Quem faz serviço público de TV em Portugal?

A RTP existe para fornecer aos espectadores ‘serviço público de Televisão’. Não é uma empresa com fins lucrativos nem interessada – dizem – em liderar as audiências. Porém, com a sua política de dois canais, a 1 e a 2, vai separando também as águas ao nível do serviço ao cidadão: para a 2 vão os conteúdos mais fechados, das elites, de culto; para a 1 vai aquilo que é mais mainstream e, vá lá, populucho. A questão é esta: Onde se encontra o serviço público na RTP1?

Basta analisar a grelha da RTP1 e compará-la, por exemplo, à da SIC – fazer este exercício com TVI seria demasiado penoso e monótono – para ver como responder a essa pergunta é difícil. Ambas têm serviços noticiosos durante a manhã, o da SIC arranca logo às 6h00 enquanto que o ‘Bom Dia Portugal’ vai para o ar na RTP1 30 minutos depois. Depois, entre as 8h35 e as 11h10 a SIC apresenta conteúdos de animação infantil, ao passo que a RTP começa logo às 10h00 a maratona Jorge Gabriel, com a exibição da Praça da Alegria que conta também com a bela Sónia Araújo.

Às 11h10 a SIC entra com o ‘Fátima’, talk-show em tudo, mesmo tudo, inspirado no famoso “Oprah” da apoiante de Barack Obama, Oprah Winfrey. Aqui levanta-se a primeira questão: em termos de serviço público, tem a Praça da Alegria um carácter de maior prestação de – perdoem a redundância – serviço do que o Fátima? Qual a diferença essencial entre os dois que permite dizer que um é, serviço público, e o outro não?

Às 13h00 ambos arrancam para a informação à hora de almoço. Por curioso que pareça, ambos apresentam às 14h15 uma telenovela brasileira. Outra vez, onde está a diferença? Às 15h20 continua a sessão Jorge Gabriel com a repetição do ‘Quem Quer Ser Milionário’ da noite anterior (pagamos a nossa taxa de TV para ver repetições de um concurso?) para as 16 arrancar o ‘Portugal No Coração’, o equivalente da RTP ao ‘Contacto’ da SIC. Mais uma vez, estabelece-se entre os dois uma semelhança de conteúdos que não nos permite, objectivamente, estabelecer de forma cabal a distinção entre um canal público e um privado. As aberrações ditas pelo João Baião são de maior interesse público do que os decotes da Rita Ferro Rodrigues?

Na SIC arranca mais uma telenovela brasileira às 18h05, enquanto que na RTP ‘O Preço Certo em Euros’ desenraíza às 19h00. Não existe semelhança no género do conteúdo, mas da perspectiva de interesse nacional são iguais: zero. Ninguém poderá, provar, que olhar para o Fernando Mendes e acertar nos preços de torradeiras e afins pode ser considerado serviço público.

Às 20h00 ambos apresentam a informação nocturna, antes da primeira separação digna de registo. Enquanto que a SIC massacra os espectadores com os ‘Malucos do Riso’ às 21h00, a RTP irá apresentar um especial de informação sobre a Guerra no Iraque. Finalmente, um conteúdo de claro interesse público. Só é pena que tenhamos tido que esperar 21 horas para encontrar alguma coisa com valor claro para o espectador – descontando os serviços noticiosos.

Durará 45 minutos esse especial, pois às 21h45 arrancará a terceira etapa da penosa tarefa de voltar a ver Jorge Gabriel fazer perguntas parvas a pessoas pouco menos parvas. Curioso que esse concurso durará mais do que o especial de informação anteriormente exibido. Enquanto isso, a SIC inova com duas telenovelas brasileiras de seguida.

Às 22h45 a RTP exige o último episódio de uma mini-série de carácter religioso, seguido por um filme. A SIC aposta no ‘CSI’, ‘Socorro’ e em ‘Quando o Telefone Toca’.

Na prática houve apenas 45 minutos em que, claramente, a RTP prestou aos cidadãos um serviço de televisão útil, enquanto que a SIC fazia entretenimento barato. De resto, todas as outras opções da estação pública são, no mínimo, discutíveis. Por outro lado, a 2 exibe uma programação alternativa com conteúdo artístico, informativo e de entretenimento, sem fins lucrativos. Ou seja, faz serviço público.

A questão aqui é simples: Ou definimos de uma vez por todas o que é o serviço público de televisão, ou então aceitamos que a RTP há muito que deixou de ter o cidadão em mente e é uma empresa privada de capitais públicos que opera num mercado de concorrência desleal, pois enquanto tem duas fontes de rendimento – o Estado e a Publicidade – as outras têm apenas uma – a publicidade.

Se assim for, então é gerida por pessoas sem capacidade que com mais instrumentos e possibilidades não fazem televisão marcadamente melhor do que os concorrentes.

Se à RTP1 interessam as audiências, então não pode continuar com a ilusão de que faz serviço público. E, se já não faz esse serviço, não existe razão para que continue a receber dinheiro do Estado porque, por uma questão de coerência, como podemos justificar que um canal televisivo receba fundos do Governo quando, num dia de programação, tem apenas 45 minutos de televisão marcadamente de interesse público quando em comparação com um distribuidor privado?

