A Lei do mais forte

Portugal perdeu contra a Alemanha a possibilidade de disputar a terceira meia-final consecutiva de um Europeu de futebol. A derrota por 2-3 perante os germânicos, apesar de custosa, não deixou de ser justa.

A Alemanha foi a equipa mais inteligente. Percebeu quais eram os pontos fracos de Portugal e anulou-os. Melhor do que isso, entendeu por onde podia entrar na defesa nacional e conseguiu-o com êxito.

Por exemplo, a colocação de Schweinsteiger no lado direito do ataque tinha por objectivo explorar as debilidades de Paulo Ferreira. Podolski à esquerda ajudava Lahm a anular Simão. Com Ronaldo sempre vigiado de perto por dois adversários, sobravam Deco e Nuno Gomes, os melhores jogadores da Selecção – ao lado de Pepe – para criar os desequilíbrios.

Deco conseguiu criar muitos espaços para colocar a bola e Nuno Gomes abriu imensos buracos na defesa alemã, que deveriam ter sido melhor aproveitados por Simão e Ronaldo. Não foram e como quem não marca arrisca-se a sofrer, Portugal sofreu em quatro minutos. Foram dois golos que resultaram de dois erros crassos: falta de pernas de Paulo Ferreira para acompanhar Schweinsteiger e má colocação de Pepe – único erro na partida – no primeiro golo e total desconcentração defensiva, piorada pela notória falta de confiança de Ricardo, incapaz de se sair em termos a um cruzamento, no lance do golo de Klose.

O golo de Nuno Gomes permitiu acalentar esperanças, dizimadas após o falhanço de Ricardo e do árbitro, pois no lance do terceiro golo as culpas são a repartir pelos dois: se é verdade que Paulo Ferreira é carregado por Ballack, não é menos verdade que Ricardo saiu muito mal dos postes. Aliás, ao longo dos três jogos foi evidente o desacerto do guarda-redes, assim como a falta de empatia com os colegas.

Muito se vai falar da arbitragem para explicar esta derrota. E, apesar de não ser legítimo atribuir todas as culpas a Peter Frojdfeldt, a verdade é que o árbitro sueco esteve mal. E, esteve mal porque não manteve um critério linear, admoestando faltas para um lado – normalmente o alemão – e deixando jogar quando se invertiam as camisolas dos protagonistas da acção. O lance do terceiro golo alemão é capital, mas várias outras faltas e admoestações foram evidência de alguma falta de critério.

A UEFA deve olhar com atenção para a arbitragem deste Europeu. De muito mau nível e, em alguns casos, a roçar o medíocre. Pior do que isso, nota-se que o peso das Federações está a voltar ao terreno de jogo, com as mais fortes a ter alguns benefícios em contraste com as associações mais pequenas.

Porém, e voltando ao essencial, Portugal despede-se da Suíça por culpa própria. A equipa tinha mais futebol do que a Alemanha, mas nunca conseguiu mostrar que era superior. Deixou-se envolver na teia montada pelos germânicos e dela só saiu a espaços, normalmente quando Deco pegava na bola. Ronaldo? Nem vê-lo.

Terminou o reinado Scolari e a pergunta tem de ser feita: qual o legado do brasileiro? A meu ver, a grande conquista de Scolari foi a conquista da empatia do povo português com a selecção. Desportivamente, não creio que deixe grandes resultados: um segundo lugar num Europeu que era para ganhar, um quarto lugar num Mundial, uma péssima qualificação para o Euro 2008 e uma presença a roçar a desilusão na prova, com 2 derrotas em 4 jogos – não nos esqueçamos que o próprio Scolari colocou a fasquia nas meias-finais.

Com resultados destes em Inglaterra, não durará muito tempo no Chelsea.

