A competitividade e a falta dela

Portugal não é um país competitivo. Melhor, Portugal não tem uma economia competitiva. E, a ausência de uma tal competitividade no sector económico tem repercussões em todos os sectores sociais, como a educação, a investigação académica e a cultura (entre outros) são exemplo.

Por que acontece isto? Várias razões. A primeira, provavelmente, terá a ver com questões relacionadas com a qualidade da mão-de-obra. Internacionalmente, a força de trabalho nacional é vista como medíocre. Isto aplicar-se-á aos sectores de actividade mais associados ao emprego da ‘força’, pois existe algum reconhecimento internacional em torno da capacidade de trabalho da nossa ‘massa cinzenta’.

Porém, a meu ver, a grande causa da incapacidade produtora de Portugal é o próprio regime laboral. O dito regime é demasiado ‘pró’ trabalhador e demasiado ‘contra’ empregador. Atentamos no seguinte exemplo: o trabalhador X recebe € 1250  mensais. Em Agosto vai de férias. Significa isso que o salário é duplicado – subsídio de férias. Ora isso dá € 2500. Quando regressa de férias, apesar de não ter trabalhado durante o mês, recebe o seu salário por inteiro. Significa isso que são € 1250 para estar estendido na toalha em Albufeira ou a acampar nas matas do Gerês. Quando chegamos a Dezembro volta a receber o salário duplicado. Ora, em termos práticos, isso significa que o indivíduo X recebe salários equivalentes a 14 meses apesar de apenas ter trabalhado 11. São € 17 500 ao final do ano.

Este é o caso do senhor X. Agora, recapitulemos todos os passos e apliquemos os mesmos a todos os indivíduos em idade activa e que se encontram a trabalhar actualmente em Portugal. É uma brutalidade. O Verão tem um custo absurdo para as empresas que têm de pagar salários a dobrar – assim como o Natal. Se numa empresa existe apenas um funcionário, paga como se tivesse dois. Se existem cem, paga (a empresa) como se fossem duzentos.

Com tudo isto, não parece de todo irracional que as empresas quer nacionais, quer internacionais, decidam contra o investimento em Portugal. Ao fim e ao cabo é um investimento avolumado e a qualidade da produção final poderá não justificar o esforço. Para garantir que esse investimento acontece mesmo em Portugal, por várias vezes o Estado vê-se obrigado a ‘auxiliar’ essas empresas por meio de incentivos fiscais e facilidades nos pagamentos para conseguir que o investimento venha para cá.

Contudo, por vezes esse ‘auxílio’ revela-se insuficiente e as empresas fecham. Não aguentam a pesada tributação a que estão condenadas. É um preço demasiado caro. É, aliás, incomportável.

Os salários não são os únicos entraves à competitividade. Por exemplo, o mesmo esquema de pagamento é aplicado às reformas, isto é, também os reformados recebem um valor equivalente a 14 pagamentos por ano. Com tudo isto não há Estado que aguente e tem de ir buscar o dinheiro aos bolsos das empresas. Sobretudo, das Pequenas e Médias empresas.

Para resolver esta questão vejo uma solução: acabar com os subsídios. Os subsídios são prejudiciais à economia e travam o desenvolvimento e são um contra-estímulo à competitividade. Se o empregado X em vez de receber 14 vezes um salário de 1250 euros, recebesse 12 salários de € 1500 cobraria no final do ano € 500 mais do que no actual sistema. O empregado ganha mais dinheiro, e a empresa consegue alguma estabilidade e capacidade de previsão de gastos futuros. Aliás, o empregado X poderia manter o mesmo salário de € 1250 euros que seria enriquecido por bónus inerentes ao alcance de certos objectivos estipulados – o ‘tal’ contrato por objectivos.

Para além disso, a concessão de um mês de férias a todos os trabalhadores com um ano de casa é pernicioso. Se partíssemos de um sistema mínimo de duas semanas de férias pagas por ano, o ritmo da produção aumentaria, as empresas facturariam mais e teriam mais possibilidades para pagar salários mais elevados – seria aqui que as empresas angariariam o dinheiro ‘extra’ para colmatar o aumento bruto do salário.

A obtenção de mais dias de férias poderia ser com base no mérito – por exemplo, definir no contrato de trabalho que à obtenção anual de certas metas de trabalho estão associados mais dias de férias – ou por acumulação de um ano por outro ou, por fim, com base nos anos de casa. Também a atribuição de bónus aos trabalhadores em função do cumprimento de metas de trabalho seria uma possibilidade.

