A diferença de se ter petróleo

Fez por estes dias cinco anos que o quarteto da alegria se reuniu nas Lajes e decidiu que a única coisa a fazer ao Iraque era invadi-lo e remover o tirano que dirigia os destinos do país há demasiado tempo.

Foi nessa noite que o destino de milhares de iraquianos, americanos, britânicos e demais europeus ficou selado. Morreriam a combater pela liberdade, pela protecção dos valores da liberdade e pela salvação de toda uma nação subjugada ao domínio de um déspota da pior espécie – com ligações à Al Qaeda e tudo.

Cinco anos depois, infelizmente, sabemos que isto não é verdade. Saddam foi destituído, julgado e assassinado. Porém, o Iraque não encontrou a salvação. Pior, entrou numa crise social, económica, religiosa e étnica sem paralelo no país. Não se vê sequer a luzinha ao fundo do túnel e basta que o vice-presidente dos EUA vá lá fazer uma visita – rápida, sempre rápida – para explodirem mais uns camiões e morrerem mais umas pessoas.

Mesmo para os EUA os custos da guerra têm sido demasiados. No livro “The Three Trillion Dollar War”, do Nobel Joseph Stiglitz e da professora de Harvard, Linda Bilmes, é feita uma análise, fria como só os números o conseguem ser, acerca dos custos desta guerra para a nação mais poderosa (?) do Mundo. Por exemplo, dez dias de combate custam 5 mil milhões de dólares aos cofres do Pentágono. Segundo os autores do livro, até 2017 as guerras do Afeganistão e do Iraque terão custado qualquer coisa como 3.5 milhões de milhões de dólares. Cifras quase irreais, mas representam o custo da guerra.

Mas, se esta guerra tivesse servido para melhorar a vida dos iraquianos e trazer mais paz ao Mundo, não seria eu quem a condenaria. Todavia, isso não se verificou e mais do que isso, a cada dia que passa cresce incessantemente uma ideia na cabeça de todos: os verdadeiros fins da guerra não foram o 11/9, não foram os curdos torturados nem a intenção de melhorar a vida dos iraquianos. Não. A principal motivação para a invasão foi, pura e simplesmente, o petróleo. O ouro negro, cujo valor em bolsa não pára de aumentar, achega-se como a única razão para o combate, o motivo pelo qual as ruas de Bagdade estão vermelhas, repletas de sangue derramado de ambos os lados da barricada.

Só assim se pode perceber o interesse pelo Iraque quando já todos sabemos que nunca houve armas de destruição massiva, nunca houve ligações com a Al Qaeda – Bin Laden até nem ia muito à bola com Saddam – nem nunca houve um perigo imediato e real de ataque aos EUA por parte do regime iraquiano. Aliás, para além de uns magnatas do petróleo do Texas, companhias de construção e de segurança privada, parece que mais ninguém lucrou com a guerra. Nem mesmo os iraquianos.

Por outro lado, o Tibete é chacinado, quer do ponto-de-vista humano, quer de um ponto-de-vista cultural. Desde a ocupação chinesa que a degeneração dos costumes tibetanos tem sido uma constante, principalmente desde que se instalaram nas montanhas colonos chineses, que vinham com a verdadeira missão de aculturar os locais e de eliminar os rastos singulares do povo tibetano.

Hoje o Governo tibetano no exílio confirmou que mais de 100 pessoas já morreram desde sexta-feira, início das manifestações contra a China, esse Estado que ocupou um estado vizinho que vivia, por vontade própria, na extrema pobreza, acreditando que a vida humana não precisa de coisas como o desenvolvimento e a modernização. Viviam vidas simples. Simples, mas humanas.

E que dizem disto os líderes do Mundo livre do Ocidente? Que fazem eles perante este genocídio, como disse o Dalai Lama – sim, o mesmo que Lisboa ignorou –, que ameaça a existência de um povo singular na sua concepção do valor da vida? Valem mais as vidas dos curdos massacrados do que as dos tibetanos humilhados por Pequim? É mais legítima a pretensão dos iraquianos de se verem livre de Saddam do que dos tibetanos em se livrarem da opressão chinesa? Não é a China um estado que, repetidamente, viola os acordos internacionais sobre os Direitos Humanos?

Os Bush, Blair e Barrosos do nosso tempo não passam de rufias que pegam apenas com aqueles que são, evidentemente, mais fracos do que eles. Ninguém irá fazer nada para ‘salvar’ o Tibete, porque salvar o Tibete não dá dinheiro nem petróleo. Os tibetanos são um povo das montanhas que vive fechado sobre si mesmo. Quem quer saber deles? Os americanos e europeus não querem de certeza. E a China de hoje não é, propriamente, o Iraque dos últimos tempos do Saddam. Já inspira mais algum respeito.

E, depois, é suposto ficarmos todos contentes enquanto a chama olímpica chega a Pequim e aplaudimos os esforços dos atletas e enaltecemos os progressos que a China comunista tem feito, preferindo esquecer que não muito longe mora um povo molestado, violentado e estuprado por esse mesmo estado. Mas mandam as regras da boa educação não incomodar o anfitrião com questões tão insignificantes como o genocídio.

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