Um Big Mac feito refém

Há cerca de duas semanas, vi José Miguel Júdice a falar do “medo da liberdade” dos portugueses. Falava o jurista a propósito da decisão do governo em colocar chips nas matrículas dos carros de modo a poder localizá-los, caso os mesmos fossem roubados.

A linha essencial do raciocínio de Júdice era muito clara: a liberdade não deve ser vigiada e a insegurança é um mal que se torna necessário para que possamos viver em liberdade. Por raciocínio lógico, devemos assumir que uma sociedade que valorize a segurança sobre todas as coisas, não será uma comunidade livre.

Ora, ontem, enquanto aguardava pelo autocarro da meia-noite, para me levar de Carnaxide até Lisboa, o McDonalds da Avenida de Portugal foi assaltado e a caixa registadora levada. Foi tudo relativamente rápido, tendo os assaltantes entrado, feito algum barulho e saído à máxima velocidade.

A polícia apareceu pouco depois para tomar nota da ocorrência e selar o espaço, com aquela fita amarela que vemos nos filmes.

Na verdade, a posição de Júdice sobre a matéria da vigilância parece-me ser aquela que idilicamente deveria ser vigente. Seria óptimo que não precisássemos de medidas extraordinárias de segurança para garantir o nosso padrão de vida.

Porém, a verdade é que não vivemos numa sociedade isenta de criminalidade. Mais, são estes receios pela nossa segurança que nos levam a não viver em liberdade. Vivemos num clima de medo, com medo dos assaltos, das agressões ou do carjacking.

Se as pessoas não se sentirem seguras, de nadas lhes vale dizerem que são livres. Na verdade, é em tempos desses que elas começam a pesar na mesma balança os valores da segurança e liberdade, sendo que a segurança começa cada vez a pesar mais.

Não creio que a liberdade deva ser algo que existe sem segurança. Melhor, não me parece que aqueles a quem atribuímos a responsabilidade de garantir a nossa liberdade não tenham, também, a função de assegurar um clima de segurança para que possamos gozar dessa liberdade.

Também não acredito que a insegurança seja uma consequência natural, um mal necessário, da vida em liberdade. Deve ser possível a coexistência entre liberdade e segurança, não sendo as medidas tomadas para assegurar a sua concomitância vistas como atentados à nossa liberdade.

De nada me serve ser livre, se tenho medo de fazer uso dessa liberdade.

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