Por que é Quique melhor do que os outros?

No momento em que escrevo este post, Quique Flores é o melhor treinador em Portugal. Não o escrevo apenas porque o Benfica derrotou o Vitória de Guimarães em condições particularmente complicadas. Digo e escrevo-o porque Quique é diferente, e diferente para melhor.

O espanhol tem sido uma lufada de ar fresco no futebol português. Não é bronco nem agressivo, e está sempre disposto a explicar o porquê de algumas decisões que tem tomado.

Note-se, por exemplo, a sua postura perante o recente afastamento de Léo da equipa inicial e compare-se com a atitude de Jesualdo Ferreira em relação à troca de Nuno por Hélton na baliza portista.

Na sua relação com o público e com o jogo, Quique é diferente. Não tem problemas em falar com os jornalistas, nem em responder a qualquer tipo de perguntas. Assume que ainda tem de conhecer melhor a realidade da liga portuguesa e não tem problemas em elogiar outros treinadores da liga, tendo enaltecido Paulo Bento, Jesualdo Ferreira, Manuel Cajuda e até José Mota numa entrevista a um jornal espanhol.

Desde Mourinho que não tínhamos um treinador que se relacionasse de forma tão competente com a imprensa, embora Quique evite confrontos abertos ‘via’ comunicação social.

Quique tem o estilo e o perfil certo para assumir a pasta de treinador do século XXI. Veste-se bem, mas não tem problemas em ir para o banco em fato-de-treino. Está sempre bem arranjado, mas não mostra grandes dificuldades em ir com uma barba de alguns dias para os jogos.

Está à vontade na gestão do grupo. Nuno Gomes fez 3 jogos consecutivos a titular mas ontem não saiu do banco. Está zangado com o capitão de equipa? Nada disso. Simplesmente, as características do jogo adequavam-se mais à dupla Aimar e Suazo. Da mesma forma se pode explicar que Cardozo, apesar de ser o melhor marcador da equipa, não seja titular indiscutível.

Podem argumentar que Quique tem um plantel que lhe permite incutir e investir na rotatividade do grupo, mas a verdade é que quando Quique mexe no onze percebe-se o que quer mas, mesmo assim, ele depois explica as suas razões.

Não pretende guardar as suas decisões num baú da técnica e da táctica, imperceptível e incompreensível para a maioria. Quando erra também assume, como assumiu que não avaliou bem os jogos em Vila do Conde e em Matosinhos, frutos da sua inexperiência em trabalhar em Portugal.

Isto tudo para não falar da sua postura perante a arbitragem. Mesmo num jogo em que o Benfica foi tão prejudicado como ontem, Quique disse que não comentava a arbitragem por estar há pouco tempo em Portugal e por estar mais concentrado em melhorar e aumentar os índices e ritmos competitivos do grupo.

Desde Trapattoni que o Benfica não tinha um ‘cavalheiro’ no banco e, provavelmente, desde Eriksson que não tinha um treinador tão bom. Camacho, Koeman, Fernando Santos, Chalana foram todos mais do mesmo, não melhorando nem inovando em nada. Co Adriaanse, José Peseiro, Paulo Bento e Boloni foram apenas ilusões de que algo poderia mudar no futebol português e Jesualdo mostra que ainda é de outro tempo.

Para aquilo que é a realidade do futebol português, Quique é um treinador diferente dos outros. A sua personalidade é suficientemente forte para aguentar algumas críticas que choveram pelo facto do treinador querer adequar o estilo de jogo e a estratégia do Benfica a um 4-4-2 em linha sem tradição no clube. E, a pouco e pouco, vai conseguindo resultados dessa aposta, com a equipa cada vez mais coordenada e organizada.

Quique pode não ser campeão. Pode, até, nem ganhar nada – algo que eu duvido. Mas, a dose de realismo, classe, civismo e cavalheirismo que trouxe para o nosso futebol já chega para o colocar na lista dos melhores treinadores do Benfica dos últimos 15 anos. Agora, apenas precisamos de ver quão bom ele é no banco. Para já, os objectivos têm sido alcançados.

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4 respostas a Por que é Quique melhor do que os outros?

  1. PR diz:

    As qualidades que atribuis ao Quique são aquelas que sempre se elogiaram ao Queirós…

  2. A sério, o Queiroz deve ter-te roubado uma namorada ou coisa do género…

  3. O ponto era mesmo o Quique, não o Queirós. O que eu digo é que as características que atribuis ao Quique não podem ser utilizadas para aferir a sua qualidade. Se estivesse a perder dir-se-ia que a abertura à imprensa mina a confiança entre os jogadores, etc. As características que apontas tanto dão para um lado quanto para o outro. Ou seja, basicamente o que estou a dizer é que a tua análise é treta😛

  4. bottom line, aquilo que eu digo do quique é que o homem trouxe uma lufada de ar fresco para o Benfica e para o futebol em Portugal. Não o vês a dizer que a arbitragem é um “nojo” nem que os outros treinadores são incompetentes.

    a postura, discurso e a filosofia do espanhol são algo de estranho para o mundo do futebol em Portugal. e eu fico todo contente por isso.

    não sou adivinho e, por isso, não sei se vamos ganhar alguma coisa, ou não. mas, pelo menos, a estadia dele em portugal já deu para limpar um pouco o ar. e isso já é muito.

    entre o quique e o queirós, pouco haverá em comum para além do facto de não serem brejeiros.

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