Lutar por (quase) nada

Lembro-me perfeitamente de uma passagem de “Inside Out”, o mais próximo que alguma vez teremos de uma biografia oficial dos Pink Floyd – by the way, o autor é o baterista da banda, Nick Mason – em que a dada altura é discutida a guerra das Malvinas, que opôs a Inglaterra à Argentina.

Ora, é acreditada a Roger Waters a mais brilhante metáfora sobre esse conflito: “A Inglaterra e a Argentina parecem dois homens carecas a lutar por um pente”.

O raciocínio de Waters é perfeitamente inteligível: uma guerra sobre uma praia grande parece perfeitamente absurda, desnecessária e ridícula.

E, quando olho para este conflito entre a Geórgia e a Rússia fico a pensar exactamente no mesmo. Em primeiro lugar, confesso que nem sabia que a Ossétia do Sul existia antes de os georgianos mandarem para lá as tropas; depois, tal como um dos coordenadores da SIC, não percebia o que aquilo era nem para o que servia.

Depois, naturalmente, vieram as explicações dos comentadores e analistas de política internacional, uns mais conhecedores do que outros, que rapidamente vieram explicar que a Ossétia do Sul é um território com pretensões de autonomia, maioritariamente habitado por russófonos mas que é visto, pela comunidade internacional, como parte integrante do território da Geórgia.

Tblissi pretendia garantir a sua integridade territorial, numa altura em que corre o seu processo de adesão à NATO – e, quem sabe se não vem aí uma tentativa de chegada à União Europeia – com a erradicação dos focos de insurreição dentro das suas fronteiras e, escudada pelos EUA, mostrar a imagem de um país forte e independente.

Porém, fizeram mal as contas e deviam ter percebido que a Rússia não quer uma “colónia” Ocidental ali ao lado e que tudo fará para manter no poder dos países vizinhos líderes pró-Moscovo – veja-se o que aconteceu na Ucrânia e o caso do sistema anti-míssil na República Checa.

Debaixo da bandeira da defesa dos russos da Ossétia do Sul, o Golias desta operação entrou em cena e rapidamente despachou o David, que teve de ir pedir ajuda ao Tio Sam.

Mas, foi o aliado do Tio Sam que se meteu ao barulho. Em mais uma jogada de visibilidade política, nacional e internacional, a presidência francesa da UE tomou as rédeas das operações e rapidamente pôs em marcha um cessar-fogo entre ambos os estados.

No entanto, os russos matreiros ainda não silenciaram todas as armas e os georgianos, de agressores, passam a agredidos e o seu presidente a evocar um genocídio apenas comparável à supressão dos judeus pelos nazis.

Hoje, Bush veio a público reafirmar o apoio dos EUA à Geórgia e indicar que Condoleeza Rice vai participar nas negociações de paz e que Robert Gates vai engendrar uma missão de auxílio humanitário na região.

Em tudo isto, as relações entre os EUA e a Rússia degradam-se ao passar do dia, muito mais quando Bush põe em causa os “motivos” dos russos e garante a incondicionalidade do apoio americano à Geórgia. Tudo isto, por um pequeno pedaço de terra. Alguém percebe?

Esta entrada foi publicada em Eclipses, Política, Sociedade. ligação permanente.

2 respostas a Lutar por (quase) nada

  1. Josué Lopes diz:

    E os créditos respeitantes a quem te permitiu ler o livro? Qué deles?

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