Crónicas de Madchester

Quase sem dar por ela, passaram-se cinco meses. De Setembro até Fevereiro, com uma ligeira interrupção em Dezembro, foram cinco meses em Manchester, foram cinco meses de Erasmus. Foram mesmo cinco meses.

Apesar de ter há muito decidido fazer Erasmus em Manchester não sabia com o que podia contar. A minha experiência por terras de Sua Majestade ficava-se por uns dias em Londres, há muito, muito tempo. O que viria agora? Como seria Manchester? Ir-me-ia conseguir adaptar à cidade e às pessoas? Eram dúvidas que eu tinha, questões que levantava a mim mesmo.

Cinco meses depois, só posso dizer que foi um sucesso. Não sendo uma cidade particularmente espectacular, Manchester é muito grande e oferece uma multiplicidade de opções àqueles que por cá passam. É a cidade universitária de Inglaterra e talvez por isso tenha tanta variedade de diversões, quer diurnas, quer nocturnas.

Arranjei habitação no bairro mais barato da cidade. Talvez por isso, fosse também o mais degradado e aquele por onde a polícia patrulha mais vezes. De maioria muçulmana, não deixaram de me surpreender e chocar alguns rituais que os fiéis de Maomé continuam a observar, mesmo estando bem longe de Meca.

Ter aulas com muçulmanos que não haviam comido nada o dia inteiro por altura do Ramadão, ou falar com alguém em plena sala-de-aula a quem só vemos os olhos foram experiências estranhas e que ajudaram a comprovar que só um país verdadeiramente tolerante do plano religioso é que aceita que cada indivíduo ostente os sinais da sua crença sem ser perseguido ou importunado por isso.

Na verdade, a minha experiência com a comunidade muçulmana era muito reduzida até chegar aqui. Cinco meses volvidos, e algumas amizades depois, não posso deixar de continuar a achar estranho que uma rapariga da minha idade aceite o facto de que vale menos do que eu, que terá um casamento arranjado pelos pais e que, provavelmente, irá servir o marido e os filhos toda a sua vida. A frieza e naturalidade com que tudo isto é observado não cessaram de me chocar.

O que também me chocou foi a ignorância que caracteriza grande parte dos ingleses. Diria mesmo que o inglês comum vive num perfeito desconhecimento acerca daquilo que passa para além da ilha britânica. Se é o seu carácter insular, ou o seu orgulho imperial, o facto é que aquilo que se passa para além do Reino não é aos seus olhos significativo.

Questões importantes como a União Europeia e o papel do país nessa organização não são debatidos e políticos com responsabilidades não perdem a oportunidade para vir a público e pedir a saída da União. Claro que enquanto for positivo para Londres a permanência na UE essas declarações não terão grande consequência.

Mas, a indiferença geral com que os ingleses olham para o “continente” (é assim que se referem à Europa) assim como a sua posição, por exemplo, perante o euro – deixar a libra seria um acto de subjugação perante o federalismo europeu, defendem – não deixam de causar espanto numa nação que é das mais poderosas da Europa.

Diferentes são os outros ingleses. Aqueles que não fazem parte do grupo do inglês médio. O meu contacto com os docentes da MMU levou-me a ter conversas interessantes sobre a posição da Inglaterra na Europa, assim como me forneceram instruções para interpretar algumas das atitudes assumidas pelos britânicos. Para além disso, eram os únicos que sabiam que foi Vasco da Gama quem chegou à Índia.

Em termos académicos a experiência foi enriquecedora, não tanto pelos conteúdos aprendidos, mas pela interacção com uma outra realidade educativa. A forma como alunos e docentes abordam as aulas é diferente, desenrolando-se as mesmas numa atmosfera muito mais informal. Tive aulas com professores vestidos com calças de motociclismo, fato-de-treino, sapatilhas All-Star e calças de ganga rotas. Apesar deste aspecto mais casual, todo o ano escolar é planeado ao milímetro e os serviços administrativos funcionam que nem relógios suíços.

Porém, ao nível dos conteúdos não se acrescenta nada de particularmente genial. As cadeiras que requerem maior cultura geral abordam as questões políticas e diplomáticas de uma forma muito ligeira, assim como os próprios exercícios propostos pelos docentes não são exageradamente complicados.

Mas, quem vem de Erasmus para estudar? Pouca gente. Aquilo que vale mesmo a pena aproveitar é a possibilidade de estabelecer contactos e laços de amizade com pessoas de outros países, de outras realidades.