Então, que se comece a dar dinheiro à SIC e à TVI que não enjeitarão a possibilidade de fazer “serviço público” à là RTP.

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4 respostas a Quem faz serviço público de TV em Portugal?

  1. Rita diz:

    A prestação de um serviço público não é sinónimo de que se menosprezem as audiências. Também à RTP lhe interessa ter boas audiências. No entanto, enganas-te quando dizes que não presta aos cidadãos um autêntico serviço público. A RTP1 é o único canal que percorre todos os géneros televisivos: tem uma grande entrevista, um debate, reportagens, etc. Ou seja, é o único canal que consegue oferecer-nos uma programação diversificada, porque a lei assim o exige. Embora a lei também o exija aos restantes;)

  2. “A prestação de um serviço público não é sinónimo de que se menosprezem as audiências. Também à RTP lhe interessa ter boas audiências.”

    Não, não é . Deveria (deverá?) ser possível criar uma grelha que preencha ambos os campos, isto é, que satisfaça o interesse público e que consiga alcançar boas audiências. Ora, notoriamente, não é isto que acontece. Não acontece porque à RTP interessam audiências independentemente da prestação de serviço público. Quer dizer que o cumprimento da tarefa principal da RTP passa a ser um bónus, pois se a RTP concorre com as privadas na busca da publicidade, não pode descurar as audiências – e concordamos que me Portugal não são os conteúdos de maior qualidade que conseguem maiores audiências. E, aos anunciantes não interessa se o conteúdo é, ou não, serviço público; se for visto, basta.

    Depois, com a desculpa do serviço público é que a RTP vem pedir dinheiro ao Estado. Mas, no grosso, a estação não tem na sua programação uma matriz claramente de serviço público – tem uma preocupação marcadamente mercantilista.

    “A RTP1 é o único canal que percorre todos os géneros televisivos: tem uma grande entrevista, um debate, reportagens, etc.”
    Não, não é. Por exemplo, a SIC tem também a secção de entrevista, reportagem e debate nos seus espaços noticiosos. Mais, se envolvermos a SIC Notícias ao barulho, então somos obrigados a ver que, provavelmente, não é a RTP que oferece mais espaço de deabte à sociedade; à sociedade e sobre a sociedade.

    Mas deixo as perguntas: Por que razão é importante à RTP ter boas audiências? Quantidade é sinónimo de qualidade? É a TVI a melhor estação televisiva de Portugal?
    Num mercado de concorrência livre, não deveriam as regras ser iguais par todos? Se a RTP se intromete no campo ds receitas das privadas, por que motivo não podem estas últimas receber do Estado?

  3. Rita diz:

    “e concordamos que me Portugal não são os conteúdos de maior qualidade que conseguem maiores audiências”.
    ora bem, estive a pensar na melhor maneira de responder a isto e a verdade é que… é uma treta=P nem em portugal nem em parte nenhuma! na generalidade (atenção à salvaguarda..), as pessoas não se interessam pelo que é melhor. gostam do foleiro. mas isso é uma questão à parte…

    “Não, não é. Por exemplo, a SIC tem também a secção de entrevista, reportagem e debate nos seus espaços noticiosos.”
    exactamente: nos espaços noticiosos. Ora, a RTP é a única que oferece esses conteúdos DEMARCADOS de um programa informativo. o que faz toda a diferença para a “contagem” de “programação diversificada”.

  4. “na generalidade (atenção à salvaguarda..), as pessoas não se interessam pelo que é melhor. gostam do foleiro. mas isso é uma questão à parte…”

    sim, é uma questão à parte e mesmo assim não sei. Confesso que não conheço as grelhas de todos os canais públicos de todo o Mundo, nem as suas audiências. talvez tenhas razão, talvez não. Em Portugal, garantidamente, o canal mais visto não oferece conteúdos qualitativamente proporcionais às suas audiências.

    “Ora, a RTP é a única que oferece esses conteúdos DEMARCADOS de um programa informativo. o que faz toda a diferença para a “contagem” de “programação diversificada”.”

    o que faria toda a diferença era a RTP apostar numa política de serviço público mais continuada. Ou seja, que os conteúdos dessa linha não aparecessem espalhados pela grelha, de forma quase aleatória. Não faz sentido dizer que a RTP é melhor do que a SIC apenas porque demarca o conteúdo, pois na verdade ele existe em ambos os canais.

    Nem me parece correcto dizer-se que serviço público é apenas material informativo. É perfeitamente possível ter uma grelha interessante e dinâmica, preenchendo os critérios de serviço público, sem se restringir à informação.

    As questões continuam. Por que razão são as audiências tão importantes para um servidor público? Mais, por que é tão difícil olhar para a grelha desse canal e, em comparação com a de um privado, encontrar claramente os conteúdos que fazem a distinção entre serviço público e serviço privado de TV? Se a RTP fosse eficaz na sua missão, haveria espaço para este tipo de questões? Olha que ninguém coloca em causa o facto de a 2 ser “serviço público”.

    Já agora, o que é serviço público de televisão? É a televisão que todos querem ver, ou a que todos deveriam ver?

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