Hit the road George

Não era minha intenção quebrar a sequência de textos que queria publicar sobre justiça. Por isso não o vou fazer. Simplesmente, vou seguir por uma linda diferente.

Acordei e, como de costume, liguei o computador com a intenção de ver as notícias de Portugal. Primeira passagem pelos desportivos. Tudo em ordem. Depois, o Público. Chegado ao jornal dos jornais portugueses, deparei-me com isto.

Irado. Irado fiquei quando soube que Bush filho rejeitou a proposta de Kennedy irmão para aprovar um plano que tornasse o português numa segunda língua oficial de ensino nos EUA. Enquanto dava conta do seu parecer, sentenciou que “o Congresso deve aos contribuintes esforços melhores”. Também os EUA devem ao Mundo um melhor presidente, mas ninguém lhe fecha as portas quando ele aterra nos aeroportos espalhados pelo Mundo.

Aquilo que se passa nos EUA, em relação às línguas estrangeiras é muito simples de explicar. Há quatro línguas principais: o espanhol, italiano, alemão e francês. A ordem pela qual elas estão dispostas obedece a um raciocínio relativamente racional: as duas primeiras porque pertencem às duas maiores comunidades de imigrantes de língua oficial não inglesa; as duas outras, porque são línguas de países “grandes” na Europa e tidas como importantes – principalmente, de importância histórica.

Até aqui tudo bem. Aqueles que queiram aprender português, e são normalmente os filhos dos emigrantes, têm de ter aulas em escolas privadas. No meu caso, tinha aulas das 9 às 14 na escola “americana” e das 16 às 18 tinha aulas na “escola portuguesa”.

Apesar de viverem um milhão de portugueses nos EUA, esse número é residual quando comparado com os hispânicos ou italianos que lá se encontram. E, se calhar por isso mesmo, as comunidades portuguesas sempre se submeteram a essa situação, não exigindo nada de mais no que concerne ao ensino da língua. Aliás, nesse respeito, sempre se viraram muito mais para o Governo Português do que para o americano.

Acontece que numa zona em particular do país, existe uma alta concentração de portugueses. Falo da costa leste (e, em concreto, de estados como Massachusetts, Rhode Island e New Jersey) e das freguesias e cidades onde a maior parte da população é portuguesa. Basta visitar New Bedford ou Fall River para perceber que estamos em áreas portuguesas. Em Newark a pressão demográfica é tanta, que até já temos direito a uma “little Portugal”.

E, foi inspirado por este fenómeno (e não nos esqueçamos da cada vez maior comunidade brasileira nos EUA) que o congressista Kennedy propôs, como parte integrante de um pacote de reformas para a educação, a inclusão do português enquanto uma das “segundas” línguas oficiais. Bush rejeitou.

A recusa de Bush não fica bem ao Presidente dos EUA. Foi, nos anos 60 que John Kennedy convidou os portugueses a entrar na Terra das Oportunidades. A maioria fixou-se na costa leste, próximo do mar, e empenhou-se em dar razão ao voto de confiança do presidente. Assim se tornaram as comunidades portuguesas numa das mais respeitadas e bem-vindas da região e do país.

Rejeitar unilateralmente, e classificar como esbanjador, um programa que procurava criar condições para o ensino oficial do português nas escolas, e até promover o português como forma de reconhecimento pelo serviço prestado ao longo dos anos, é de uma ingratidão que apenas se compadece com alguém tão ignorante, mesquinho, medíocre e (dentro de um ano) insignificante como George Walker Bush, o homem que disse ter pena de não falar latim, pois caso contrário poderia comunicar com os povos da América Latina. 

Se calhar, se tivesse aprendido outra língua, não teria dito alguns dos disparates que disparou daquela boca. E, talvez, tivesse disparado menos balas também.

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2 respostas a Hit the road George

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