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9 respostas a A Lei do mais forte

  1. Por acaso até penso que, desportivamente, deixa um legado de realçar. Em três competições consecutivas conseguiu deixar Portugal num 2º lugar, num 4º lugar e num 5º/8º lugar. Historicamente, isto é inédito.

  2. Em 2004 perdeu um Europeu, em casa, contra a Grécia. Se há o mérito de ter chegado à final, existe a incompetência de, após a primeira derrota contra os gregos, não ter conseguido ganhar a prova. Se o Jesualdo perdesse uma final da Liga dos Campeões, no Dragão, contra o Olympiakos, achas que ficava?

    O quarto lugar no Mundial é muito melhor do que o nível exibicional da equipa. Portugal jogava mais em esforço do que em qualidade e, prova disso, é que não conseguiu eliminar um Inglaterra com 10 em tempo regulamentar, e perdeu contra a França – sem discussões – e foi humilhado pelo Alemanha.

    Em 2008, não tendo aprendido a lição contra os Alemães, comete os mesmos erros e perde, depois de ter dito que o 2008 era para ganhar.

    Consegue bons resultados. Não resultados óptimos. Mais, numa conjuntura que lhe foi favorável, com uma fase final disputada em casa, com uma equipa muito boa, não foi capaz de ganhar uma só prova.

    Dizer-se que o Scolari fez uma trabalho histórico, é dizer-se que o Avram Grant também teve uma época fabulosa. Afinal, acabou a disputar a liga e foi à final da Champions. mas, perdeu tudo e foi despedido. Historicamente, inédito. Em termos concretos, inútil.

    Ao fim de 5 anos, Scolari revela-se um vendedor de sonhos, não um treinador de primeira linha, pois nenhum treinador de primeira perderia duas vezes contra a Grécia na mesma prova.

  3. Phillipe, isso depende da tua perspectiva. Quando perguntas se o Jesualdo era despedido depois de perder a final com o Olypimiakos estás a inverter a questão. A verdadeira pergunta é se o Jesualdo seria despedido depois de chegar a uma final da Liga dos Campeões. Qualquer dia estamos a dizer que se o Rio de Albelas chegasse à final da Taça de Portugal e perdesse com um clube da 3ª isso era um resultado inútil.

    Claro que toda a gente quer ganhar, mas pelos critérios que tu utilizas, então a Espanha e a Inglaterra dos últimos 20 ou 30 anos são uma porcaria de primeira. E a Holanda de 2000 era uma autêntica merda, porque não conseguiu chegar à final em casa e perdeu contra uma Itália com menos um jogador e com dois penaltys durante o jogo.

    O que é que querias do Scolari? Que ganhasse as três competições? Isso é daquelas utopias lusas, mas que fica bem com a frase «nenhum treinador de primeira perderia duas vezes contra a Grécia na mesma prova». Com critérios destes, nem o Mourinho passava. Afinal, também ele perdeu contra o Aston Villa duas vezes numa só época…

  4. Quando se tem um plantel como o de 2004 – um bocado superior ao do Rio de Albelas – e se joga uma prova em casa, há maiores responsabilidades em garantir uma vitória.

    Se o Jesualdo perdesse a final contra o Milan ou o Real, ok. Grandes equipas e tal. Agora, contra o Olympiakos… O Sporting tentou segurar o Peseiro e foi o que foi.

    Em 2000, a Holando caiu contra a Itália. Não foi contra uma equipa de 2º (3º?) plano Europeu. E, a Itália com menos um jogador é sempre uma equipa fantástica. Principalmente, a de 2000.

    Mourinho perdeu com o Villa. Mas, em 3 anos ganhou 2 ligas, 1 taça de inglaterra, 1 taça da liga e 1 supertaça. Ganhou. Não foi quase. Porque, se falarmos nos quases, temos duas meias-finais da Champions, e finais da taça e supertaça. Scolari não ganhou nada em 5 anos e meio. São factos, não suposições.

