We’ve got a War to fight

portishead.jpgNão estive lá há 10 anos. Não estive lá na quarta-feira. Não estive lá na quinta-feira. Não fui ver Portishead. Não fui ouvir a voz de Beth Gibbons. Não me arrepiei com os acordes estridentes de Geoff Barrow e Adrien Utley.

Há 10 anos não poderia ter ido. Em 1998 andava a seguir demasiado Bryan Adams ou os Corrs para me aperceber dos Portishead – apesar de estar em vias de ‘riscar’ ‘Supernatural’, de Carlos Santana.

Ainda bem que não fui. Não tinha maturidade para perceber, ou tentar perceber, a riqueza presente no sofrimento das letras de Gibbons, nem os arranjos musicais ‘out of this world’ de Barrow e Utley.

Foi só aos 20 anos. Esperei 20 anos para ouvir Portishead. ‘Only You’ foi a faixa que marcou o início da minha relação com Beth. Desde o princípio todo aquele universo sonoro pareceu-me ter tanto de estranho, quanto de fascinante. Comecei a perceber que ouvir Portishead era embarcar numa viagem sem destino e, mais estranho, sem proveniência. Simplesmente, entrava-se na nave, não interessando – nem existindo – qualquer tipo de procedência anterior.

Mas foi com 21 que assumi o meu relacionamento com Beth Gibbons. Em Manchester, lar da Hacienda dos Joy Division e dos Smiths, de Roy Harper e dos Oasis, fui desafiado por um sueco a ouvir ‘Dummy’. Disse-me o rapaz, o único sueco louro que conheci, enquanto mascava uma pastilha de tabaco, que aquele era o derradeiro álbum, a verdadeira experiência musical em que corpo e alma se fundem e fazem um só. Não estava céptico, nada disso, mas custava-me a acreditar que fosse assim tão bom.

Mas é. Dummy é daqueles álbuns que todos os músicos querem fazer – e os Portishead acertaram à primeira. Lindo do plano musical e ao nível das letras, existe em todo o álbum um afecto, um carinho muito grande pela existência humana que transparece nos rasgos de dor, sofrimento e ódio que a vocalista deixa fugir por entre gemidos, sussurros e desabafos.

Talvez como a grande parte dos fãs, a faixa que me marcou foi “Roads”. Ouvi o álbum, numa madrugada após essa noitada em que o sueco Thomas me aconselhou a voz de Beth. Cheguei a casa, liguei o PC e carreguei no botão do download. 45 minutos depois estava deitado na minha cama, a ver o sol timidamente penetrar por entre as frinchas da persiana. Quando começou a tocar Roads, abri os olhos que se tinham fechado para criar o ambiente para a experiência musical. Despertei.

Despertei para as gotas de água que vão caindo e avisando que a tempestade estava a chegar. “Oh, can’t anybody see/we’ve got a war to fight/Never found our way/Regardless of what they say”, começa Beth. O tormento que contamina a sua voz é mel para os ouvidos de quem escuta. Acima de tudo é genuíno, não só o sofrimento, como a compaixão que erradia da sua boca.

Foi a partir desse momento, dessa manhã em que ouvi o álbum, que quis fazer parte do universo Portishead, quis conhecer mais sobre este grupo que marcou a segunda metade da década de 90 e que, tão naturalmente quanto surgiu, desapareceu para sempre. Descobri que a vocalista não fala em público, que não ouve música contemporânea e que, a maior parte das vezes, os outros dois músicos da banda não percebem as letras das músicas – apenas tratam de arranjar som para acompanhar a poesia de Beth.

Descobri também que inúmeras pessoas – sobretudo mulheres – classificavam Portishead como a melhor banda para se ouvir na cama, enquanto se faz amor ou sexo, para fins de procriação, ou para simples recreio.

Eu acho que têm razão. Mas, também, sou suspeito devido ao meu relacionamento demasiado próximo com Beth Gibbons, com a sua voz e com as suas letras.

Não estive lá há 10 anos, quando lá era a Zambujeira. Não estive lá na quarta, no Porto. Não estive lá na quinta, em Lisboa. Não estive. Mas com a voz de Beth e com a música de Geoff e Adrien estou sempre. Desde aquela noite em Manchester.

Esta entrada foi publicada em Eclipses, Música. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s