Deixa o rapaz em frente ao computador!

Quando era mais novo, não gostava do pai do meu amigo Luís. Eu e o Luís fazíamos parte das camadas jovens do Sporting de Braga e o pai do Luís era quem nos levava para os treinos e jogos.

Era um homem simpático, que cumprimentava todas as pessoas na rua e que conhecia todos os pequenos comerciantes de São Vicente, a freguesia onde vivíamos. Eu e o Luís éramos vizinhos e desde sempre companheiros de futebol na rua. Sempre que havia uma bola, o pai do Luís incentivava o filho a jogar e, várias vezes, jogava também.

Adepto do FCP, o pai do Luís acreditava que o filho ia dar craque da bola. Por isso, não se irritava quando o menino tinha de faltar às aulas para ir aos treinos, ou deixava de fazer os trabalhos de casa para integrar as concentrações da equipa.

Enquanto que eu, por vezes, era “incentivado” a faltar aos treinos para estudar para um teste, o Luís estava sempre lá. Fosse o apronto no Campo da Ponte, nas Camélias ou na Rodovia, o Luís estava sempre lá.

Onde ele por vezes não estava era na sala de aula. Muitas vezes, faltava às primeiras aulas do dia, outras vezes faltava o dia todo. Não gostava muito daquilo e o pai não se chateava muito. Desde que não faltasse aos treinos…

E o pai dele ia aos treinos. E ia aos jogos. Fossem em Braga, Amares ou em Chaves, o pai do Luís acompanhava sempre a nossa equipa. A dada altura, até integrou o ‘staff’ técnico – massagista e roupeiro, creio.

E, por que não gostava dele? Porque quando a bola começava a rolar, o pai do Luís transformava-se. Deixava de ser o senhor engraçado e afável para o mais terrível e angustiado dos pais, um implacável e desagradável treinador de bancada.

Quando o Luís era suplente, exasperava com cada falhanço do meu colega que jogava na posição do seu filho. Quando o Luís estava a aquecer, ia para junto dele “orientar” o aquecimento. Quando o Luís estava em campo, estava sempre – e quero mesmo dizer sempre – a falar com ele.

O Luís não era mau jogador. Aliás, digo hoje que foi dos melhores com quem joguei. Jogava de cabeça levantada e era muito veloz. Quando não era o melhor jogador em campo, era um dos melhores. Nunca foi expulso, nunca foi castigado nem teve grandes lesões.

Mas, quando chegou à altura de chegar a sénior – por esta altura, já eu tinha deixado o Braga há muito tempo – disseram-lhe que não havia lugar para ele. A equipa ‘B’ tinha sido extinta e não havia espaço para ele no plantel. O Luís ficou triste. O pai ficou despedaçado.

O Pedro era meu vizinho. Um ano e meio mais velho do que eu, não gostava de desporto. Não gostava de correr e não percebia a piada do futebol. Desde que o conheço que o grande fascínio dele eram os computadores.

Aos 11 anos, já montava e desmontava o computador de casa. Aos 13, já conhecia todos os software e para que serviam. Aos 14 apresentou-me ao Napster, ferramenta impressionante para um rapazinho como eu era, naquela altura.

Desde que não se tornasse um eremita, o pai do Pedro não se importava que o filho ficasse a brincar com o computador. Engenheiro da PT – ainda hoje não sei o que o senhor faz ao certo – ouvi-o dizer várias vezes que o futuro estava nos computadores e que era bom o Pedro interessar-se por eles.

Com toda a naturalidade, o Pedro licenciou-se em engenharia informática e hoje, no primeiro emprego, trabalha numa multinacional. Ganha quase 2 mil euros – primeiro salário – a criar software para bancos. O Luís, ainda é um dos meus bons amigos. Estudou na escola profissional e é hoje aprendiz de electricista – ou já electricista a sério. Também não sei.

Nestas férias de Natal estive com estes dois amigos e comecei a pensar para mim: se o pai do Luís tivesse insistido menos na bola, talvez o filho não tivesse reprovado 3 vezes ao longo da sua vida escolar e hoje pudesse ter outras perspectivas de futuro. Se, por outro lado, o pai do Pedro tivesse insistido para que o filho desligasse a máquina e fosse correr atrás da bola – ou, apenas, correr – talvez ele hoje não estivesse a viver sozinho e a sustentar-se já há quase um ano.

