Rendition – destinado aos Óscares? Não me parece. Porquê? Basta ler este texto

rendition1_large.jpgManchester é uma cidade fantástica para se ir ao cinema. Muito boa mesmo. O complexo cinematográfico do ODEON é enorme. Mais de 20 salas de cinema, amplas e extremamente confortáveis. Perfeitas para se ver bom cinema. E, “Rendition” é um exemplo de bom cinema.

O filme do sul-africano Gavin Hood é bastante bom. O pentágono sobre o qual assenta a película, constituído por Jake Gyllenhaall, enquanto agente da CIA que desenvolve uma consciência ao longo de um processo de tortura, Omar Metwally, na pele de um egípcio radicado nos EUA que é associado a um terrorista internacionalmente procurado, Meryl Streep, a destemida chefe da agência de segurança americana que ordena a prisão da personagem interpretada por Metwally, Reese Witherspoon, a mulher inconsolável que tudo faz para encontrar respostas para o desaparecimento do marido e Peter Sarsgaard, o amigo da mulher do prisioneiro que trabalha para um senador americano, interpretado por Alan Arkin, é sóbrio e transmite um registo tranquilo e sereno ao longo do filme.

A premissa da fita é cativante. O agente da CIA encarregue pela delegação da agência num qualquer país do “Norte de África” (o filme nunca especifica qual) é assassinado em resultado de um atentado contra Abasi Fawal, figura proeminente do governo nacional. Em virtude da morte de um cidadão americano em território nacional, o governo americano entra rapidamente em acção à procura de um responsável.

Ora, o alvo das atenções dos americanos passa a ser um professor universitário, Anwar El-Ibrahimi, um cidadão egípcio a viver nos EUA desde os seus 14 anos e que se formou na NYU. Acontece que El-Ibrahimi, que entretanto se casou com Isabella Fields, tem registado no seu telemóvel chamadas provenientes de um número associado ao terrorista responsável pelo ataque, Rashid Salimi.

El-Ibrahimi encontra-se, na altura do atentado, a viajar da África do Sul para os EUA após ter falado numa conferência. À chegada ao aeroporto de Chicago é apreendido por agentes americanos que rapidamente o fecham numa sala isolada com o braço direito de Corrine Whitman (Meryl Streep), o duro Lee Mayer (J.K. Simmons).

Não conseguindo extrair informação do egípcio nos EUA, Whitman dá ordens para que seja transportado para o “Norte de África” onde será interrogado pelo próprio Fawal. Aqui entra em cena Douglas Freeman (Jake Gyllenhall), um recém-formado agente da CIA a quem é dado o papel de representação dos EUA no interrogatório de El-Ibrahimi.

Durante a tortura a que Ibrahimi é sujeito, Freeman começa a ter dúvidas acerca do seu papel em toda aquela situação e tem a certeza de que tem de agir quando o prisioneiro oferece o nome dos jogadores da selecção egípcia de futebol de 1992 como sendo os seus colegas de conspiração. A partir desse ponto, Douglas constrói um plano para libertar Ibrahimi e enviá-lo para junto de Isabella, a sua mulher e mãe do seu seu filho Jeremy.

Os problemas de “Rendition” são as pequenas coisas que me impedem de o levar a sério. Não gosto que me digam que o filme se desenrola na “África do Norte”, e que em nenhum momento se diga que estado é Fawal membro. Por outro lado, há uma missão clara e objectiva em criticar abertamente o papel dos EUA no Médio Oriente, com menções veladas aos incidentes de Abu Grahib e à prisão de Guantánamo. 

Várias questões ficam por responder, num filme que tem numa história paralela entre dois jovens muçulmanos a chave para a sua interpretação. Por exemplo, o que acontece a Freeman depois de orquestrar a libertação de Ibrahimi e contar a história à imprensa? Qual era, então, a ligação entre Ibrahimi e o terrorista?

Depois, as pretações dos actores. Witherspoon não me convence. A actriz tem um papel fraco, é verdade, mas mesmo assim não me seduz. Arkin mal aparece no filme (porquê?) mas, quando o faz, toma conta da cena. A personagem de Sarsgaard, que a dada altura assume as rédeas da acção, desaparece sem razão aparente. Porém, Gyllenhaal continua muito bem e Omar Metwally convence enquanto torturado sem motivo.

Muitos apontavam “Rendition” como o filme com potencial para surpreender nos Óscares, mas, para mim, não passa de um respeitável filme político contra a presença americana no Médio Oriente, num ano em que essas películas abundam. É bom, mas podia ser melhor. Devia ser melhor.

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