“Quanto custa o Jesus?” “250 euros, menino.”

1601.jpgEste ano não passei a Páscoa em casa. Ao contrário daquilo que manda a tradição, que me põe a beijar 5 cruzes a cada domingo pascal, fui passar o dia ao Santuário de Fátima. Ora, foi em passeio pela vila que tomei nota de uma coisa que me impressionou: o valor astronómico das estatuas de Cristo e de Nossa Senhora.

Uma senhora, alemã, perguntou à menina da caixa de uma dessas lojas quanto custava uma representação em mármore da Virgem Maria. “650 euros”, foi a resposta da jovem. Outras reproduções, mais pequenas e mais toscas, iam para os 300, outras para os 200 euros. Inclusive, um crucifixo em madeira com a imagem de Jesus em bronze estava à venda por 250 euros. Nada mau.

Depois, dentro do Santuário, não deixa de surpreender a nova Basílica. A Igreja da Santíssima Trindade é um objecto arquitectónico notável, com doze portas, cada uma baptizada por um dos apóstolos. Para além da sala principal, nos pisos subterrâneos há uma imensidão de capelas e capelinhas consagradas a tudo o que é santo, cada uma com o seu santinho banhado em ouro.

Confesso que, enquanto assistia à cerimónia episcopal, estive bastante tempo a pensar nisto tudo. A religião, e falo da cristã neste caso, é uma autêntica máquina de fazer dinheiro. Pensamos em Fátima, em Lourdes e, claro, no Vaticano e não podemos deixar de reparar na ostentação da Igreja, que contrasta com a pobreza de milhões de fiéis que não têm onde passar a noite.

Mas, voltando ao início, o caso das imagens é muito interessante e elucidativo da interpreatação popular e errada do fenómeno religioso. Quem conhece a Bíblia sabe que, no livro do Êxodo, Deus diz a Moisés o seguinte: “Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma do que há em cima no céu, e do que há em baixo na terra, nem do que nas águas debaixo da terra. Não adorarás tais coisas, nem lhes prestarás culto.” 

Ou seja, Deus proíbe a Moisés o culto de símbolos – algo que estava impregnado na tradição politeísta do povo egípcio, do qual os judeus se haviam libertado. A ligação com Deus faz-se de dentro, pela oração, através do coração e pelo cumprimento dos X Mandamentos, onde o Senhor lá de cima dá a conhecer as regras do jogo terreno. Curioso, que logo o primeiro desses mandamentos é este: “Não fareis imagem esculpida, nem figura alguma do que está em cima do céu, nem em baixo na Terra, nem do que quer que esteja nas águas sob a terra. Não os adorareis e não lhes prestareis culto soberano.”

Mesmo assim, a Igreja patrocina o objecto religioso. Se numa primeira instância servia como forma de resistência face aos opressores romanos – os cristãos desenhavam cruzes nas suas medalhas na tentativa de contrariar o totalitarismo Imperial e de criar um grupo de fiéis – depois da consolidação da religião católica o símbolo passou a ser exactamente aquilo que os antigos – e Deus – haviam querido evitar: uma figura representativa de algo que está no Céu, adorando-se a figura e não a mensagem.

E, mais grave do que isso, a Igreja entrou no negócio da venda desses materiais, tal como havia entrado no negócio da venda de pedaços do Céu, nos tempos das indulgências. É esta uma dupla infracção à regra divina: não só autoriza e aprova dos símbolos, como os vende e patrocina o seu culto, entrando em choque com a Palavra da Salvação. Por exemplo, não será o culto a um santo uma forma de politeísmo? Não estamos a adorar outra figura, para além de Deus? Não está a Igreja a apoiar o culto a outras figuras para além de Deus e Cristo?

Um pouco na linha – imagine-se esta associação! – do comunismo, também a Igreja Católica começou com um grupo de indivíduos que queriam espalhar uma doutrina de igualdade e justiça entre os homens, mas aquilo em que se tornou foi – agora, pasme-se com esta! – num fenómeno semelhante ao da URSS, isto é, num clube de amigos e de bons costumes com uma visão errada e estagnada da sociedade que, pior do que isso, procuram retirar lucro para uma instituição que em vez de receber deveria dar – e, claro, também foram tirando uns ‘pedaços do céu’ para eles.

A nova igreja de Fátima é muito bonita. Sem dúvidas. Mas não teria feito melhor a congregação em investir esse dinheiro em centros de reabilitação ou acolhimento social? Ou em ajudar organizações internacionais, como a AMI, e combater a pobreza e a miséria de algumas nações cristãs de África?

Algo vai mal dentro de uma religião quando o melhor que se consegue fazer com os milhões que os fiéis doam é construir uma igreja em tamanho gigante, esquecendo os milhares que poderiam ser servidos com esse dinheiro.

Mas, se perguntarem a quem manda, dirão que o grande problema da Igreja de hoje é o sexo antes do casamento e a união entre homossexuais. A opulência e luxúria da Igreja são um mal-menor, um pecadozinnho sem importância.

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