Lamentavelmente Científico

O Papa desistiu da ideia de ir à Universidade Sapienza em Roma.  Essencialmente, porque não quis correr o risco de colocar em perigo os habitantes da cidade.

A onda de contestação à visita papal teve início em 67 professores que se opuseram à vinda de Bento XVI por dois motivos essenciais: a condenação, pela Inquisição, de Galileu em 1633 e as visões do próprio Ratzinger sobre a ciência.

Em primeiro lugar, rejeitar a vinda de Bento XVI por algo que aconteceu no séc. XVII seria equivalente a nenhum estado receber a Ângela por ser do país do Adolf. São coisas do passado, e têm de ser esquecidas para que seja possível avançar. Não é justo que os alemães de hoje paguem pelo que os de ontem fizeram. Da mesma forma que não é justo que Bento XVI, ou qualquer outro chefe religioso, seja julgado por algo que estave fora do seu controle.

Em segundo, é perfeitamente normal que o Papa defenda que a ciência deve progredir debaixo da filosofia cristã. Se o homem dissesse o contrário, provavelmente em vez de Papa era companheiro de Tom Cruise na Cientologia. Qualquer pessoa tem o direito a ter a sua opinião acerca do que quer que seja sem ser perseguida por isso. Ratzinger, como homem de fé, tem uma visão da ciência que choca com a de alguns professores. Aceitem-se, então, as diferenças e discutam-se as mesmas. Uma Universidade não deveria servir para isso?

A vida em democracia e na sociedade judaico-cristã leva-nos a acolher valores como a tolerância e a liberdade de expressão. Mas, de facto, damos uma rédea muito curta aos outros quando eles apelam a qualquer uma delas.

Esta situação do Papa é, ao fim e ao cabo, um resultado de falta de bom senso e de respeito. Alguém ainda acredita que a Terra é plana? Alguém acha que queimar pessoas é uma forma correcta de castigar prevaricadores? Ninguém. Que mal iria fazer o Papa à universidade? Nenhum Provavelmente dar um discurso em que apela ao estudo dos meninos e não à reza na altura dos exames.

Ahmadinejad quando foi aos EUA não só foi recebido como, atenção, foi convidado de honra na Universidade de Columbia onde, entre outras coisas, assegurou que no Irão não existem homossexuais. Mesmo assim, o senhor foi recebido e tolerado, tendo os professores preferido uma discussão ideológica com o patrão de Teerão do que uma manifestação populista.

Então, de que lado do Atlântico é que estão os “tolerantes”?

Esta entrada foi publicada em Sociedade. ligação permanente.

19 respostas a Lamentavelmente Científico

  1. Josué Lopes diz:

    Claro, na América é só tolerância. E na Universidade de Columbia então nem se fala, perguntem aos professores que foram despedidos por terem posições discordantes da politica externa israelita que eles dizem o quão é tolerante a universidade de Columbia.

  2. Atenção: Não pretendi dizer que a tolerância apenas existe na América, mas que também está lá, realidade que várias vezes foge à retórica de certos políticos europeus.

    E, atenção, um caso não invalida o outro. Isto é, esse caso dos professores em Columbia nada tem a ver com a proibição da presença do Papa na Universidade. Pelos americanos terem feito o que fizeram, não faz com que as acções dos italianos sejam “perdoáveis”, pelo menos a meu ver.

  3. Josué Lopes diz:

    É certo que sim. Mas o sentido das palavras implica uma certa critica à Europa e elogio à suposta tolerância americana.
    Há intolerância e tolerância em ambos os lados do Atlântico mas a questão do Papa tem a ver com o facto de não se querer misturar religião com ensino pois felizmente na Europa os estados são laicos há mais de cem anos enquanto que nos dólares americanos ainda se lê “In God We Trust”.
    Religião, politica e futebol são temas que não têm lugar num espaço de conhecimento e livre pensamento como uma universidade deve ser.

  4. «Isto é, esse caso dos professores em Columbia nada tem a ver com a proibição da presença do Papa na Universidade»

    Em boa verdade, o homem não foi proibido de nada: não foi porque não quis…

  5. Sr. das caipirinhas,

    É evidente que há uma crítica nas minhas palavras a algumas atitudes de Estados europeus que não têm problemas em acusar os EUA disto e daquilo, mas que depois não se revelam nem piores, nem melhores. Simplesmente iguais. Quem tem telhados de vidro..,
    Depois, não vejo problemas com um estado ser, ou não, laico. Os EUA não o são e não é por isso que deixam de acolher pessoas de diferentes credos e raças.
    Uma universidade deve ser um local de debate e de discussão e enquanto que não se passar uma lei em que é obrigatório rezar o Pai Nosso antes de cada aula, então não vejo qual o problema de receber o Papa nas instalações da academia, de o ouvir e, quem sabe, debater com ele certas questões. Isso sim, seria um óptimo exercício de democracia, ao contrário da propaganda barata patrocinada por esses docentes.

