O Enternecimento do coração

Foram 13 semanas. 91 dias. 2184 horas longe de Portugal. Foram dias, semanas, meses de frio. Frio. E mais frio.

Mas por estes dias vou ter umas tréguas. O Natal está aí à porta e para celebrar o dia santo voltei ao meu cantinho e por cá permanecerei até ser altura de voltar a enrijar e regressar ao frigorífico de Manchester.

Ontem foi um dia bom. Era o dia do regresso, o dia em que eu voltaria a respirar ar português e o facto de a hospedeira da TAP me ter oferecido a edição daquele dia do Diário de Notícias só serviu para apimentar o meu entusiasmo.

Apesar de ter mantido os meus ouvidos e olhos atentos sobre aquilo que se passava por cá enquanto estive por lá, ter um jornal português nas mãos é totalmente diferente, pois poder ler, reler e interpretar as notícias, assim como analisar os editoriais e as colunas de opinião é um daqueles prazeres que não se tem online.

Para aquele momento ser ainda mais perfeito, ou pitoresco, só faltava mesmo o cigarro e/ou o café. Ora, como eu não inalo o primeiro, nem ingiro os segundo, bastava-me um chocolate quente e uma nata e estaria nas minhas sete quintas. Tive de me contentar com o assento à janela do airbus da TAP e o Compal de maçã. Bem bom.

A ideia em ler o DN era ir-me actualizando ao pormenor sobre as principais notícias portuguesas. Queria saber o que se passava por cá, para além do congelamento das negociações entre o Benfica e o Léo. Ora, logo na primeira página vinha uma chamada para a iminência de os Diabos Vermelhos e os No Name Boys deixarem o Estádio da Luz vazio, pois são claques ilegais e ao abrigo da nova Lei do Desporto isso dá como pena a obrigatoriedade de jogar à porta fechada. Tem de ser. Há que legalizar as claques.

Continuo a ler e vejo que se fala do caso “Noite Branca”, dos Pidás e dos Beckhams à moda do Porto, da necessidade que houve em chamar o exército para incinerar porcos, as dívidas crescentes das câmaras, a existência de duas clínicas de aborto ilegais, a luta contra o tráfego de droga proveniente da Guiné, a coroação de Ronaldo como figura mais mediática do Mundo do futebol, a crítica de Rui Machete a Bush por este ter desvalorizado a língua portuguesa, a posição assumida por apoiantes da ETA num tribunal basco, a instalação de câmaras de vigilância na Baixa lisboeta…

Muita coisa os jornais portugueses trazem na capa. Lá nisso os ingleses são mais práticos: espetam com uma fotografia de corpo inteiro da Gemma na capa e está o assunto arrumado. O DN incluiu ainda na capa uma reportagem sobre Macau e aquilo que mudou na nossa antiga colónia desde 1999, ano da passagem de testemunho.

Em 1999 tinha eu 13 anos e assisti à transição pela televisão (quem disse que a revolução não seria televisionada?). Lembro-me de assistir à troca da bandeira, ao hastear da chinesa e à descida da nossa. Lembro-me de ver o governador de lágrimas nos olhos e de olhar para o meu Pai e ver o mesmo. O meu Pai, uma fortaleza de homem, o meu modelo, a chorar ao ver a passagem da soberania num pedaço de terra que ele nunca conheceu e de onde apenas tido lido e ouvido algumas coisas na escola, mas já estava tudo muito distante.

À medida que a bandeira descia, iam caindo mais lágrimas. Quando Vasco Rocha Vieira abraçou a bandeira e chorou, também o Carlos Vieira, sentado na sua poltrona em Braga, chorou. Mais tarde explicou-me que chorou porque se tratava do fim da presença de Portugal naquela parte do globo, do desaparecimento de mais um traço da grandeza de outros tempos.

Numa dimensão totalmente diferente, devo dizer que sinto o mesmo. O apego aos símbolos da Portugalidade no exterior. Ver garrafas de Super Bock em Edimburgo deixou-me aos pulos, comprar pêra rocha em Manchester deu-me prazer, assim como emborcar uma garrafa de rosé com amigos numa residência em Manchester.

Entrar no avião e ouvir português, fazer uma viagem inteira com o Diário de Notícias nas mãos e o tal copo de Compal no tabuleiro deu-me prazer. Fez-me sentir mesmo muito bem. Chegar a Sá Carneiro e concluir que se trata de um aeroporto de cinco estrelas, recolher as malas e ver a família à minha espera só serviu para enriquecer um dia especial. Acordar às 10 da manhã com 0º em Manchester e chegar às 23h40 ao Porto (atraso de uma hora…) com 13º foi assombroso. Melhor ainda quando o Sr. Vieira me informou que o Glorioso havia despachado o Estrela minutos antes por 3-0.

This is Portugal. And I love it.

PS: Para fechar o ciclo de ouro só faltava uma derrota do Porto. E não é que o Lipatin me deu essa prenda? O Natal é mesmo para todos.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Eclipses. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s