A ouvir… não a ver

A minha primeira experiência cinematográfica em Manchester não foi a mais auspiciosa. O filme escolhido foi o mais recente musical da autoria de Julie Taymor, chamado “Across the Universe”. A razão que me levou a ver a dita película foi simples: a banda sonora, inteiramente composta por músicas dos Beatles, ainda que interpretadas pelos actores e convidados – entre os quais, Bono Vox e Joe Cocker.

Mas, o aspecto interessante do filme acaba aí. E é pena, porque até tem boas ideias e tem um bom início. Porém, a dada altura a história perde-se, sente-se a falta de um fio condutor e nem o bastante seguro Mathew Gross é suficiente para aguentar o navio.

Jude (Mathew Gross), natural de Liverpool, parte para os EUA e conhece Max, um rebelde e inconformado estudante em Princeton. Tornam-se amigos e Max leva o seu comparsa britânico a sua casa para passar o Dia da Acção de Graças. Lá, Jude conhece Lucy (Evan Rachel Wood), irmã de Max.

Até aqui tudo bem. O problema é que a intenção da realizadora em fazer um louvor da mensagem dos anos 60 se perde depois disso e entramos numa rede de clichés e lugares comuns que não ficam nada bem.

Podemos perdoar o facto de o par amoroso se chamar Jude e Lucy (jogo entre duas das mais conhecidas faixas do quarteto de Liverpool, Hey Jude e Lucy in the sky with Diamonds) e até achar alguma piada ao facto de todas as personagens femininas, para além de Lucy, terem nomes cantados pelos Beatles – Sadie, Prudence e Rita. Mas, quando há uma desnecessária e excessiva colagem da personagem de JoJo (Martin Luther McCoy) a Jimi Hendrix, uma incoerente sequência musical, uma cópia desgarrada e evitável da célebre actuação dos Beatles no topo do prédio da Apple Rcords enquanto tocavam “Don’t Let Me Down” e uma (surpreendente?) fraca Evan Rachel Wood enquanto activista anti-guerra, começa-se a perder a paciência.

Os cameos de Bono, Joe Cocker,Eddie Izzard e Salma Hayek são pontos interessantes de um filme que na sua globalidade nunca ultrapassa o medíocre e o vulgar. A relação entre Jude e Lucy nunca consegue cativar o espectador, a química é fraca e a sua cena mais íntima não deixa de parecer uma imitação do momento partilhado entre Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, quando este desenha o reatrato de Rose a bordo do Titanic de James Cameron.

Se a intenção da realizadora era um filme e evocar o legado musical da década de ’60, não se poderia ter restrito aos Beatles enquanto banda sonora, ainda por cima quando, por exemplo, tributos à memória de Jimi Hendrix e Janis Joplin estão em frente do espectador.

Mas, por outro lado, se a vontade era fazer uma declaração de amor aos Beatles, demonstrando como a sua música marcou o Mundo, como está carregada de amor, de mensagens pacifistas e como pode unir pessoas de Mundos diferentes, então também este intento acabou por ser defraudado, pois o filme passa por um enorme e multi-color videoclip dos “fab four”.

Mas, filme teve uma consequência positiva. Assim que cheguei a casa, deu-me uma vontade enorme de ouvir Beatles, e de me deliciar com a poesia de Lennon, McCartney e Harrison. Ok, e do Ringo também.

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2 respostas a A ouvir… não a ver

  1. cláudia lomba diz:

    ainda hoje falei neste filme! independentemente de tudo, pensar que vou passar duas horas numa sala de cinema a ouvir beatles já não me parece nada mal, por isso.. venha ele. 🙂 e a versão da “i want you (she’s so heavy)” pareceu-me muito bem. **

  2. sim, a versão dessa faixa está muito bem. Assim como o “I Want to hold your hand”, “Let it Be”, “A little help from my friend” e a “Something”. A questão é que tudo o resto é fraco e não há um elemento cativador sobre o público em todo o enredo.

    o melhor é a música, e para ouvir Beatles mais vale ouvi-los como deve ser. Apagar as luzes do quarto, tirar o Revolver da caixa e colocá-lo no leitor e desaparecer para o Mundo mágico dos fab four.

    Bem melhor do que ver o Bono a fazer de Doctor Roberts 😉

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