Oh my God

200px-creation_of_the_sun_and_moon_face_detail.jpgO sempre presente tema da existência, ou não, de Deus tem vindo a marcar cada vez mais a agenda da blogosfera. São cada vez mais os bloggers que discutem o que é Deus, se existe ou não e, a existir, que tipo de forma assumiria. Física? Espiritual?

Seria fácil remeter para esta questão uma resposta lacónica como esta: “Deus existe para quem acredita. Para quem não acredita, não existe.” Não concordo nem um pouco com essa visão.

Ora, acho que se alguma coisa existe devem haver provas que consubstanciem essa mesma existência. Não podemos cometer o erro, repetido ciclicamente ao longo da história do homem, de acreditar em algo sem quaisquer provas que o rectifiquem. Exactamente por isto, e pela Igreja Católica ter estado por detrás de alguns dos maiores engodos da nossa história, a existência de Deus é, cada vez mais, posta em causa.

O primeiro ponto a referir é que ‘Deus’, a Instituição Divina máxima, não é uma representação exclusiva da religião católica. De facto, católicos, judeus, muçulmanos (as religiões vindas de Abraão) e muitas outras acreditam todos na existência de um só Deus. Por isso, os argumentos para justificar a sua presença são repartidos por profetas e pensadores ligados a cada uma dessas correntes de fé.

Os muçulmanos acreditam na existência de um só Deus, Allah. No livro sagrado, Deus é referido como sendo “o único criador e Senhor de todo o Universo”. Os judeus acreditam que Deus representa o píncaro da natureza divina. Para os católicos, Deus é o ser absoluto, senhor do dom da omnisciência, omnipotência, omnipresença, bondade perfeita, simplicidade divina e uma existência eterna e necessária.

Mas, como provar que Deus existe? Milhões de crianças também acreditam no Pai Natal e no Coelho da Páscoa, mas nem por isso essas duas figuras usufruem de uma existências concreta e palpável. São meras ficções. Invenções comerciais.

Ao longo da história, vários teólogos e pensadores apresentaram diferentes concepções de Deus. Por tudo isto, não há um claro consenso em relação ao conceito de Deus. A maioria das abordagens apresenta a figura de Deus como um ser poderoso, com forma humana, sobrenatural, cujos desígnios nós não somos capazes de compreender.

Gosto mais da definição do filósofo Michel Henry, que apresenta uma visão fenomenológica de Deus: “Deus é Vida, ele é a essência da Vida, ou, se preferirmos, a essência da Vida é Deus. Dizendo isto já sabemos o que Deus é, e sabemo-lo não por via de um qualquer conhecimento adquirido, nem por pensamento no fundo do pano da verdade do Mundo; sabemo-lo e apenas podemos sabê-lo pela própria Vida. Apenas podemos sabê-lo em Deus.”

É de realçar que Vida aqui significa a absoluta “vida fenomenológica” que, como diz Henry, se caracteriza por ser uma vida imanente que possui o poder de se mostrar a si mesma sem ter de sair de si. Como argumenta o filósofo, “Deus é a Revelação pura que revela nada mais para além de si mesmo. Deus revela-se a si próprio. A Revelação de Deus é a sua própria revelação.” Portanto, Deus é a Revelação primária que deu origem à Vida. Como diz o profeta João, “Deus é Amor, porque a Vida ama-se a si própria num amor infinito e eterno”.

Logo, a nossa vida é uma consequência directa e continuada da Vida gerada por Deus, pois ele não cessa de nos dar vida. Significa isto que Deus criou-nos aquando da nossa concepção ou no princípio do Mundo, mas que ele nunca cessa de gerar Vida dentro de nós, e que ele está continuamente presente nas nossas acções e comportamentos do dia-a-dia. Por mais subjectivo que esse comportamento ou pensamento seja, Ele está lá.

