o ministro responsável pela tutela da comunicação social, quer aprovar, à bruta e à força, as novas leis da imprensa, extremamente restritivas para o jornalismo mas bastante cómodas para quem se encontra no poder.

Também por isso, pressionou a Renascença para apresentar um pedido de desculpas à sua pessoa, pela difusão de uma peça sobre o seu envolvimento na UnI. Quando lhe disseram que não, o seu gabinete ameaçou com processo judicial

Se Sócrates vier a pagar politicamente o preço por ter vigarizado na obtenção da sua licenciatura, a responsabilidade não será do Ministério Público, nem dos seus adversários políticos, mas sim de um artigo, um simples artigo de jornal escrito no momento certo.

Cheirinho a Watergate…

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One thought on “O quarto poder, pois então!

  1. «(…) Quando precisa deles, manipula-os a seu favor, quando são inconvenientes sai pelas traseiras. E a imprensa (…) adora-o e contribui para o culto da sua personalidade».

    O que não abona em favor da capacidade intelectual dos media.

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