Os sindicatos, claro, não se poupariam em esforços para contestar este ‘ataque’ ao trabalhador. Mas, se em vez de dedicarem o seu tempo à ociosidade e a comentários que têm tanto de ignorância como de burrice, talvez prestassem um serviço melhor aos trabalhadores e ao país. Por esta ordem.

O actual regime laboral em Portugal é arcaico e contra natura. Num Mundo globalizado, onde a China e a Índia são já ali ao lado, Portugal precisa de modernizar as suas estruturas produtivas e apanhar o comboio. Caso o não faça, é bom que nos habituemos à cauda da Europa pois dela não sairemos. Esteja quem estiver no governo.

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13 respostas a A competitividade e a falta dela

  1. «Quando chegamos a Dezembro volta a receber o salário duplicado. Ora, em termos práticos, isso significa que o indivíduo X recebe salários equivalentes a 14 meses apesar de apenas ter trabalhado 11. São € 17 500 ao final do ano.»

    O salário anual acaba por ser o mesmo. Quando o Governo determina que tem de haver subsídio de férias as empresas reagem diminuindo os salários. Se o subsídio de férias fosse eliminado, os novos contratos incorporariam essa alteração subindo as remunerações. No final, o salário em termos de rendimento/horas de trabalho seria o mesmo.

  2. Rui Rocha diz:

    “Internacionalmente, a força de trabalho nacional é vista como medíocre. Isto aplicar-se-á aos sectores de actividade mais associados ao emprego da ‘força’, pois existe algum reconhecimento internacional em torno da capacidade de trabalho da nossa ‘massa cinzenta’.”

    Actualmente, muitas empresas vêm para Portugal porque pagam relativamente pouco pela mão-de-obra que contratam. O problema não está nos trabalhadores braçais, mas mais nos intelectuais, e além disso a grande característica objectora do investimento industrial em Portugal é a elevada carga tributária e subsidiária.

  3. “O salário anual acaba por ser o mesmo.”

    a ideia passa um pouco por aí. a diferença é que é um custo perfeitamente calculado no início de cada ano sendo mais fácil/prática a contratação exactamente porque o empregador pode prever melhor os custos que vai ter com o empregado, assim como o rombo é menor para os seus cofres. Imagina, numa fábrica, num mês de trabalho pagar o dobro dos salários com metade das encomendas. para além do facto de que se cada trabalhador produzir mais, os ganhos da empresa aumentam e o peso dos salários diminui – pode-se perfeitamente conciliar o aumento real do salário.
    e, já agora, não faz mais sentido receber um salário por cada mês de trabalho, em vez de dois salários a mais? não preferiria o trabalhador ganhar mais por mês? não se queixam os tais ‘sindicatos’ de que os salários são baixos? não poderíamos, por exemplo, apoiar o Governo numa política de incentivo à poupança das famílias – ‘ for a rainy day…’

    “muitas empresas vêm para Portugal ”
    quantas foram as empresas ‘novas’ a virem para Portugal nos últimos anos? se estiveres com atenção, verás que não pagam relativamente pouco pela mão-de-obra. pelo contrário, a nossa mão-de-obra é mais cara e não mais produtiva do que a da Europa de Leste ou mesmo da índia e China.

    ” a grande característica objectora do investimento industrial em Portugal é a elevada carga tributária e subsidiária.”
    pois, isso foi o que eu disse.

  4. O rombo não é menor para os cofres da empresa; o rombo é exactamente o mesmo, só que dividido por 12 prestações em vez de 14.

    Mas claro que sou a favor do fim do subsídio de férias, por exemplo. Não porque prejudique a situação do trabalhador, porque não prejudica (claro que ganhariam maiores salários mensais, mas também ganhariam menos meses…), mas porque é uma forma de enganar o próprio trabalhador.

  5. P.S.- Não sei como é a variação da produtividade média na relação Portugal/China; mas no caso dos têxteis, por exemplo, a produtividade portuguesa é cerca de 3 vezes maior do que a chinesa. E os nossos salários já são baixos o suficiente (os mais baixos da Europa, por exemplo). A competição internacional não se pode fazer através dos abaixamentos salariais mas sim através da reestruturação do tecido produtivo.

  6. “O rombo não é menor para os cofres da empresa; o rombo é exactamente o mesmo, só que dividido por 12 prestações em vez de 14.”
    pode ser igual, inferior ou superior. dependeria do acordo antre empresa e trabalhador. poderiam ser salários mais baixos e recorrer-se a iniciativas outras – o contrato por objectivos – para os aumentar. o que se procura é aumentar a produtividade, os ganhos da empresa e do trabalhador e não perpeturar uma situação de engodo permanente quer de um, como de outro.