Deus existe porque é a essência de tudo, é o criador da Vida e enquanto existir vida, existe a noção exacta de que existe Deus, pois ele é o responsável por essa mesma Vida. A este respeito, recentemente surgiu uma corrente de pensamento, intelligent design, que suporta esta ideia, sublinhando que “certas características do Universo e dos seres vivos são melhor explicadas por uma causa inteligente, não um processo acidental de selecção natural”.

A melhor explicação para a existência de Deus não é dogmática, nem autoritária. É, pelo contrário, bastante racional e lógica: Se aceitarmos o facto de que a Vida existe, então reconhecemos que ela é o produto de desenho ou desígnio de uma entidade superior que traçou as regras e dirigiu os acontecimentos. Esse ‘arquitecto’ responsável pela criação e construção do Universo é Deus.

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9 respostas a Oh my God

  1. «A melhor explicação para a existência de Deus não é dogmática, nem autoritária. É, pelo contrário, bastante racional e lógica: Se aceitarmos o facto de que a Vida existe, então reconhecemos que ela é o produto de desenho ou desígnio de uma entidade superior que traçou as regras e dirigiu os acontecimentos. Esse ‘arquitecto’ responsável pela criação e construção do Universo é Deus.»

    Não, é produto de evolução darwinista. Que não precisa de um arquitecto. Referências:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Portal:Evolu%C3%A7%C3%A3o

    e especialmente:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Relojoeiro_Cego

    Ah, e o Intelligent Design é das maiores patranhas que já ouvi. Um dia destes faço um post acerca disso.

  2. Dizer que Deus existe não implica refutar e condenar todas as descobertas feitas pela ciência.

    por exemplo, a teoria biológica da selecção natural de Darwin não é menorizada ao dizer-se que Deus existe. Pelo contrário, é enaltecida.

    repara que dizer-se que Deus é o tal ‘arquitecto’ da existência humana é, na verdade, dizer-se que foi ele quem traçou os planos para a Vida no planeta. o facto de darwin ter trabalhado e apresentado a sua teoria em nada contradiz esse facto. aliás, realça-o e mostra quão complexa e verdadeiramente impressionante é a nossa realidade – realidade essa proporcionada pelo desígnio divino.

    não vejo como pelo facto de admitir a teoria da selecção natural esteja a refutar Deus, nem o contrário. não há nenhuma conclusão darwinista que nos leve a irremediavelmente excluir Deus da vida humana; pelo contrário, há indícios de um plano soberbamente complexo e minucioso que permitiu o evoluir das relações entre todos os seres vivos do planeta

  3. Vou responder separadamente porque há questões diferentes em jogo:

    1. «Dizer que Deus existe não implica refutar e condenar todas as descobertas feitas pela ciência»

    Pois não. Mas o Intelligent Design em concreto é uma teoria completamente contrária ao Darwinismo. Está contra o mecanismo de selecção natural, desconfia dos mecanismos genéticos de transmissão hereditária e por aí fora.

    E esta é a parte soft. O Intelligent Design afirma ainda que a Terra tem mesmo os poucos milhares de anos que a Bíblia afirma ter, rejeita que os fósseis sejam reminescências de animais antigos (não houve dinossauros) e nega qualquer relação filogenética entre grupos de animais. 90% da Física, da Biologia e da Química do século XX é contraditória com o Intelligent Design.

    2. «pelo contrário, há indícios de um plano soberbamente complexo e minucioso que permitiu o evoluir das relações entre todos os seres vivos do planeta»

    O Darwinismo baseia-se exactamente na inexistência de um plano. É uma teoria estruturalista que explica como é que a complexidade da vida biológica emerge naturalmente de processos espontâneos (e com base em eventos aleatórios como mutações). O ponto fulcral da teoria é que não há plano! 🙂

    3. «não vejo como pelo facto de admitir a teoria da selecção natural esteja a refutar Deus, nem o contrário.»

