Os Maias “revisited”

Ao completar a minha quarta viagem pelo maravilhoso Mundo do Ramalhete, e das intrigas da família Maia, deparei-me com a minha passagem favorita. No capítulo XVII, na página 667 – para aqueles que seguem pelo edição clássica – a acção passa-se após uma noite de incesto entre Carlos e Maria Eduarda da Maia. O médico, sabendo que Maria era sua irmã, resolvido a ir contar-lhe a verdade, sucumbe perante a beleza e sensualidade do seu amor. Deixa-se cair nos seus braços e, conscientemente, tem relações com a sua irmã.

Entretanto, todas estas tramas atormentam Afonso da Maia, avô de Carlos e Maria Eduarda. Depois de ver o seu filho cometer suicídio após a partida de Maria Monforte, Afonso jura que fará de Carlos um homem mais forte do que Pedro. Porém, Carlos, que entretanto tira medicina em Coimbra, deixa-se afectar pela lassidão da vida em Lisboa e nada faz, vivendo apenas dos rendimentos e somando casos com mulheres casadas. O médico encontra em Maria a sua alma gémea e, determinado a ficar com ela para sempre, assume o desejo de fugir com a mulher e sua filha para longe de Lisboa. No entanto, essas intenções são destruídas quando o Sr. Guimarães entrega a Ega as provas irrefutáveis do parentesco entre Carlos e Maria Eduarda.

Mas, como dizia anteriormente, a minha preferida – e, talvez, a mais intensa de toda a obra – passagem dá-se quando Carlos chega ao Ramalhete, a altas horas da madrugada, depois de consumado o incesto e encontra o avô.

Melhor do que eu, o Eça pode explicar a situação:

“Mas, tendo por um só dia dormido com ela, na plena consciência da consanguinidade que os separava, poderia recomeçar a vida tranquilamente? Ainda que possuísse frieza e força para apagar dentro de si essa memória – ela não morreria no coração do avô, e do seu amigo. Aquele ascoroso segredo ficaria entre eles, estragando, maculando tudo. A existência doravante só lhe oferecia intolerável amargor… Que fazer, santo Deus, que fazer! Ah, se alguém o pudesse aconselhar, o pudesse consolar! Quando chegou à porta de casa, o seu desejo único era atirar-se aos pés de um padre, aos pés de um santo, abrir-lhe as misérias do seu coração, implorar-lhe a doçura da sua misericórdia! Mas ai! Onde havia um santo?

Defronte do Ramalhete, os candeeiros ainda ardiam. Abriu de leva a porta. Pé ante pé, subiu as escadas ensurdecidas pelo veludo cor de cereja. No patamar tacteava, procurava a vela, quando, através do reposteiro entreaberto, avistou uma claridade que se movia no fundo do quarto. Nervoso, recuou, parou no recanto. O clarão chegava, crescendo; passos lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete; a luz surgiu – e com ela o avô em mangas de camisa, lívido, mudo, grande, espectral. Carlos não se moveu, sufocado; e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, cheios de horror, caíram sobre ele, ficaram sobre ele, varando-o até às profundidades da alma, lendo lá o seu segredo. Depois, sem uma palavra, com a cabeça branca a tremer, Afonso atravessou o patamar, onde a luz sobre o veludo espalhava um tom de sangue – e os seus passos perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida!”

Para quando um verdadeiro filme, um épico, sobre a família Maia? Haverá romance mais “filmável” do que esse?

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Cultura, Eclipses. ligação permanente.

2 respostas a Os Maias “revisited”

  1. Os bons livros não necessitam de adaptações ao cinema (até porque a maior parte torna-se uma barretada). Quem não gosta de ler que permaneça na ignorância…

  2. Hugo, e quem gostar de adaptações de filmes, ainda que barretadas?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s