A crónica de uma retirada anunciada

Esta semana, o Governo do Iraque sentou-se à mesa com o dos EUA e negociou a retirada dos americanos do país. O documento é extenso, mas não muito complicado. Ficou acordado que até meados de 2009 as tropas americanas irão deixar as ruas iraquianas.

A saída definitiva está marcada para 2011. Entretanto, e já a partir de 2009, todas as tropas americanas ficarão debaixo da autoridade das forças iraquianas, a quem terão de prestar contas.

O acordo acaba por ser bem melhor do que aquele que os iraquianos inicialmente esperavam. Uma administração Bush enfraquecida e avisada pelo futuro presidente que a saída do Iraque era prioritária, cedeu em diversas questões importantes, nomeadamente na chefia das forças de paz no local.

Não sendo inédito, não deixa de ser altamente invulgar que tropas americanas fiquem em território estrangeiro debaixo do comando das forças locais. Muito menos, de um país como o Iraque, até há pouco tempo visto como um inimigo selvagem que era preciso domesticar e, dentro dos possíveis, ocidentalizar.

Mais do que isso, a submissão de Bush representa a rendição americana. A realização de que o Iraque nunca será uma plataforma para aumentar a influência do país na região, como o Kuwait e a Arábia. Com este acordo, não vamos ter bases americanas no país, nem militares em digressão pelo Iraque.

O petróleo já foi negociado e não é de prever que os iraquianos deixem de cumprir esses contratos, particularmente favoráveis aos seus interesses – mas ainda mais favorável aos interesses das petrolíferas americanas e de algumas outras.

Com a situação relativamente pacificada – desde o aumento do número de tropas – no Iraque, o tempo é de devolver o seu a seu dono. O Iraque pertence aos iraquianos e a partir de 2009 também terão de ser eles a zelar pela sua segurança.

Claro que existe sempre o perigo de um aumento da insurgência, dos ataques dos rebeldes e opositores ao actual regime. Mas, essa é uma realidade que faz parte do dia-a-dia naquela parte do globo e para a qual o Governo iraquiano terá de estar alerta.

Bush, pelo menos oficialmente, acaba com a borrada que ajudou a criar. Não colocando em causa a destituição do ditador Saddam, mas mais as razões apresentadas para entrar no Iraque e a estratégia inicial de contenção dos fiéis ao regime deposto, o conflito no Iraque deixou marcas demasiadamente profundas nos EUA, quer ao nível da confiança interna, quer no plano do respeito da comunidade internacional.

Com a assinatura do acordo que prevê a saída em definitivo dos EUA do Iraque em 2011, Bush coloca um prazo oficial para o fim da guerra. Resta saber se os acontecimentos geopolíticos na região vão permitir que a data se mantenha.

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