    A Selecção Natural não refuta Deus porque é impossível refutar Deus. Como é que eu provo que algo não existe? Como é que provo que não há um Michael Jackson no outro lado do Universo a dançar hip-hop?

    É simples: não se prova. Por isso é que o ónus da prova reside sempre em quem tenta provar a existência de algo. Se eu acreditar em Hércules não posso dizer que ele é verdadeiro até que alguém prove que ele é falso; tenho de ser eu a procurar evidências da sua existência.

    O meu ponto é este. A Selecção Natural não refuta Deus; mas refuta o Intelligent Design, que era o teu argumento a favor da sua existência. Ou seja, se o quiseres provar tens de escolher outro caminho 😉

  4. 1 – “Intelligent Design ”
    Eu não fiz uma defesa do intelligent design. referi um ponto da sua ideologia. concordo com esse ponto. não disse que concordava com o resto da teoria.

    afirmar que adão e eva foram os primeiros habitantes não é defender a bíblia. é ser-se ignorante.

    2- “O Darwinismo baseia-se exactamente na inexistência de um plano. É uma teoria estruturalista que explica como é que a complexidade da vida biológica emerge naturalmente de processos espontâneos (e com base em eventos aleatórios como mutações). O ponto fulcral da teoria é que não há plano!”

    naturalmente. porém, o meu ‘plano’ não era esse plano. o plano divino que acredito ter sido traçado é o tal que permite os “processos espontâneos” de que falas. para quem acredita, como eu, esses processos não são puramente espontâneos. existem porque ‘alguém’ permitiu que exisitissem. se quiseres, alguém imprimiu no ADN de determinada espécie a capacidade de acção ‘x’ que conduziu à consequência ‘y’.

    3- “A Selecção Natural não refuta Deus porque é impossível refutar Deus. Como é que eu provo que algo não existe? ”

    claro. tem-se de atestar a existência de algo para depois se colocar esses achados em causa. por isso, recorri à fenomenologia de henry. por isso reproduzi as suas conclusões. deus é o instrumento responsável pela vida; pela criação de condições para a existência da vida. dizer isto, não só não coloca em questão qualquer verdade científica como implica que o reconhecimento da existência de vida esteja associado a alguém que determinou as condições para que essa vida fosse possível.
    para mim, esse alguém é deus. outros lhe chamarão outra coisa.

    4 – “A Selecção Natural não refuta Deus; mas refuta o Intelligent Design, que era o teu argumento a favor da sua existência. Ou seja, se o quiseres provar tens de escolher outro caminho”

    em cima creio já ter esclarecido este ponto. não procurei fazer apologia do intelligent design. se o fiz, ou se pareceu que o fiz, não era essa a intenção. a minha ideia era fazer uma defesa inteligente da possibilidade da existência de Deus que não passasse nem pelo argumento da ‘fé cega’, nem pelo biblico da criação do Mundo em 7 dias.
    para o fazer, apresentei uma teoria que encontra em deus a base de toda a vida. Base = criação. Responsável, desde logo, pelo universo, pelas explosões das estrelas, pela criação dos diferentes sistemas planetários and so on..
    se calhar, para aceitar esta visão, é preciso ter alguma fé. fé nestas conclusões e demonstrações. mas, para chumbar estas observações tem é preciso ter-se fé. Fé na inexistência de Deus.

    ao fim e ao cabo, estamos numa encruzilhada e para sair dela trata-se sempre de uma questão de fé. Eu tenho fé que Deus existe, para além de acreditar nas provas científicas que o suportam. tu, tens fé que Deus não existe, baseado exactamente em outras tantas conclusões de igual legitimidade científica. a prova dos nove não vai ser tirada aqui. nem nos cabe a nos fazê-lo.

    fé = crença, convicção em alguém ou alguma coisa;

  5. Hmmmm… assim não vamos lá. Vou fazer um post. 😉

    Abraço

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