    Sr. Constantino,
    Não o “proibiram” mas também nãoo incentivaram muito a ir. Até eu, se a minha integridade física fosse ameaçada, pensaria duas vezes antes de me meter à aventura nestas circunstâncias.

    Agora vou soprar as velas😀

  6. «Até eu, se a minha integridade física fosse ameaçada, pensaria duas vezes antes de me meter à aventura nestas circunstâncias.»

    Em rigor, diga-se que era pouco provável que 67 professores universitários fossem bater a um velhinho…😛

  7. Marlene diz:

    Concordo com o Philipe em quase tudo…
    Mas em relaçao à questão da tolerância americana…

    Passo a citar:
    “Toda a nossa política social está baseada no facto da inteligência deles [dos africanos] ser a mesma que a nossa. Mas todas as experiências dizem que não é bem assim”, afirma, para depois acrescentar: “Quem tenha que lidar com empregados negros sabe que isto não é verdade”.

    James Watson, o biólogo americano co-descobridor da estrutura da molécula de DNA
    (http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1307829)

  8. Marlene, não vejo grande intolerância nisso…

  9. Marlene diz:

    Pedro, em ocasiões anteriores ja tive oportunidade de manifestar a minha opinião acerca da posição deste senhor. Posso ate admiti-la parcialmente… Mas a última afirmação… “Quem tenha que lidar com empregados negros sabe que isto não é verdade” O que é o racismo e a discriminação senão uma manifestação de intolerância?

  10. Marlene diz:

    Atenção, que quando digo que concordo parcialmente com o sr, não quero de forma nenhuma dizer que também considero os negros menos inteligentes.

  11. «Mas a última afirmação… “Quem tenha que lidar com empregados negros sabe que isto não é verdade” O que é o racismo e a discriminação senão uma manifestação de intolerância?»

    E se realmente não for verdade? Onde é que está aí intolerância? Alguém acha ‘intolerante’, ‘discriminatório’ ou ‘racista’ quando se diz que os portugueses são mais baixos do que os alemães ou que os chineses têm pilinhas mais pequenas do que os africanos?

  12. a mim parece-me que querem todos ser mais papistas do que o papa…

    esta saiu-me mesmo bem😉

  13. Marlene diz:

    Consciente de que continuo à margem do tema principal, mas reivindicando o direito de defender aquilo em que acredito, devo dizer-te, Pedro, que não considero racismo afirmar que os portugueses são mais baixos, feios, grosseiros ou burros, desde que mo provem por A mais B. E se o sr soube provar que os africanos são menos inteligentes que os europeus, não soube expo-lo da melhor forma. Parece-me que os seus empregados pretos não são o espelho de Africa.

  14. «devo dizer-te, Pedro, que não considero racismo afirmar que os portugueses são mais baixos, feios, grosseiros ou burros, desde que mo provem por A mais B»

    E se eu disser que os portugueses são mais baixos do que os alemães sem ter dados que o provem? Já estou a ser racista?

  15. Marlene diz:

    não sou tão céptica quanto pensas…. para mim o senso empírico pode constituir prova. é o caso.

  16. Mas foi precisamente isso que o Watson fez. Usou o senso empírico para dizer que os negros eram menos inteligentes do que os brancos.

  17. Marlene diz:

    Pedro, até sou capaz de admitir a tua posição. Aliás, subscrevo-a em parte. Mas há um sistema de convenções que faz toda a diferença. Faz toda a diferença ser eu, zé-ninguém, a afirmá-lo, de ser alguém com estatuto de autoridade nestas matérias. Eu, na qualidade de zé-ninguém, posso estribar-me no senso comum para afirmar que os espanhois sao mais carecas que os portugueses; mas o mesmo ja não acontece com alguém que granjeou o estatuto do Watson. Pela sua autoridade, as suas declarações têm inevitavelmente outras implicações, daí a necessidade de as provar. E como não me parece que ate à data tenha apresentado provas suficientemente satisfatórias, mantendo-me na minha …. é a vantagem de se ser um zé-ninguém!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s