Serviço Público

A RTP orgulha-se de ser a estação de serviço público em Portugal, de ser a estação que melhor serve os interesses dos espectadores oferecendo melhores programas, tanto a nível quantitativo como ao nível qualitativo.

A estação de serviço público de televisão portuguesa deve-se preocupar em oferecer um bom serviço de televisão aos portugueses. A todos eles. Ora, aquilo que temos vindo a assistir não pode, seriamente, ser considerado serviço público.

Há pouco mais de uma semana atrás, a RTP dedicou virtualmente toda a sua emissão de Domingo ao concerto em homenagem à Princesa Diana. Pergunto: Qual seria o valor daquele evento para os portugueses? Diana tinha alguma ‘costela’ portuguesa? Teve alguma importância no estreitamento de relações entre a coroa britânica e o Estado português? Ela deu alguma coisa a Portugal? Alguma coisa que justificasse um dia inteiro de emissão, mais a Maria Elisa e o Júlio Isidro e uns quantos convidados nos estúdios?

Não. Não há nenhuma razão objectiva que justifique o interesse de uma estação de televisão pública portuguesa em transmitir em tempo real o concerto em homenagem a uma princesa de um reino que não o seu. Dinheiro foi gasto, recursos mobilizados para nada.

A única justificação plausível são as audiências. A RTP procurou usar a imagem da princesa falecida para saltar uns lugares nas audiências. Será este um móbil de acção válido para uma emissora de serviço público?

Este fim-de-semana a RTP fez uma ‘espécie’ de cobertura do Live Earth. Escrevendo apenas na qualidade de espectador, aquilo a que se assistiu foi a um concerto com bandas portuguesas no Pavilhão Atlântico intercalado com conversa fiada no estúdio e algumas imagens dos palcos internacionais onde o Live Earth ‘acontecia’.

Para além de não perceber qual o critério na escolha dos convidados – estavam lá como críticos de música, peritos no ambiente, eram baratos? – não consigo deixar de ficar indiferente à publicidade enganosa de que fomos sendo alvo ao longo da semana: aquilo a que assistimos não foi ao Live Earth. Digam o que disserem, escrevam o que escreverem, ver o Malato falar das cores dos Ecopontos não é o Live Earth. Para a próxima sejam honestos: se não compraram os direitos na íntegra, não vendam o peixe como se o tivessem feito.

E, claro, o debate de ontem. Doze indivíduos estiveram a tolerar-se uns aos outros, dizendo-se que todos são candidatos à Câmara de Lisboa. Pelo menos foi o que eu percebi. O debate foi de uma inutilidade atroz. Primeiro, porque 12 candidatos é uma coisa quase pornográfica. Colocar 12 pretendentes à liderança do Município numa sala e obrigá-los a apresentar programas – quando nenhum deles os tem – é uma barbaridade. Segundo, porque a mais de 90% dos portugueses aquele debate não servia para nada. Absolutamente nada.

Claro que é importante que os lisboetas escolham o menos mau para Presidente da Câmara. Para isso, precisam de os conhecer e perceber quais são as regras do insulto. Os pequenos de direita atacam o CDS; a esquerda avança sobre o Carmona; o PSD não sabe o que está a fazer ali; e António Costa, futuro presidente, vai formando equipa enquanto os outros discutem se os cafés devem ficar abertos até às 00h00 ou às 2h00.

Mas, para mim que vivo em Braga é, objectivamente, irrelevante saber quem vai ganhar aquelas eleições. Politicamente poderá ter algum interesse de análise, mas na prática é insignificante para mim, para os de Bragança, Viseu ou Évora, para não falar nos Açorianos e Madeirenses. Que a RTP ‘gaste’ o seu prime-time com um debate para a Câmara de Lisboa parece-me de todo despropositado. Ainda para mais quando são 12 e nenhum consegue expor as parcas ideias que tem.

Enquanto emissora nacional, a RTP deve fornecer um serviço que procure agradar ao maior número de ‘gregos e troianos’ possível. O debate para Lisboa poderia ter sido feito à tarde, de manhã ou ao final da noite – em horários menos concorridos. Mas não. Agora, da próxima vez que uma outra Câmara entre num processo de eleições intercalares a RTP também terá de mover uma cobertura tão atenta e resoluta como a que tem feito para Lisboa. É justo.

Para não dizer que daqui a dois anos, aquando das eleições autárquicas, fica com a obrigação de dar tempo de antena a todas as eleições em igual período temporal, ou seja, todas as autarquias e todos os candidatos têm legitimidade para pedirem um debate em horário nobre. Qual a diferença entre Lisboa e Amares? Uns têm mais direito a serem ‘notícia’ do que outros? Mas, Lisboa é a capital – é diferente. Erro. Por exemplo, Barcelos é o concelho com o maior número de freguesias do País. Por que não um debate com os candidatos ao maior município de Portugal?