Afinal, a educação a tem mesmo um papel fulcral na definição do futuro das gerações mais jovens. O Luís e o Pedro que o digam. 

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6 respostas a Deixa o rapaz em frente ao computador!

  1. PR diz:

    FODA-SE, PHILLIPE! 16 parágrafos para dizer isso?!😀

  2. Rui Passos Rocha diz:

    Um conselho aos próximos leitores: façam como eu e leiam apenas o primeiro e o último parágrafos. Deu pra perceber a lógica da coisa😉

  3. gosto de contar histórias.

  4. Marlene diz:

    A moral desta história enferma de uma certa miopia…
    Tens pleno direito de puxar a brasa a uma das sardinhas, mas eu vou puxá-la a outra: parece-me (mas se calhar também estou míope) ler nas entrelinhas que o “Pedro” é um exemplo de sucesso; e o outro é um caso falhado. A Educação é fulcral, estamos de acordo. Mas acho que medir o sucesso pessoal de alguém a partir do salário e da fatiota que enverga para o desempenho das funções não é um critério legítimo. Tenho visto bons engenheiros repensarem a vida porque a profissão é excessivamente desgastante, pouco gratificante e demasiado absorvente – porque de tão exigente suga a vida pessoal. Bem, também não vou dizer que tenho visto electricistas nos píncaros da felicidade, porque não tenho. Pronto, e todo este parágrafo apenas para dizer que nem tudo o reluz..é ouro!

  5. Permite-me discordar desta tua acusação de “miopia”…

    Não se trata de puxar a brasa a qualquer uma das sardinhas. Se quiseres, apresento-te às mães de ambos e vês qual delas está mais contente com o percurso do filho.

    Não se trata de dizer que só quem tira cursos superiores é que pode ter sucesso na vida. Trata-se de dizer que a educação – quer a recebida em casa, quer a recebida na escola – são determinantes no desenrolar da tua vida, nomeadamente ao nível das tuas escolhas profissionais.

    Tenho muitos amigos que também jogaram à bola no nosso tempo, mas que tiveram um outro tipo de acompanhamento em casa e hoje encaram o seu futuro de outra maneira.

    Se o pai do Luís tivesse tido outra postura, talvez o filho tivesse tido outros resultados e uma outra preparação para encarar o futuro e não estivesse, aos 22 anos, a lamentar grande parte daquilo que fez e horrorosamente deprimido.

    Acredito que haja muito bom engenheiro cansado e a repensar as escolhas que fez. Porém, duvido que haja assim tanto engeheiro com vontade de deixar tudo para trás e seguir uma carreira na animação social, ou outra qualquer profissão porventura menos exigente ao nível do tempo – isto para não dizer que quanto maior o cheque, maior a tua tolerância às longas horas no escritório.

    Na sociedade em que vivemos, quando fazes parte de um certo estrato social (classe média para cima) há certas expectativas sobre aquilo que tu possas vir a fazer da tua vida. E, o curso superior é uma delas. Porém, não é o curso que te vai dar o que quer que seja. Terás de ser tu a procurar.

    E é essa a moral da história: se fores bom e tiveres acompanhamento, terás um futuro potencialmente melhor do que se negligenciares a tua educação em função do que quer que seja.

    No caso do Ronaldo, resultou. Mas, a lei das probabilidades diz que há mais “Luíses” por aí do que “Cristianos”.

    O texto ainda é míope?🙂

  6. Marlene diz:

    Philipe… não estou a fazer campanha anti-formação universitária. Nem poderia, com legitimidade e credibilidade, fazê-lo. Afinal, foi também esse o caminho que escolhi. E não foi por acaso. Onde quero chegar é que a frequência de um ensino superior não é garantia nem de um bom emprego (estamos fartinhos de o saber), nem de desenvolvimento pessoal e intelectual do indivíduo. É um caminho possível, eventualmente até o mais fácil, mas não o único nem o melhor. Não existirão muitos casos de auto-didatismo (lá está, não é essa a via mais fácil), mas os poucos que há, fazem ver. A pessoa mais culta e humana que conheço não frequentou o ensino superior, não tem um emprego numa companhia de prestígio, nem é bem paga: é missionária e vive num país de terceiro mundo … por opção pessoal. E faz-me pensar muitas vezes nas minhas próprias opções.

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