    Mais, antes do Euro, Portugal era o 11º do ranking FIFA. Após o Euro 2000, Portugal chegou a ser 3º.

    E, nada de especial fizeram a Espanha e a Inglaterra dos últimos anos – veremos o que faz hoje a Espanha.

    Ah! E o Scolari não perdeu ´só’ duas vezes contra a Grécia. Engano meu. Empatou um jogo antes do Euro e perdeu o amigável de Março. Para treinador de primeira, não deixa de ser pouco famoso perder tantos jogos contra uma equipa daquelas. Até dá a ideia de que ele não aprende com os erros…

  5. Phillipe, tu tratas a selecção portuguesa como 99,9% dos portugueses a tratam: como aquilo que gostariam que ela fosse e não como aquilo que efectivamente é.

    É que, historicamente, estamos a falar de uma selecção que nunca tinha sequer ido a uma final, que nunca tinha marcado presença em três grandes certames seguidos e que nunca tinha ficado durante dois anos sempre entre os quatro primeiros lugares.

    E é em relação ao passado que a avaliação tem de ser feita, não em relação a uma putativa qualidade que toda a gente encontra todos os anos mas que durante quatro ou cinco décadas resultou em três meias-finais. O Scolari fez, em seis anos, aquilo que todos os outros fizeram durante 40 ou 50. E isto sim, são factos😉

  6. Eu trato a Selecção Portuguesa como a sua Federação a trata: uma das melhores do Mundo.

    Se os responsáveis pela Federação disseram que o 2004 era para ganhar e que o 2008 também, então é assim que eu vejo a selecção portuguesa, isto é, como uma selecção candidata a títulos.

    E, para conquistar esses títulos, colocou-se no leme do barco o brasileiro Scolari. E, facto por facto, ele não ganhou nada.

    A culpa é tanto dele como de quem o pôs lá. E por lá o manteve.

    E, mesmo adoptando uma postura mais cautelosa, como a que evidencias, de 2004 até agora há uma clara regressão: vice-campeões da Europa, quartos do Mundo e oitavos da Europa.

    E, agora, até deixo esta provocação: para mim, era mais forte e melhor orientada a Selecção de 2000 do que a de 2004. Chegou às meias-finais da melhor competição de Selecções de que me recordo e caiu perante a melhor equipa da década. E só no prolongamento. Essa não perdeu nenhum jogo contra a Grécia. Aliás, até ganhou à Alemanha por 3-0. E com a equipa ‘B’…

  7. ps: já agora, respondias aos mails de ciberjornalismo😉

  8. Phillipe, é como os jogos dos Coxos. São todos para ganhar, mas há que ter discernimento para saber que os outros também querem o mesmo e, que infelizmente, só um o pode fazer. Segundo esse critério, este ano tinham sido despedidos todos os treinadores candidatos ao título excepto um: o vencedor.

    E nota uma curiosidade. Tu louvas a selecção do Humberto Coelho, que nunca chegou a uma final. Por este critério o Scolari devia ser um Deus. E olha que os de 2000 também empataram com o Azerbaijão… E com o Lichenstein… E perderam 3-0 com a Inglaterra… E etc., etc.

    Já respondi ao e-mail😛

  9. não é bem como nos Coxos. já que falei em 2000, recordo que ninguém disse que era para ganhar. era para ver se passávamos a fase de grupos, pois íamos ter de jogar contra alemanha e inglaterra. Não só passámos, como fomos quase até ao fim.

    ou seja, superaram-se objectivos e expectativas. Algo que Scolari nunca fez – ok, dou de barato o 4º lugar no Mundial, se bem que as circunstâncias específicas permitiam sonhar com mais qualquer coisa.

    Insisto no outro ponto. A selecção do Humberto nunca chegou a uma final. Certo. mas, a do Scolari, apesar de ter chegado, perdeu com Grécia uma prova disputada em casa. Depois disso, não me recordo de mais alguma final. e tu?

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