Da Inteligência

Continuam a surgir, dia após dia, reacções à ‘conclusão’ do cientista americano James Watson. Sei que já se passaram alguns dias desde que as conclusões foram apresentadas, mas não quis deixar de dar a minha opinião sobre este assunto.

Ora, concluiu o cientista laureado com o Prémio Nobel da Medicina em 1962 sugeriu que os negros têm uma inteligência inferior à dos brancos. Em entrevista ao Sunday Times, Watson confirmou que se encontra “naturalmente céptico acerca do futuro de África” porque “todas as nossas políticas sociais são fundamentadas no facto da sua inteligência ser igual à nossa quando, de facto, nenhum teste corrobora com essa ideia”.

O geneticista assentiu que há um desejo natural de que todos os homens sejam iguais mas, refere Watson, “as pessoas que têm de lidar com empregados negros sabem que isto não é verdade”.

Em livro a publicar na próxima semana, Watson escreve que “não existe nenhuma razão firme para concluir que as capacidades intelectuais de pessoas geograficamente separadas ao longo do seu processo evolutivo terão evoluído de forma idêntica. A nossa vontade em atribuir iguais poderes de razão como se de uma herança universal da humanidade se tratasse não será suficiente para tornar tal possível”.

Conclui, então, que os brancos são mais inteligentes do que os negros. No fundo, apresenta como razão justificativa o facto de o continente africano, hoje largamente atribuído aos negros, ser o centro das maiores pobrezas mundiais enquanto que a Europa, antiga potência colonizadora, a América e algumas nações asiáticas florescem económica e socialmente. Faz um paralelismo, em que no Hemisfério Norte encontra os inteligentes e no Sul os estúpidos.

Não conhecendo em pormenor o estudo, não posso apresentar argumentos científicos para combater a opinião. Nunca me dediquei ao estudo de fundo desta questão.

Porém, há um ponto que me merece maior reflexão e que gostaria de discutir: O que é inteligência? O que significa dizer-se que “x” é inteligente, por oposição a “y” que é burro que nem uma porta?

Uma rápida visita à Priberam permite-me concluir que inteligência é, nada mais, nada menos, que a “faculdade que o espírito tem de pensar, conceber, compreender; é a capacidade de resolução de novos problemas e de adaptação a novas situações; discernimento; juízo, raciocínio; talento.”

Dou particular ênfase a este último ponto: talento. É indiscutível que, falando em termos gerais, os negros têm uma especial apetência para as artes, para a música, para a dança, para o desporto, etc. áreas essas que são associadas à capacidade de criar coisas novas.

Por exemplo, Jimi Hendrix é, ainda hoje, considerado o melhor e mais inovador guitarrista de sempre, pois imprimiu um novo dinamismo ao instrumento, introduzindo uma nova forma de ver e tocar a guitarra. Hendrix era negro e é um símbolo para gerações de amantes da música.

Pélé é, sem grandes problemas, referido como o melhor jogador de futebol de sempre. À capacidade atlética conseguiu associar uma visão e inteligência de jogo invulgar para o seu tempo. E, que dizer de Eusébio, o melhor jogador português de todos os tempos e um fenómeno da bola a nível Mundial?

Quer-me parecer que aquilo de que trata o sr. Watson não é de inteligência, mas de uma forma de conhecimento – provavelmente académico – em que os brancos se superiorizam aos negros. Para justificar essa situação, essa aparente superioridade dos brancos sobre os negros, até poderíamos argumentar que o facto de as metrópoles (os brancos) terem abandonado as antigas colónias à sua sorte – e consumido à farta os seus recursos naturais – impediu que até hoje, e na sua generalidade, as nações africanas conseguissem criar estáveis planos de estudos para os seus alunos. Mas, nem isso será preciso porque não podemos dividir a inteligência.

Na definição que eu apresentei, em nenhum ponto diz que a inteligência é a capacidade para compreender os problemas alusivos à matemática. Por exemplo, podemos dizer que um génio da matemática é mais inteligente do que um génio do piano? Podia-se entrar numa discussão sobre o que seria mais relevante para a sociedade, se um bom matemático ou um bom pianista, e provavelmente o matemático ganharia. Mas, que seria de um povo sem música?

Não se pode materializar o conceito de inteligente. Não podemos afirmar contundentemente que um tipo de inteligência é superior a outro. Que vale mais um bom académico do que um bom desportista. São áreas diferentes de actividade, todas de extremo interesse e relevância social. Precisamos de grandes cientistas na mesma medida em que precisamos de grandes actores, de grandes arquitectos como precisamos de grandes pintores, de políticos de excelência tal como precisamos de bailarinos excelentes.

Não concordo com James Watson. Não podemos afirmar, contundentemente, que, regra geral, os brancos são mais inteligentes do que os negros. A inteligência não pode ser vista segundo uma lógica ‘branco ou preto’. Não só é socialmente injusto, como me parece ser também intelectualmente errado.

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One thought on “Da Inteligência

  1. Apesar de violar o nosso sentido democrático, o raciocínio do ilustre sr tem lógica. Se é verdadeiro ou não, não estou em condições de o provar. Mas faz sentido: dois seres (raças/(grupos) iguais à partida, podem alcançar pontos de evolução diferenciados em função das circunstâncias em que decorreu o processo. Até aí tudo bem. Vemos isso todos os dias: uma criança bem nutrida e devidamente estimulada apresenta índices de desenvolvimento motor e cognitivo mais elevados que uma criança negligenciada.
    Mas não me parece que seja o caso. Não podemos sucumbir à tentação de fazer generalizações em tão larga escala: na Europa há gente pouco criativa e perspicaz, assim como em África há génios.
    A matéria é fecunda e teríamos aqui pano pra mangas para prolongar o confronto entre as duas posições.
    Por isso, vou limitar-me a deixar uma questão: Quem disse que ser mais inteligente é bom? Sim, quem disse que a superlatividade da inteligência é um dom, uma vantagem, uma qualidade que faz de alguém um ser melhor? Lembremo-nos da mente prodigiosa que arquitectou os ataques de 11 de Setembro… talvez a questão não seja propriamente ser ou não ser inteligente, mas o uso que se dá a inteligência!

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