A Palavra segundo as Escrituras

Para aqueles que andaram menos distraídos, nos últimos tempos tive uma alegre discussão com o meu amigo Pedro Romano sobre Deus e se sobre tal figura existiria, ou não, e qual o seu papel, se algum, na história da civilização. Como a animada altercação chegou àquele ponto em que se estava a ‘chover no molhado’, resolvi não continuar directamente esse debate, mas levantar à baila uma outra questão que ficou mal resolvida ao longo dessa conversa: A Bíblia. Melhor, o que é e o que significa a Bíblia.

A Bíblia é a compilação dos textos sagrados da religião judaica e cristã. Esses textos podem ser de valor histórico, conter as tradições sagradas ou, simplesmente, mitos.

Para os cristãos, a Bíblia encontra-se dividida em 2 livros: o Antigo e o Novo Testamento. O Antigo Testamento corresponde à versão judia da Bíblia, chamada Tanakh. Os 27 Livros do Novo Testamento descrevem a pregação de Cristo e dos seus discípulos, assim como relatam os acontecimentos antes, durante e depois da crucificação e ressurreição de Cristo.

Ora, um pouco como nos partidos políticos existem sempre alas mais conservadoras e outras mais liberais, também na religião encontramos grupos mais tradicionalistas e outros mais inovadores e adeptos da mudança.

A ala conservadora da religião, refiro-me ao judaísmo ortodoxo e ao fundamentalismo cristão, acredita na infalibilidade e absoluta certeza da mensagem da Bíblia, assim como dos acontecimentos por ela narrados. Alguns dentro desta corrente argumentarão a total e absoluta certeza da Bíblia, concedendo-lhe a razão na maioria das suas reclamações históricas e que nem tudo na Bíblia deve ser tomado à letra – existem casos óbvios de alegorias e parábolas.

A outra ala é a liberal. Esta sublinha a importância da mensagem moral e dos valores transmitidos pela Bíblia. Argumentam que a Bíblia é um documento importante, que tem de ser interpretado no contexto social, cultural, geográfico e político do tempo em que foi composta. A maioria dos adeptos desta corrente refere os episódios da criação como sendo simbólicos e alegóricos, intencionalmente simplificados para serem compreendidos pelas pessoas daquele tempo. Por exemplo, a corrente liberal de dentro do judaísmo não consente que exista uma única interpretação da Bíblia – aceita que diferentes indivíduos tenham diferentes interpretações do Livro Sagrado.

Tradicionalmente, têm sido formados dois grupos de análise da Bíblia: uns, que argumentam a exactidão do texto; outros, defendem que o mesmo deve ser interpretado de forma mais livre, fugindo à aceitação dogmática do mesmo. Estes dois grupos constituem as correntes maximalistas, os primeiros, e minimalistas, os segundos.

Na raiz da oposição entre os grupos encontra-se a forma como cada um vê a história. Os maximalistas vêem a narrativa bíblica como sendo o ponto inicial de construção da história, e corrigem ou reinterpretam a Bíblia nos pontos em que ela é contradita pelos arqueólogos. Os minimalistas partem na sua aventura pela história em uníssono com as descobertas arqueológicas a apenas aceitam os relatos bíblicos que encontram corroboração com as provas arqueológicas.

Confesso que a segunda posição é aquela que eu partilho. A Bíblia não pode, nem deve, ser lida e interpretada sem um certo distanciamento e relativismo histórico. Por várias razões, entre as quais estão a falibilidade dos relatos. Está provado que, por exemplo, os relatos do Pentecostes e do Êxodo foram escritos muito depois da altura em que, supostamente, terão acontecido. No caso do Êxodo existem, hoje, provas que desmentem algumas das passagens da Bíblia, havendo mesmo quem duvide da presença de Judeus no Egipto na altura de Moisés.

