Ter cão e não ter

Gordon Brown protagonizou um episódio caricato, no mínimo, na última quinta-feira, dia em que compareceu à assinatura do Tratado de Lisboa horas depois dos restantes parceiros europeus terem assinado o documento. Não só primeiro-ministro da Grã-Bretanha chegou tarde, como assinou o documento à pressa sem direito nem à pompa nem à circunstância de que gozaram os restantes líderes europeus. Nem sequer pôde apreciar o almoço oferecido por Cavaco.

À primeira vista, esta decisão de Brown parece totalmente incompreensível. Como pode o responsável máximo de uma dos Estados mais importantes dentro da UE faltar à assinatura de um documento tão importante como este? A explicação que a maioria dos analistas britânicos tem encontrado é esta: Gordon quis dar um ar de desprezo pela União.

O euro-cepticismo britânico é mais do que conhecido. Os britânicos vêem a UE como um depósito de poder que, a pouco e pouco, vai esvaziando Westminster e desprotegendo Londres. A recusa do Euro não tem a ver com questões comerciais, até porque as maiores empresas britânicas usam a moeda única nas suas operações transoceânicas, mas sim com questões de soberania. Explicam-me os Ingleses aqui que é importante ver a Rainha na libra pois representa a soberania do povo britânico e a vitória contra as adversidades. Dizem eles, hoje, que aceitar a mesma moeda que a Alemanha era declarar como inúteis os esforços de guerra dos seus antepassados. E quem fala no Euro, fala em várias outras questões diplomáticas que eles rejeitam.

Quase tão grande como o cepticismo europeu é o cepticismo do povo britânico para com Brown e o seu governo. O escocês não foi eleito e não tem tido a sagacidade de fazer o povo esquecer-se desse pormenor. Enquanto ouço as críticas dos conservadores e de algumas alas do partido trabalhista lembro-me das críticas que se fizeram a Santana quando ele subiu ao poder. A natureza das mesmas é semelhante. Pior, Brown disse antes de tomar posse que, se o povo entendesse, ele avançaria para um processo de eleições antecipadas. Não contou que a insatisfação fosse tão grande, nem tão significativa. Como o escocês esperou pelo cargo durante anos, deixou essa promessa esfaziar e hoje nem fala nisso. Desde que cá estou, em nenhuma sondagem Brown tem ficado em primeiro. Depois da hegemonia de Blair, não deixa de ser sintomático.

Então, Brown tentou agradar aos gregos e aos troianos. Assinou o tratado, pois no fundo é tão europeísta como Blair, mas ao mesmo tempo deu – ou tentou dar – um ar de soberania e superioridade do povo britânico sobre os restantes europeus. Fez isso ao dizer que era inevitável uma reunião com parlamentares britânicos e que só poderia deixar o gelo londrino rumo ao sol lisboeta muito depois dos restantes chefes-de-estado terem assinado o documento.

Teve azar. Os britânicos não aprovaram quer a assinatura do tratado, quer a aparente rebeldia de Brown. Não sancionam o tratado pois acreditam que se trata de um documento de transferência de poder e soberania do Estado britânico para o comunitário. Contudo, não apreciaram o gesto de Brown porque deu uma má imagem da Nação, tendo-se excluído da assinatura de um documento importante em que todos os parceiros – creio que se poderia ler rivais – europeus estavam presentes.

Enquanto Merkel, Sarkozi e Prodi assinavam o documento, Brown discutia trivialidades numa audiência parlamentar. Na cabeça dos britânicos, pior do que assinar um tratado que lhes retira poder, é que o seu líder dê uma pálida imagem externa do país, oferecendo o protagonismo aos outros líderes e dando ar de fraco.

Brown tentou com alguma habilidade virar uma situação adversa aos olhos do público – os conservadores criticam a inexistência de um referendo ao Tratado– e assim melhorar a sua imagem junto do mesmo. Falhou de todos os lados pois para além de não ter conseguido reunir simpatia junto dos seus eleitores, o seu acto de desconsideração pelos camaradas europeus foi visto com repúdio pela opinião pública de quase todos os restantes Estados Europeus.

E de erro em erro, que não cause surpresa ver Brown, o escocês que viu-se e desejou-se para ocupar Downing Street, a ser convidado a esvaziar o nº10.

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