Oh my God – a contra-resposta

Nota prévia: Este escrito surge na qualidade de resposta/comentário ao post presente aqui, da autoria do meu camarada Pedro Romano. Aliás, já esse artigo aparecia na qualidade de interpretação dele a este postal aqui publicado.

Comummente, não se tenta, porque não se pode, provar a inexistência de algo. Se algo não existe, não pode ser desmentido. Simplesmente, não existe. Pelo contrário, se algo tem uma existência concreta, pode ser discutido e escrutinado.

Este raciocínio, perfeitamente lúcido e racional, não se concretiza quando nos colocamos perante a questão da existência de Deus. Aqui, neste contexto específico em que a razão encontra as forças irresistíveis que são a religião, a fé e a crença dogmática, não se pretende provar que Deus existe, mas tenta-se a todo o custo comprovar a sua inexistência. Argumento mais usado? “Quando me bater à porta, eu acredito.”

A relação entre ciência e religião não é, nem nunca foi, pacífica. O método científico traça como ideal a abordagem objectiva, calculista e descritiva do universo natural, físico e material. O ‘método religioso’, se quisermos, é mais subjectivo, autoritário, dogmático, fomenta a crença no sobrenatural, na experiência individual e em observações, não necessariamente testadas, sobre o Universo.

Apesar de uma relação conflituosa, religião e ciência têm-se influenciado mutuamente. John Polkinghorne estabelece quatro tipos de interacção entre a ciência e a religião: Conflito, quando uma disciplina se imiscui nos assuntos da outra; Independência, tratamento diferenciado que uma faz da outra; Diálogo, que sugere que cada uma pode apresentar alternativas de solução para problemas da outra; Integração, numa tentativa de unificação dos pensamentos de ambas.

A propósito de Deus, o biólogo britânico Richard Dawkins revelou que a existência de Deus é uma ‘questão empírica’, sustentando que um “universo com um Deus seria completamente de um universo sem um Deus, e isto faria uma diferença científica”.

O paleontólogo americano Stephen Jay Gould apresentou o conceito de Non-Overlapping Magisteria (NOMA) para resolver as diferenças entre Deus e a ciência, que ele classificou como sendo uma “abençoadamente simples e inteiramente convencional resolução para o aparente conflito entre a ciência e a religião”.

Para Gould, questões relacionadas com o sobrenatural, tais como as relacionadas com a existência de Deus, não são empíricas e são, por isso, do domínio da teologia. O método científico deve ser usado para responder a quaisquer questão empírica sobre o Mundo natural, e a teologia deve-se debruçar sobre o significado da nossa existência e sobre os valores morais.

Ciência e religião não são doutrinas contraditórias. É perfeitamente possível acreditar em ambas ao mesmo tempo, pois ambas se debruçam sobre questões e matérias diferentes. Quando pretendemos obter respostas sobre o Mundo físico, devemos procurar as respostas na ciência; quando, pelo contrário, o objecto da nossa pesquisa é espiritual, então, sem receios nem temores devemos ir à procura da teologia.

Apresentar como argumento principal para refutar a existência de Deus a ausência de uma forma física, não é um argumento sério. A explicação da existência de Deus não tem de ser fornecida pela ciência porque, pura e simplesmente, não é uma matéria do seu domínio. Porque não? Porque é uma questão espiritual.

Não se trata pois de rejeitar a ciência. Ela existe e é extremamente útil ao homem, facilitando e melhorando a nossa vida no dia-a-dia. Não se pode é, porém esperar que ela resolva todos os nossos problemas. Alguns, teremos de ser nós a resolver por nós mesmos, não adiantando pendurar nos braços da ciência as nossas esperanças de clarificação.

Mas, tal como existe quem não acredita na teologia, há quem não concorde com efeitos da ciência. Aliás, um dos princípios do método científico é a rejeição de qualquer verdade absoluta, pois alguma coisa apenas é verdadeira enquanto não for refutada. Assim sendo, nenhum conhecimento possibilitado e oferecido pela ciência pode, sem dúvidas, ser aceita como definitivo. A sua realidade pode mudar, transformar a qualquer instante.

Mas, acreditar em Deus não pode obedecer a este critério – mais uma forma de ver que não se trata de uma disciplina científica. Não podemos acreditar hoje, e desacreditar amanhã. Ao que respeita a existência de uma força divina a teologia oferece-nos respostas concretas. Deus existe, e as provas para isso encontramo-las todos os dias. Deus criou a Vida.

O que é, então, a Vida? É a condição que opera a distinção entre organismos de objectos inorgânicos, sendo o metabolismo, a reprodução e a capacidade de adaptação a diferentes ambientes tudo atributos que diferenciam uns dos outros. E todas estas transfigurações são possibilitadas por Deus, pois ele está na origem de tudo.

E, quando a palavra ‘fé’ é usada para classificar a crença nessa realidade não é usada como escudo, nem como bunker. Simplesmente, como palavra de confiança. Existe uma segurança e firmeza na convicção de quem acredita em Deus, que ultrapassa em muito a fasquia da “fé cega”.

Aliás, a ‘fé em Deus’ não é diferente da ‘fé na ciência’. A natureza dessa fé, digo. Isso porque representa a crença numa situação com base em argumentos apresentados e discutidos.

Por tudo isto, tenho de apresentar a minha discórdia face a alguns dos vários pontos, e reflexões, levantadas pelo meu amigo coxo. Objectivamente falando, provar a existência de Deus não obedece aos mesmos critérios da demonstração da teoria da relatividade, pois esta obedece aos critérios de avaliação e exame científicos; enquanto que Deus, e a questão da sua existência, não podem ser discutidas pela ciência, pois não é uma questão empírica. É, antes, uma matéria de espírito. De reflexão.

Deus está em nós, ele vive connosco. Para o ‘vermos’ não precisamos que ele toque à campainha; basta que tenhamos noção daquilo que nos rodeia. Deus está lá.

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