    “mas também ganhariam menos meses”
    um ano tem 12 meses. agora ganham é meses a mais.

    “A competição internacional não se pode fazer através dos abaixamentos salariais mas sim através da reestruturação do tecido produtivo.”
    claro. dessa reestruturação faz parte, obviamente, uma reforma do regime laboral.

  7. «pode ser igual, inferior ou superior. dependeria do acordo antre empresa e trabalhador. poderiam ser salários mais baixos e recorrer-se a iniciativas outras – o contrato por objectivos – para os aumentar (…) um ano tem 12 meses. agora ganham é meses a mais»

    Não é isso (ou pelo menos acho que não é isso, se entendi bem o que querias dizer). Quando a legislação obriga ao aumento do número de meses de salário, as empresas reagem diminuindo os salários de forma a que o salário real continue o mesmo – o salário de equilíbrio. Foi só isto que eu disse.

  8. Só uma achega: as empresas já fazem o cálculo da distribuição dos 14 ordenados pelos 12 meses, ou seja, calculam como se fosse efectuada a proposta do Phillipe (12 ordenados mais altos) mas no fim pagam em 14 ordenados mais baixos para não existirem sobressaltos a meio do ano. E, sinceramente, acho que os trabalhadores preferem a estratégia dos subsídios porque, como já é sobejamente sabido, as pessoas têm um problema grave com o conceito “poupança”. Basta ver os níveis de endividamento de muitos países…

  9. “Foi só isto que eu disse.”
    claro que sim. porém, não deixa de ser possível considerar que se a carga fiscal e tributária fosse mais baixa e leve para as empresas – findos subsídios e demais – os salários reais seriam mais elevados.

    hugo,
    “as empresas já fazem o cálculo da distribuição dos 14 ordenados pelos 12 meses, ou seja, calculam como se fosse efectuada a proposta do Phillipe (12 ordenados mais altos) mas no fim pagam em 14 ordenados mais baixos para não existirem sobressaltos a meio do ano.”
    pois, porém o facto de saberem que em Agosto (mês lento por natureza) e Dezembro têm de pagar a dobrar, os empresários pensam duas vezes antes de contratar novos funcionários, pensam várias vezes antes de tomar uma medida de investimento e pensam ainda mais vezes antes de aumentar salários.

    “E, sinceramente, acho que os trabalhadores preferem a estratégia dos subsídios porque, como já é sobejamente sabido, as pessoas têm um problema grave com o conceito “poupança”. Basta ver os níveis de endividamento de muitos países…”
    acredito que o fim dos subsídios iria aumentar as necessidades de poupança nas pessoas. e repara que Portugal é dos poucos países que continua a pagar os 14 meses. Na UE é caso raro, e a nível internacional mais ainda. Nos EUA, por exemplo, não existem subsídios – haverá um bónus de Natal, mas apenas se a empresa ultrapassar os objectivos proprostos – e para se ter mais do que duas semanas de férias os trabalhadores têm duas opções: ou guardam os dias de anos anteriores, ou trabalham durante 10 anos para terem três semanas e 20 para terem um mês. Trabalham mais, mas também ganham salários mais altos e a situação de emprego é menos precária.

    Que te parece melhor?

  10. Não vás por aí. A situação de emprego é, de facto, precária devido ao problema que expuseste. Mas, essa falta de competitividade não se deve, acho eu, a este factor dos subsídios. Parece-me um problema menor. Além disso, podes ver as taxas de endividamento das famílias nos EUA e reparar que nem tudo é um mar de rosas. O principal factor para a fraca competitividade portuguesa é a falta de formação do patronato que não adopta modelos eficientes de gestão. Estivemos a discutir isso aqui: http://onumeroprimo.wordpress.com/2007/08/06/resposta-do-dia-i/#comment-360

    Se nas aulas de Sociologia nos diziam que um trabalhador no Luxemburgo produzia em dois dias tanto como um trabalhador português nos 5 dias da semana (2,5x mais produtivo) é porque algo está mal. E não tem só a ver com o trabalhador…

  11. «O principal factor para a fraca competitividade portuguesa é a falta de formação do patronato que não adopta modelos eficientes de gestão. Estivemos a discutir isso aqui»

    Estivemos, mas não foi isso que eu (pelo menos) defendi 😛

  12. Eu devia ter escrito “um dos principais” 😛

    Também há os impostos altos, a regulamentação excessiva, etc etc…

  13. Lol acho que não percebeste o propósito do post 😉

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