Longe vão os dias do Império

O Dalai Lama passou por Portugal em Setembro. O governo Sócrates, embaraçado, recusou-se a receber oficialmente o líder espiritual do Tibete. Razão? Receio de uma qualquer reacção enfurecida e enraivecida da China – cada vez mais, um parceiro comercial, económico e diplomático de relevo.

Ora, esta semana, o mesmo Dalai Lama vai passar pelos EUA e, para além das habituais conferências e palestras, vai ser recebido oficialmente por George W. Bush e condecorado com a mais alta distinção que pode ser atribuída a um civil naquele país: a Medalha do congresso.

A China, claro, fez birra. Já anunciou que não poderá participar numa reunião diplomática, por motivos técnicos, cujo objectivo era discutir os passos a tomar após a decisão de Teerão em cooperar com a comunidade internacional no que diz respeito às armas nucleares. Porém, pouco mais vai fazer em relação a isto. O capricho chinês não vai durar porque não interessa a Pequim uma desavença com Washington.

Bush comunicou há duas semanas atrás ao presidente chinês, Hu Jintao, a vinda do Dalai Lama e a sua condecoração, ao mesmo tempo que assegurou que irá estar presente nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008. Jogo de concessões.

José Sócrates preferiu, em vez de contactar Pequim, ignorar a vinda de Dalai Lama. Em termos conjunturais, o Estado com a presidência da UE ficou com a imagem manchada. É feio não receber um Prémio Nobel da Paz. Dá mau aspecto, assim como dá mau aspecto acolher em Lisboa um ditador e assassino, como é Mugabe

O episódio com o Dalai Lama só revelou a pequenez da nossa visão diplomática da panorâmica das relações internacionais. Não recebemos o Dalai Lama, mas estamos a preparar a Europa para se sentar à mesa com Robert Mugabe, um déspota e opressor tirano africano.

Gordon Brown já afirmou contundentemente: Nenhum membro do Governo britânico se vai sentar à mesma mesa que Mugabe. Hoje, de Praga já vieram vozes de apoio à medida britânica e a intenção em imitá-la. E, agora, que vai fazer Sócrates?

A cimeira Europa-África é a marca que Sócrates quer dar à presidência portuguesa da União – talvez, até, mais do que o tratado Constitucional. Agora, a viabilidade e eficácia da mesma se encontra afrouxada, pois se um membro como o Reino Unido se recusa a participar dá conta de uma fractura na UE que poderá não ser sarada, qualquer que seja o caminho seguido na reunião.

É altura de tomarmos uma posição de força; altura de levantarmos a voz e fazer valer os nossos direitos enquanto membros de plenos direitos da EU e actuais presidentes da União e decidirmos o que vamos fazer: Ou se contacta Londres e, ao mais alto nível, se convence Brown da fundamental importância da reunião com África e como é importante que a Europa se mostre unida e a uma só voz – mesmo que essa voz seja de oposição e crítica à ditadura no Zimbabué – ou, por outro lado, sujeitamo-nos a acolher um líder como Mugabe, dando o peito às balas no que diz respeito às críticas que vamos receber da comunidade internacional. Mas, pelo menos, que se tome uma decisão coerente e consistente.

Para além disso há um problema maior, pelo menos para mim: Então, Portugal não recebe o Dalai Lama, o homem não faz mal a uma mosca, e deita-se com Mugabe? Que razão pode servir para receber um e ignorar o outro? A ‘legitimidade’ do poder de Mugabe?

Ou eu muito me engano, ou dos tempos do Império, politica e diplomaticamente falando, não sobrou muito. Talvez algumas caravelas. Agora, a coragem e a força política, essa, desvaneceu-se. Aliás, tão desvanecida que está que quase nem se vê.

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