Isto para não falar na natural proximidade e união que se desenvolve entre os estudantes Erasmus. Estar tão longe de casa tem momentos complicados, momentos mais difíceis e o facto é que estar próximo de pessoas que estão a passar pelo mesmo que nós alivia essa mágoa natural.

Claro está que os laços de amizade entre aqueles que estão de Erasmus têm um carácter muito forte, pois é para eles que nos viramos quando temos dificuldades, quando precisamos de um ombro amigo. São amizades que perduram no tempo. E ter amigos na Grécia, Itália ou Suécia ajuda na altura da planificação das férias.

E, no somatório de tudo isto, olhamos para nós, cinco meses mais velhos, e vemos que, de certa maneira, estamos mais crescidos. Mais independentes e autónomos, que viemos para uma realidade totalmente desconhecida e que, com maior ou menor dificuldade, nos safamos, que ludibriamos os obstáculos e que, por entre noitadas e copos, conseguimos retirar verdadeiras lições de toda esta experiência única, irrepetível e inesquecível.

Não me poderia esquecer de mencionar a música. Manchester será, provavelmente, a cidade musicalmente mais democrata do Mundo. Há discotecas “tradicionais”, com uma ênfase especial na música electrónica, mas também há casas de diversão nocturna que dedicam as suas colunas a sons mais latinos ou pop. E, claro, o rock nunca desaparece da cidade. A casa de Oasis, The Smiths, Joy Division e Roy Harper (entre tantos outros) nunca diz não a uma boa noite de guitarras, bateria e teclados.

Existe um culto da música que qualquer apreciador não pode deixar de reconhecer. As saudades que vou ter das noites de segunda e terça no “Matt and Phreds”, um clube de Jazz no coração da cidade que oferecia música ao vivo todas as noites.

“Vai que é para aprenderes” é o slogan Erasmus. De facto, fui e aprendi. Aprendi muita coisa, vi muita coisa, experimentei muita coisa e tudo isso serviu para me enriquecer enquanto cidadão deste Mundo cada vez mais pequeno e cada vez mais próximo e ao nosso alcance.

Manchester não tem o brilho de Paris, o sol de Barcelona nem a história de Atenas. Mas tem outras coisas a oferecer a quem por lá passa. Sem sombra de dúvidas que levarei para sempre uma recordação quente da cidade – bem diferente do clima tradicional – e para toda a minha vida Madchester terá uma lugar especial no meu coração.

I won’t look back in anger.

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5 respostas a Crónicas de Madchester

  1. tete diz:

    ola. espero que te encontres bem. eu tambem gostava de fazer erasmus em manchester.
    podes-me dar umas luzes sobre os gastos? nomeadamente da casa e das outras despesas que tinhas de suportar mensalmente.

    obrigada

  2. olá. fico contente que dois anos depois alguém tenha pegado nisto🙂

    bem, eu gastava uns 1000€ por mês. Uma casa barata, fica por mais de 300€ por mês e terás sempre de pagar água, gás e luz à parte. A residência é uma boa alternativa, mas nem sempre é fácil marcar quarto, principalmente para quem só vai um semestre.Como a libra está mais ‘barata’, és capaz de conseguir aguentar-te lá por menos, mas andará sempre à volta disso. Depois, tens sempre a bolsa de estudo Erasmus que a tua universidade te fornecerá, mas nem sempre ela chega a tempo.

    espero ter sido útil.

  3. tete diz:

    ola mais uma vez.

    bgd pelas informações🙂

    mas fiquei um pouco confusa a cerca da residência porque na universidade disseram-m que nao dá para ir para nenhuma residência :S

    eu vou com uma colega.

    tu pagavas 300euros por uma casa onde pudessem ir mais pessoas? ou por um quarto?
    sendo numa casa eram 300 euros a dividir por duas?

    bgd mais uma vez

  4. as duas universidades de manchester têm residências. o único problema é que eles preferem dar os quartos aos alunos que vão um ano. mas, mesmo que não consigas lugar nas residências universitárias, tens sempre residências privadas, mais caras, mas com outras regalias ao nível de equipamentos e segurança. é uma questão de procurares mais e novas informações.

    eu pagava esse montante por um quarto num T4 e os meus colegas de casa pagavam todos o mesmo. a não ser que queiras dividir quarto, não vais arranjar nada por menos do que isso.

  5. tete diz:

    ah ta bem. e essas residências privadas? qual é o preço sabs?

    dscp la tantas perguntas xD

    para finalizar, alguma recomendação?

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