Para além da evidência histórica, existem também os problemas com as traduções. Ao longo dos anos a Bíblia foi escrita, reescrita e traduzida em diversas línguas. Do Hebreu para o Grego Antigo, passando depois ao Latim, a palavra de Cristo foi sendo proferida em diferentes línguas e com diferentes sentidos. Com essas traduções, algumas imprecisões foram aparecendo e quando analisamos a Bíblia que hoje nos chega às mãos, não podemos deixar de contemplar a possibilidade de ela estar mal traduzida; de haver passagens erradas e erros de interpretação.

Depois, claro, há o problema da natureza das passagens, nomeadamente no Antigo Testamento. A maioria das passagens do primeiro capítulo da Bíblia são o produto de narrações, de histórias populares que foram sendo contadas e passadas de geração em geração. Por exemplo, o Êxodo foi contado e recontado várias vezes até ter sido passado para o papel.

Tudo isto para além do facto de que a grande maioria das passagens da Bíblia deverem ser encaradas como parábolas, isto é, alegorias que carregam consigo alguma doutrina moral.

Os minimalistas defendem que, antes de tudo, a Bíblia é um trabalho teológico e apologético. Dão conta de que as histórias mais antigas prendem-se a elementos históricos que foram reconstruídos séculos depois, e que o Livro possuirá apenas alguns fragmentos de genuíno relato histórico – que coincidem com os achados arqueológicos.

Aceitar isto é aceitar que a maior parte das histórias relacionadas com as grandes figuras bíblicas – nomeadamente aquelas que protagonizam o Antigo Testamento – são fictícias, produtos da imaginação de um escritor, ou de séculos de narração popular. Assim, as doze tribos de Israel, por exemplo, terão sido uma construção posterior àquela que aparece na Bíblia e que as histórias dos Reis David e Salomão, a terem existido, foram modeladas a partir de posteriores exemplos helénicos, pois não existe nenhuma prova concreta de que o reino unido de Israel, que a Bíblia diz ter sido governado quer por David, quer por Salomão, tenha sequer existido.

Portanto, quando atentamos na Bíblia não podemos deixar de ter em conta de que se trata de um relato de época, com um contexto específico e não deve (nem pode?) ser levado à letra. O principal do livro é a sua mensagem, a transmissão dos códigos de conduta e o ensino da moral católica.

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5 thoughts on “A Palavra segundo as Escrituras

  1. Não posso deixar de manifestar a minha satisfação por te ver glosar sobre uma das minhas matérias de interesse, desde sempre. E confesso que fiquei impressionada pelo pormenor da tua abordagem, tendo em conta que este é um campo quase “abandonado”…
    Acho que, em parte, subscrevo a tua posição. Mas é engraçado que algumas passagens que parecem não ter qualquer ligação com a realidade história, mais cedo ou mais tarde têm-se confirmado. Estou a lembrar-m de uma passagem do livro de Daniel, que se reporta à Antiga Babilónia. Há uma referencia a um regente que se julgava forjada e cuja existencia se confirmou recentemente. É no ponto em que Nabucodonosor promete o 3º lugar no reino àquele que for capaz de decifrar o significado dos seus sonhos. Isso significa que o 2º lugar já estava ocupado. Mas os historiadores não identificavam o personagem – até agora.
    Há um livro já antigo acerca dessas descobertas. Chama-se “a verdade histórica da bíblia”. Muito interessante. Acho que ias gostar….

  2. Respondo logo que possa. Por enquanto deixo uma pergunta, partindo das citações

    «Aceitar isto é aceitar que a maior parte das histórias relacionadas com as grandes figuras bíblicas (…) são fictícias, produtos da imaginação de um escritor, ou de séculos de narração popular»

    E se a existência de um Deus também for produto da imaginação de um escritor, ou de séculos de narração popular?

  3. Bom dia, meu irmão. Achei este site acidentalmente e confesso que achei muito interessante suas idéias, uma vez que muitas delas se harmonizam perfeitamente com algumas das minhas. Gostaria de ter a oportuindade de conversar contigo a respeito deste assunto (Estudo histórico/científico da Bíblia)
    Um forte abraço
    Elvis

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