Masoquismos e afins

Vinha eu da minha sessão semanal de tortura voluntária – entenda-se, assistir aos jogos do Benfica – quando ouvi os balbucios de Sócrates quando confrontado com a manifestação dos professores. Na verdade, o nosso primeiro pouco, ou nada mesmo, conseguiu dizer, para além do rotineiro e demagógico “respeitem a minha opinião, como eu respeito a dos outros”.

Quem quer que tenha feito o percurso pelo sistema de escolas públicas em Portugal, apercebe-se facilmente de que este precisa de reformas. O tipo de ensino é (quase?) obsoleto, as técnicas motivacionais não funcionam, os professores estão desgastados e os alunos desinteressados. Ao fim e ao cabo, andamos todos a perder tempo, alunos e professores, nas salas de aula, os primeiros porque não aprendem – se é porque não querem, ou porque não conseguem, é outra história – e os segundos porque, manifestamente, não têm grande vontade em estar lá dentro.

Rendemos mais quando sabemos que estamos sobre escrutínio. Por exemplo, Francisco Penim sabia que o Blasemão andava em cima dele. Não acredito que não trabalhasse, simplesmente não era suficientemente bom para levar a nau a bom porto. Foi dispensado e para o seu lugar veio Nuno Santos, o milagreiro da RTP.

Este raciocínio podia ser aplicado ao ensino (sim, ao público): se o professor não se revela competente, não serve nem a um aluno do litoral, nem a um outro no interior. A melhor forma de averiguar da competência, ou da falta dela, de um professor é através da avaliação do mesmo, ou seja, a única forma de perceber se um funcionário rende aquilo que lhe é pedido, é se alcançar as metas traçadas pelo empregador.

Neste caso, é mais difícil definir quem é o empregador no sistema público de ensino? O Estado, porque é quem paga? A autarquia, porque o activo em causa está dentro da sua jurisdição? Os pais e os alunos, pois trata-se da educação e do desenvolvimento dos mais novos? Complicado. Quem traçará, então, estas metas?

Claramente, o Estado não se pode nunca omitir da obrigatoriedade de presença na educação. Deve exigir um nível mínimo de conhecimento para todo e qualquer aluno que passe por essas salas de aula. Deve criar todas as condições para que os estudantes, mesmo aqueles que apenas cumpram a escolaridade mínima, saiam da escola com uma formação académica e civilizacional que lhes permite interagir em sociedade.

O Estado deve encomendar a avaliação dos professores, os treinadores do espírito dos estudantes portugueses. Os professores são os responsáveis pela moldagem das mentes dos estudantes. Avaliar é importante porque permite aferir quem são os cumpridores, quem leva ao fim a tarefa educativa e quem é mais capaz para leccionar. Permite separar os melhores, dos menos bons.

Porém, deve o Estado participar nessa avaliação? Isto é, deve o Estado fazer parte do painel de avaliação? Não, pois não se pode elaborar um plano infalível desde Lisboa que permita avaliar a competência de um professor inserido em diferentes contextos sociais. Claro que, em termos absolutos, o professor deve e tem de ser bom. Contudo, na altura de fazer a sua avaliação é impensável que não se tenha em conta as condições socio-económicas que influíram no seu trabalho.

Mas, atenção que isto funciona nos dois sentidos: um professor que obtenha maus resultados no litoral, a zona mais privilegiada, não poderá ter um estatuto superior a um que dê aulas no interior e obtenha bons resultados. Se com mais ovos, faz menos omoletas, como justificar que esteja num patamar superior?

Por isso, devem ser as câmaras, juntas de freguesia, associações de pais e núcleos locais de professores a encabeçar a avaliação dos docentes com base nos critérios mais adequados para o contexto social em causa.

O engraçado de tudo isto, desta contestação da classe docente, é que os professores não estão contra a avaliação. Aliás, eles são favoráveis à avaliação e, em relação às outras reformas, nem se manifestam contra algumas das outras medidas avançadas pelo Governo. Eles insurgem-se, isso sim, contra a forma escolhida pelo Ministério para introduzir o diploma, levantam-se contra o autoritarismo e a presunção que já desceu do pedestal de Sócrates e começa a contaminar os seus ministros.

Maria de Lurdes Rodrigues tem uma ambição louvável: reformar o Ensino em Portugal. Porém, falta-lhe a capacidade de diálogo com os professores, aqueles que vão ter de pôr em prática as medidas que ela, ministra, sugere. Na verdade, em democracia, um protesto que engloba dois terços de uma dada classe profissional não pode ser ignorado, nem os manifestantes catalogados como incompetentes e preguiçosos – caso contrário, mais de 66% dos professores portugueses seriam inábeis, e isso não pode ser verdade.

Quem se apresenta, em democracia, de forma tão autoritária, arrogante e despótica só pode ter tiques de masoquismo, de prazer em conviver com a dor. Será que Maria de Lurdes e Sócrates são masoquistas? Ou simplesmente são incompetentes e preguiçosos?

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