Ou somos todos iguais ou não. Independentemente da resposta, era bom que a RTP clarificasse os seus critérios. E, domingo à noite não há cinema para ninguém. É dia de eleições… em Lisboa. Não se esqueçam de votar.

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6 respostas a Serviço Público

  1. «A única justificação plausível são as audiências. A RTP procurou usar a imagem da princesa falecida para saltar uns lugares nas audiências. Será este um móbil de acção válido para uma emissora de serviço público?»

    e depois:

    «Enquanto emissora nacional, a RTP deve fornecer um serviço que procure agradar ao maior número de ‘gregos e troianos’ possível»

    Mas então as audiências são ou não o critério que deve nortear a programação da RTP?

  2. colocadas nesses termos as duas afirmações parecem entrar numa profunda contradição. mas não estão.

    como digo, não acredito que as audiências devam nortear a programação da rtp. esta, livre de audiências, dever-se-ia dedicar a uma programação que fosse mais significativa para a maioria dos espectadores potenciais, isto é, os portugueses que pagam os impostos que a sustentam.

    se estes a veriam ou não, isso já seria um outro problema, mas a preocupaçao da RTP nunca poderia ser a concorrência com os privados: a sua preocupação deveria ser em servir um melhor serviço público – sublinho público, para todos os gostos.

  3. O que é que entendes exactamente por «programação mais significativa para a maioria dos espectadores potenciais»?

    Determinar aquilo que é significativo exige um conjunto de informações que só estão ao alcance da própria pessoa à qual a questão se coloca.

    Dou-te um exemplo. Se calhar consideras que um debate entre os candidatos às eleições presidenciais é um programa significativo para todos os espectadores potenciais, e que por isso deve ser transmitido para a tv.

    Mas será significativo para o Joaquim peixeiro?

    Depende. Ele vai considerar vários tópicos: 1) Tendo em conta a minha educação e o nível do discurso utilizado pelos candidatos, será que o debate servirá para me elucidar? 2) Será que o debate tem interesse, uma vez que já defini o meu sentido de voto? 3) Será que vale a pena perder tempo com o debate tendo em conta que a votação é num domingo em que até vou passear com a família? 4) etc.

    Para determinar se um programa tem importância ou não, é preciso considerar uma infinidade de questões pessoais que pura e simplesmente não estão acessíveis ao responsável pela programação. O indivíduo é o único agente capaz de determinar aquilo que para si tem significado/importância.

    Aqui acho que é importante distinguir entre importância/significado de um programa e relevância de um tema. Imagina um Prós e Contras acerca do aquecimento global. O tema é relevante para o Joaquim peixeiro? Sim, mesmo que ele não o saiba – a partir do momento em que vive no Planeta Terra, o Joaquim peixeiro é obviamente afectado pelo aquecimento global.

    Mas o programa em questão terá significado/importância para ele? Tendo em conta que ele provavelmente não irá perceber patavina, que, mesmo percebendo, não tenciona mudar a sua conduta em relação ao ambiente, que o facto de perceber ou não tem pouca relação com a mudança dos comportamentos ecológicos de cerca de 6 biliões de humanos, se calhar o programa não tem grande significado/relevância.

    Aliás, se considerarmos que os programas transmitidos devem ser aqueles cujo conteúdo tem mais relevância, o mais acertado até seria que a RTP passasse a fazer debates acerca do Banco Central Europeu em vez de debates acerca das Eleições Presidenciais – o BCE tem, actualmente, muito mais poderes para influenciar a política interna portuguesa do que o Presidente da República.

  4. Não é preciso ir buscar o exemplo do Joaquim peixeiro. Eu, por exemplo, não gosto muito de ver televisão. Prefiro internet, mas estou a financiar a RTP com os meus impostos… E não me venham dizer que o site da RTP custa tanto a manter como o canal de televisão.

  5. o ponto é simplesmente um: a RTP não pode fazer programação ao sabor de uma ‘significância’ em particular. do dito entendido, expert. é uma televisão mantida por todos nós, logo deve reflectir na sua programação conteúdos que sirvam os gostos da maioria.

    signifca essa declaração truncada muito simplesmente que tanto deverá oferecer programas para o joaquim peixeiro – estilo Preço Certo – como deverá ter programas para o zé advogado e para a avózinha Matilde. É a isso que se chama ‘serviço’ público.

    a questão aqui é simples: obedece a RTP a esses critérios?

  6. Então não obedece? O concerto em homenagem à Diana é um programa do mesmo género do Preço Certo: não tem especial relevância, não é educativo, mas é bom para divertir e passar o tempo. Serviu ao Joaquim Peixeiro – tanto serviu que teve audiências.

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